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Grutera
Caos medrado


Surgiu em 2012, com o seu primeiro trabalho, Palavras Gastas. Alguns anos depois, Guilherme Efe, que sempre se reviu no metal, aparece com um disco que representa uma analogia, percebemos nós mais tarde, facilmente aplicável à sua música: a do amadurecimento do vinho. É em Sur Lie que vemos o crescimento de Grutera, essa palavra que nada mais significa do que aquilo que representa: um homem, uma cadeira e a sua guitarra. Temos de acrescentar, também a esta equação, um mosteiro, ou uma cave de vinhos como a do Esporão - um lugar qualquer que dê uma identidade diferente a Grutera sem que nunca se perca das suas raízes. Imaginemos, assim, um homem, uma guitarra que já faz parte de si como um braço ou uma perna e um sítio onde normalmente impera o silêncio. Assim se concretiza Grutera.
Qual é o significado de grutera?

Não tem significado nenhum. Foi uma palavra que inventei há uns tempos, quando tinha bandas de metal. Na altura não utilizámos esse nome, utilizámos outro… mas eu gostava da palavra. E quando eu gravei o primeiro disco foi uma coisa muito rápida. Nunca tinha pensado gravar um disco de guitarra a solo, nem fazer nada a solo. Mas não queria utilizar o meu nome… E a proposta foi assim muito rápida. Fiz uma banda sonora para uma curta de um amigo meu, que era realizador… A curta recebeu prémios, a banda sonora também foi referenciada e rapidamente surgiu o convite para gravar o primeiro disco… E eu não queria que se chamasse “Guilherme Efe”, porque estava associado a outras bandas, então ia haver sempre aquela conotação de eu ter vindo de bandas de metal e estar agora a tocar a solo. Então utilizei uma palavra [nova], porque sempre achei piada a criar palavras que só signifiquem aquilo… Portanto o significado de grutera é só aquele que ouves e mais nada. E se procurares na net “grutera”, só te aparece aquilo, não aparece mais nada (risos).

Escolhes sítios peculiares para gravares os teus álbuns. Gravaste o anterior num mosteiro e o mais recente, “Sur Lie”, na Herdade do Esporão. Porquê?

Tem a ver com o instrumento que estás a tocar. É uma guitarra clássica e se fores para um estúdio, o som é muito seco e tem pouca identidade… É muito típico de outros guitarristas de flamenco, que podem ser facilmente associados a outra coisa. O facto de não teres outros instrumentos – se fores para um espaço onde a acústica é diferente de disco para disco – é quase como se tivesses um acompanhamento, que não é uma banda mas é a reverberação, é diferente… O espaço cria logo uma identidade diferente entre um disco e o outro. E depois porque a interpretação que dás às músicas varia muito conforme o espaço onde tocas. Se tocares num sítio com um som seco, o que fazes é bastante matemático. Mas se te levarem para um sítio que não é o teu habitual, o que estás a interpretar, a tua dinâmica muda sempre… Os segundos, os ataques são mais intensos… A resposta da guitarra varia conforme o sítio onde estás, enquanto em estúdio isto é tudo muito mais controlado. Isto também vem do meu produtor, que procura sempre a imprevisibilidade e nunca controlar o que está a acontecer enquanto estás a gravar. Se fores para um sítio que não conheces, a utilizar um material pela primeira vez, não consegues prever a resposta das coisas. E ter esse caos no disco é porreiro, porque vais para lá e não sabes o que trazes. Foi por esses dois motivos, então: para dar identidade à guitarra e para ter um ambiente não tão controlado.

Como é a tua relação com a tua guitarra?

Não sou homem de muitas guitarras (risos). Gosto de preservar aquela guitarra específica. Tenho quatro guitarras, mas uso essencialmente duas. Uma delas está com as madeiras muito secas, então está a soar muito bem… E por eu não a querer estragar ao vivo e ao viajar com ela, toco com outra guitarra eletrificada em concertos, para poder utilizar pedais e estar mais confortável em palco… Porque a outra é acústica e só a uso para gravar os discos, neste momento, até porque já levou bastante porrada. E depois tenho uma guitarra de cordas de aço, que comprei em França e é uma guitarra muito específica, com sons muitos específicos. Tem um som muito quente, que eu gosto muito. Mas a minha relação com as minhas guitarras é a mesma relação que eu tenho com uma pessoa qualquer. Um dia és tu que pegas nessa pessoa, no outro é ela que pega em ti. E com a guitarra é igual… Uns dias tu falas com ela e ela responde-te, outros não te diz nada e há dias em que ela te fala sem tu fazeres quase nada… A minha relação com as minhas guitarras é a mesma que tu tens com um amigo, com uma namorada…

Normalmente és comparado com Norberto Lobo, Filho da Mãe, Dead Combo. O que achas dessa comparação?

