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Aline Fraz√£o
Entre a ruptura e a continuidade


É ela mesmo que o diz. Insular, o novo disco de Aline Frazão, é um misto entre ruptura e continuidade. O seu terceiro disco de originais, gravado numa pequena ilha na Escócia, é uma promessa de equilíbrio entre ambas as realidades. Sem qualquer tipo de braço de ferro ou conflito. Este é também obviamente um disco que confirma (seria preciso ainda?) a angolana como uma das mais interessantes vozes da lusofonia. É um disco feito a várias mãos: dos músicos à produção passando pelo artwork, Insular é um disco de parcerias, de encontros, de partilhas. E também um disco feito a partir de um papel em branco, a redescobrir-se a cada instante. Para saber mais acerca de Insular, fomos bater à porta certa. Aline Frazão é uma daquelas artistas que parece retirar real prazer ao falar acerca do seu trabalho - e isso nota-se nas suas palavras. E isso, parecendo que não, é algo verdadeiramente refrescante.
Parece-me que este é um disco totalmente diferente de Clave Bantu ou de Movimento. Assumes essa ambição?

Acho que é um disco que tem metade de ruptura e metade de continuidade. Há várias canções deste disco que poderiam se enquadrar nos anteriores. As canções, letra e composição, continuam a ter uma marca autoral bem vincada. O que muda aqui, de facto, é toda a abordagem musical, a aventura em que me meti, as novidades ao nível dos instrumentos, das parcerias, a electricidade nas guitarras e a produção musical assinada pelo Giles Perring.

Em termos de processo, foi um disco muito diferente dos anteriores? Quais foram os maiores desafios na sua concepção?

Sim, Insular é muito marcado pelo lugar onde foi gravado, não só a Ilha de Jura, na Escócia, mas a casa-estúdio onde estivemos a trabalhar durante 3 semanas. É um disco que respira de um compromisso com esse retiro geográfico. Para além do Pedro Geraldes, com quem comecei a trabalhar antes da ida para Jura, durante toda a pré-produção, conheci os outros músicos que entram no disco só lá na ilha. E correu muito bem. O Simon Edwards no baixo, a Esther Swift na harpa e a Sarah Homer no clarinete, além do próprio Giles Perring na percussão. Foi um processo super interessante. Eles chegavam e trabalhávamos com eles durante 2 ou 3 dias nas canções, algumas vezes com mais ideias pré-concebidas, outras vezes descobrindo desde o zero. Toda uma aventura... Mas que no final teve o resultado que todos procurávamos.

© Dinis Santos

Leio algures que o disco contou com a participação decisiva de Pedro Geraldes. O que é que isto quer dizer ao certo?

Convidei o Pedro para se juntar à banda uns meses antes de gravar o disco, para uma tour na Alemanha. A entrada dele, da sonoridade dele e da personalidade musical que tem, enriqueceu muito o processo criativo de "Insular". Trabalhámos juntos na pré-produção do álbum e ele também embarcou para a aventura de Jura. Acho que qualquer pessoa que oiça o disco entende facilmente o quão decisivas são as guitarras do Pedro nestas músicas. Acrescenta um carácter singular, com uma intensidade e ao mesmo tempo uma sensibilidade únicas. Para mim, pessoalmente, foi uma grande oportunidade trabalhar com ele. Aprendi imenso, todos os dias.

Neste disco contas com muitas novas parcerias. Queres contar-nos como acontece e como de traduziu cada uma destas colaborações?

