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Ava Mendoza
She moves in Unnatural Ways


Ava Mendoza não faz música convencional e ainda bem. A improvisação e o noise de Oakland têm muito do ADN da guitarrista americana, que em 2013 se mudou para Nova Iorque. De uma cidade para a outra, tratou de reconfigurar Unnatural Ways, um trio que entretanto também mudou de baterista. É já com Sam Ospovat que o projecto se apresenta esta quinta-feira no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. No baixo estará Tim Dahl, que no sábado já marcou presença no Jazz em Agosto como parte de um outro trio, o Pulverize the Sound. A música estilhaçada dos Unnatural Ways não passou ao lado do mestre John Zorn, que rapidamente os convidou a editarem pela sua label Tzadik. Às 21h30 de quinta, o anfiteatro de pedra da Gulbenkian vai testemunhar ao vivo a música nada empedernida do trio.
Depois de tomares de assalto a cena improv e noise de Oakland, mudaste-te para Brooklyn. Porquê Nova Iorque neste ponto do teu caminho musical?

Eu vivi em Oakland durante 10 anos e gosto muito daquilo. Mas é muito mais fácil trabalhar em música criativa em Nova Iorque. Há mais músicos em Nova Iorque do que na Bay Area de São Francisco, ainda que haja músicos óptimos na Bay. É mais fácil fazer digressões na costa leste porque as cidades estão mais próximas umas das outras. E também é mais fácil chegar à Europa em tournée a partir de Nova Iorque do que a partir de Oakland.

No trio Unnatural Ways, juntam-se a ti um tipo do metal e um experimentalista do art-rock. O que é que fez do Tim Dahl e do Sam Ospovat peças-chave para o que pretendes?

O Tim e o Sam são especiais no sentido em que conseguem tocar música difícil e pesada e também são bons improvisadores. Ambos têm um óptimo sentido de ritmo mas são capazes de cenas excitantes e completamente abstractas. O Tim chega a sons e a timbres que poucos baixistas conseguem e o Sam é um baterista de primeira linha. E depois, são bons amigos e é divertido estar presa num avião ou numa carrinha com eles.



Também já tocaste com mestres da guitarra como o Nels Cline. Que importância têm estas colaborações na definição da tua música?

É sempre inspirador colaborar com músicos com uma identidade bem definida. O Nels, o Fred Frith e a Carla Bozulich são alguns dos músicos um pouco mais velhos com quem trabalhei. Eles têm personalidades fortes e formadas e tocar com eles torna inevitável que eu pense por que raio eu não sou como eles! Admiro a música deles e quando colaboramos ou eu integro a banda deles, fico muito entusiasmada. Claro que eu tenho de fazer algo diferente quando estamos juntos em palco e isso faz-me procurar e crescer na minha própria música.

O vídeo de “Shapeshifters”, o primeiro single do álbum homónimo do ano passado, tem cenas de terror de baixo orçamento. Curtes esse tipo de coisas?

[risos] Eu curti imenso os filmes do Lucio Fulci, da Hammer Films, etc. Eu e o Dylan Pecora, que fez o vídeo de “Shapeshifters”, trocámos algumas ideias antes de ele começar a trabalhar e concordámos nalguns temas básicos. Ele perguntou: “E que tal marcianos que obrigam escravos humanos a fazer um filme de ficção científica de baixo orçamento sobre marcianos?”. E eu disse: “Boa!”. Algumas semanas mais tarde, ele enviou-me o vídeo quase pronto e eu adorei.



A música do trio é uma combinação de blues, jazz, psicadelismo e punk. Achas que a música é um caldeirão cujo molde deve ser constantemente partido?

Eu não penso muito em termos de estilo. Quando escrevo música, penso na forma de cada canção, que estrutura quero, quanta improvisação e onde e que tipo de tom e sentido rítmico quero que os outros elementos da banda tenham. Não penso em combinar este estilo com aquele. Na verdade, em 2016 as pessoas estão tão obcecadas com o estilo que isso acaba por se intrometer no modo de fazer música interessante. Toda a gente pode ouvir muitos tipos de música porque podem descarregar qualquer coisa da Internet... OK! A desvantagem é que as pessoas ficam obcecadas em classificar a música e não conseguem pensar em nada mais. A categorização é parte do modo como os nossos cérebros trabalham e pode ser útil. Mas é incapacitante pensar apenas nesses termos. Perceber uma ideia, a forma, o tom e o sentido rítmico em qualquer estilo de música é mais importante para mim. De resto, os músicos são feiticeiros com poderes encantatórios e usam a magia negra ou branca que lhes está disponível.

Quanto da ética DIY ainda se encontra nos Unnatural Ways?

Muito. Os Unnatural Ways ainda dão muitos concertos DIY em cada digressão. Andar em tournée dessa forma durante anos fez-me acreditar que tudo no modo como uma banda opera acaba por se reflectir na música – a forma como partilhas a condução, geres o dinheiro, a tua relação com os outros elementos, com os promotores, o que fazes para te divertires nos dias de folga... A música é psicológica e física. O modo como os membros de uma banda passam tempo juntos e quanto investem na música transparece no palco quando tocas. Por isso, tento lidar de uma forma honesta com tudo o que diga respeito à banda, desde os negócios às relações, e tento tomar decisões de um modo claro e tratar toda a gente, incluindo eu, de forma justa.

Como é que o John Zorn chegou à vossa música? E qual é o ponto de situação do vosso disco na Tzadik?

Penso que ele me ouviu porque eu toquei na Gravity, a banda do Fred Frith, um par de vezes no festival de Moers [na Alemanha]. Os Unnatural Ways tocaram em Moers no mesmo ano e, por isso, ele viu o vídeo da nossa actuação no site do festival e convidou-nos a lançar o nosso próximo disco na Tzadik. Está tudo a correr muito bem. O disco chama-se “We Aliens”, vai estar à venda no Jazz em Agosto e estou muito satisfeita com o resultado.


Hélder Gomes
hefgomes@gmail.com
10/08/2016