Fico contente, claro (risos). É malta que eu só conheci depois de ter entrado neste meio. Eu quando fiz o primeiro disco e comecei a tocar ao vivo, não conhecia mesmo Norberto Lobo, nem Filho da Mãe e Dead Combo lembro-me de a minha irmã me falar uma vez, mas nunca liguei muito, porque sempre ouvi música mais pesada. Mesmo hoje em dia, não ouço música parecida com a que eu faço. Mas adoro ver concertos deles, sempre. Acho que são músicos que são válidos em qualquer parte do Mundo e que não têm o devido reconhecimento cá… Mas gosto de os ver como artistas performativos, gosto de ver a maneira como eles tratam a guitarra. Mas não ouço muito para não me prender, por preocupação em fazer coisas diferentes… Claro que quando eles fazem coisas novas, eu oiço e é um incentivo para mim e dá-me mais motivação… Mas a comparação não me faz confusão nenhuma. Temos todos linguagens diferentes… Eu acho que a guitarra é um instrumento que é muito pessoal quando alguém a toca – tem a ver com o teu corpo todo. Ao contrário do piano e da guitarra eléctrica, é diferente porque tem muito a ver com o teu corpo e o som sai quase tanto dele como do instrumento… A maneira como tocas tem muita influência no que vai acontecer a seguir – a força, o sítio onde tocas, as afinações que usas… E nisso somos todos diferentes e ainda bem. Mas adoro e já toquei com o Norberto Lobo, já tive a oportunidade de falar com o Rui (Filho da Mãe) sobre música… São artistas que são válidos em qualquer parte do Mundo.

© Sérgio Santos

Falaste de referências. Quem são as tuas principais referências?

As minhas referências continuam a ser coisas mais pesadas. Oiço muita música pesada, metal. Gosto de muito poucas bandas de metal, mas gosto muito das poucas que conheço. E acho que as minhas referências, quando toco, assentam todas nisso. Depois, ao longo de várias fases da minha vida, tendo a ouvir mais música brasileira, mais jazz, pop nunca ouvi muito, nem rock, mas flamenco, por exemplo… Houve uma fase em que ouvia muito flamenco. Mas a pesada é a única que não sai do iPod… Metes bandas, tiras, mas essa é a única que nunca sai de lá.

Como é que fizeste essa transição do metal para aqui? Foi fácil?

Não foi pensada, sequer. Foi acidental. Eu tocava em bandas de metal e quando vim estudar para o Porto – os meus amigos estavam todos em Lisboa e por essa zona – tinha a minha guitarra clássica comigo e foi acontecendo. Fui tendo tido menos tempo para ensaiar nessas bandas, então fui fazendo malhas em guitarra clássica. Foi muito natural. Eu nunca fui grande guitarrista de guitarra eléctrica – não tinha talento nenhum especial para fazer aquilo… Quando comecei a tocar guitarra clássica mais por necessidade, porque não tinha mais nada à mão, senti que havia uma facilidade em fazer aquilo que não era habitual na minha vida – nem estudar, nem conversar, nem tocar guitarra eléctrica. Quando comecei a tocar guitarra clássica, senti que aquilo era fácil demais… As primeiras vezes que toquei – com as duas mãos, sem palheta – achei que era fácil fazer aquilo soar bem. E agarrei-me a isso.

Tu não és do Porto, mas ficaste cá a viver. Que te diz esta cidade? Em termos musicais e não só…

Vim para o Porto porque não gosto de Lisboa (risos). E tenho os meus amigos todos lá, estão todos a viver a estudar lá… E só vou quando vou lá tocar. Vim para cá por opção – por o Porto não ser uma cidade demasiado cosmopolita, demasiado fria… Por não ter sintomas de cidade grande, por ser uma aldeia um bocadinho maior do que as vilas de Portugal, por as pessoas estarem próximas de ti… Musicalmente e a nível de cultura, o Porto tem imensa coisa a acontecer. Por não ser tão multicultural como é Lisboa, ainda consegues manter uma identidade… As pessoas juntam-se para tocar, para fazer galerias ou para fazer exposições de arte… É muito fácil. E depois é uma cidade muito bonita. É fácil vires para cá e começares a pintar ou a tirar fotografias, como eu, por exemplo, que comecei há pouco tempo. É uma cidade que tem muito cheiro e muito sabor. É muito fácil despoletares os teus sentidos numa cidade assim, onde as coisas são tão puras ainda.

Como é o teu processo criativo? Como é que decides o rumo de um álbum? Ou o seu tema?

Para já, não tenho controlo nenhum sobre o que faço. É um caos completo e não sei de onde é que as coisas vêm e como saem… Mas há sempre ali um momento que sei que vai ser o esqueleto do disco. E depois começas a montar coisas para a frente e para trás. O primeiro disco foi diferente, porque era um bolo de canções que eu já tinha feito. O segundo foi o resultado de estar na estrada durante bastante tempo e foram aparecendo muitas músicas novas, que faziam muito sentido umas com as outras porque tinham sido feitas na mesma altura. O Sur Lie foi diferente, nem sequer foi pensado. Não sabia que ia ter tempo na minha vida para fazer um terceiro disco. Mas estava a explorar uma afinação nova e começaram a aparecer dois ou três temas muito engraçados e foi diferente. Este disco ouve-se do princípio ao fim como se fosse uma música só. E ele foi feito assim. O esqueleto do disco foi aparecendo, com umas coisas para a frente e outras para trás. Daí ser tão conceptual e as músicas estarem ligadas umas às outras.

© Sérgio Santos

Costumas trabalhar sempre com o mesmo produtor?

O Tiago Simão é tipo o meu pai na música. É das pessoas mais inteligentes e talentosas que eu já conheci. E gosta mais da outra profissão dele do que da música. E o que faz, faz para os amigos… É impecável e sem ele não teria feito nada disto. Aliás, o terceiro disco apareceu porque ele um dia no estúdio me perguntou “quando é que vais gravar o terceiro disco?” e eu disse que não estava a pensar nisso. Ele disse-me que estava na altura, já. E é uma pessoa que respeito imenso, com quem aprendi imenso, mais concretamente a estética de música, de tudo relacionado com música. E é a pessoa em quem eu mais confio porque é a pessoa com melhor gosto musical que eu conheço. Por decisão minha, ele vai estar sempre presente na produção de um disco meu, porque ele foi preponderante, em certas alturas, em decidir o rumo de várias músicas. Às vezes só fico contente quando tenho a aprovação dele em algumas das músicas.

A tua música é como o vinho? Sentes que sofreu um processo de amadurecimento?

Sim. Sur Lie é um processo de envelhecimento do vinho e isso é uma analogia perfeita em relação ao que tem vindo a acontecer comigo enquanto músico. Não só porque é um processo de envelhecimento, mas porque é um processo de envelhecimento sobre borras… Eu sinto sempre vergonha do que já fiz quando faço coisas novas. Enquanto não crio um distanciamento suficiente em relação àquilo que já fiz, acho sempre que aquilo está uma porcaria, comparado com o que faço a seguir. E esse processo (sur lie) faz sentido para mim porque eu só faço coisas boas, se antes fizer porcaria. Se calhar, daqui a uns tempos, já consigo ver as coisas com outro distanciamento. Há poucos dias, uma rádio passou um tema do primeiro disco – e como eu já não me lembrava daquilo, nem do processo, já ouvia aquilo como um estranho e achei que não estava assim tão mau. E este disco chama-se Sur Lie por ser uma analogia a esse processo de fermentação – ao de amadureceres enquanto músico sobre as coisas que já fizeste antes, sejam elas boas ou más.

Há pouco falaste sobre o pouco reconhecimento que Norberto Lobo, Filho da Mãe e Dead Combo têm em Portugal. Sentes o mesmo?

Sim, mas não me preocupa. Porque também não quero ser músico. Eu gosto de música e de fazer música, mas acho que é um prazer demasiado grande para eu viver dele. E, sendo realista, no país que temos, com o mercado que temos, é impensável. Eu tenho outra profissão e gosto do que faço. Se vivesse noutro país ou noutras condições, não sou hipócrita ao ponto de dizer que não seria músico só. Mas sendo realista, em miúdo nunca pensei ser músico, porque sempre tive os pés bastante assentes na terra. Eu já vivi da música durante três ou quatro anos, mas foi sempre a pensar “enquanto posso”. Para mim já foi um sonho tornado realidade – um sonho que eu nem sequer tive. Mas tenho muita pena de artistas como eles viverem da música e terem de lutar tanto e não serem devidamente reconhecidos. No meu caso, não há, porque sou mais novo. E quando tocas guitarra a solo, é preciso teres alguma bagagem para teres a credibilidade devida. Então não tenho credibilidade, porque sou muito novo. E não sou de andar às cabeçadas durante quatro ou cincos anos, para me darem reconhecimento só nessa altura porque sou mais velho. Depois, porque a indústria é um meio que perde todo o romance que eu achava que tinha, assim que entras nele... Há muita coisa a acontecer que não devia acontecer. E não estou minimamente preocupado com isso, porque não tenho a ambição de ser músico profissional. É um prazer demasiado grande para mim, para ter um dia que depender dele. Quero tocar quando me apetece. Havia dias em que tinha de tocar e não me apetecia e isso assustava-me… Não quero nunca perder o interesse em tocar guitarra.

Onde te podemos apanhar a seguir? Quando é que estás a pensar levar a tua guitarra ou as tuas guitarras aos palcos?

Gosto de tocar salas de todos os géneros. Gosto de tocar em salas pequenas, com ambientes intimistas. E também gosto de tocar em salas grandes, se tiverem muita gente. Neste momento, posso escolher mais ou menos os concertos que não quero dar. Então vejo-me a tocar em sítios que sei que me querem ouvir. Pode ser em qualquer lado – num anfiteatro ou numa galeria pequena. Neste momento estou mais selectivo em relação aos sítios onde quero tocar não por arrogância, mas por não ter tempo para tocar como tinha antes. Agora vou tocar em Setúbal no Ciclo de Jazz e dá-me imenso prazer voltar a sítios e rever amigos. As únicas alturas em que os vejo é nestas alturas, quando vou tocar. E a minha primeira preocupação, quando estou a organizar concertos, é se vou ter com os meus amigos. Vou por causa das pessoas.


Rita Neves
ritaneves31@gmail.com
12/02/2016