"O Som do Jacarandá" é um poema da angolana Ana Paula Tavares que eu musiquei. Acaba por ser o lado mais solar do disco, uma letra cheia de vida dentro, texturas, cores, cheiros. A Ana Paula, que além de grande poetisa é hoje uma amiga muito especial, deixou-me dar música às suas palavras, algo que me apeteceia fazer já muito tempo, mesmo pela afinidade que sinto. Já a parceria com a Capicua vem na linha das outras parcerias que fizemos e, claro, também da nossa amizade. "A Louca" surge de uma conversa que tivemos num jantar, onde eu lhe contava que tinha visto um vídeo gravado em Luanda, de uma mulher transtornada a andar pelas ruas da cidade, gozada pelos que gravavam a cena com o telemóvel. A Ana decidiu escrever uma letra sobre isso. E o resultado é absolutamente genial, com uma precisão na escrita que fez com que a música me demorasse tempo a sair. Depois, o Toty Sa'Med, músico angolano e amigo de há muitos anos, acompanha-me no "Susana", o tema de fecho do disco. É uma música especial, em kimbundo, da autoria da Rosita Palma, uma compositora de culto na música popular angolana. Gravamos esta música na cave de um teatro lisboeta, semanas antes de ir para Jura. Por fim, não gostaria deixar de referir a colaboração importantíssima do António Jorge Gonçalves, que pintou em aguarela a capa deste disco e cuidou de todo o artwork, com uma generosidade imensa e um talento extraordinário para traduzir estas canções em imagens. Outro grande amigo. Afinal, este disco está mesmo cheio de amigos. [risos]

Porquê gravar este disco numa pequena ilha escocesa? Como se dá essa oportunidade?

O desafia foi-me lançado pelo Carlos Seixas. Ele conhecia o trabalho do Giles Perring e falou-me do seu estúdio, da ilha de Jura, dessa ideia de ir para o norte... E eu achei que era uma loucura, claro. Mas que iria fazer tudo para conseguir fazer acontecer essa loucura. E assim foi. Conheci o Giles na Alemanha, durante aquela tour onde o Pedro participou, e gostei muito dele. O resto foi acontecendo e quando dei balanço, estávamos a chegar à ilha prometida. [risos]

É daí que vem o titulo deste disco, suponho?

Também. Escrevi a música "Insular" antes de saber que ía para Jura. Na verdade tudo se foi conjugando, peça por peça. "Insular" remete para ilha, mas também para isolamento, solidão, retiro. O disco dança à volta desses conceitos (e dos seus opostos), com toda a liberdade poética. É um disco que fala da ida e do regresso, da solidão e da partilha, da identidade individual e de uma colectiva.

© Dinis Santos

Achas que os álbuns, os discos com princípio meio e fim, têm a mesma força do que tinham há, digamos 15 anos? Ainda acreditas neste formato?

Acredito cada vez mais nesse formato e desfruto cada vez mais de ouvir álbuns. O consumo de músicas avulso não me interessa. Não me fica muito dessa experiência. Gosto de ouvir álbuns completos, gosto de acompanhar a discografia dos artistas que mais sigo e depois, claro, ir aos concertos. É o ciclo completo. Não gosto da pressa dos tempos que correm. Gosto mais do tempo analógico.

Sentes-te com aquela energia contagiante de quem vai mostrar um filho ao mundo? Quais são as tuas expectativas para esta criança?

Acho que esta foi a primeira vez que me senti tranquila ao terminar um disco. Estou muito contente com o resultado final e feliz por poder partilhá-lo com o mundo. Mas as expectativas são relativamente baixas... Há muita coisa mais importante a acontecer no mundo (e no meu país) do que o lançamento deste disco, apesar de estar a ser muito bem recebido. Isso deixa-me contente, claro que sim. De resto, tenho imensa vontade de o apresentar ao vivo, isso sim.

Como vai ser apresentar este disco ao vivo?

Essa é a grande pergunta... Ando a trabalhar nisso estes dias e prometo chegar a algum lugar em breve. Há muitas maneiras de o fazer. O que importa é que as canções sejam defendidas com o corpo todo, por cada elemento da banda. O sentimento, a palavra, a entrega. Isso vai ter que estar.

O que dizer acerca daquilo que se passa em Angola que ainda não tenhas dito no jornal Rede Angola? O que é que se pode desejar para o país neste momento?

Não há muito mais a ser dito a não ser a repetição. Há esperança, sempre. E há muito caminho pela frente. São meses difíceis para o país, num ano simbolicamente carregado, com a comemoração dos 40 anos da nossa independência. Acredito na minha geração e acredito que há muita gente descontente em todos os sectores da sociedade. Há, obviamente, um longo caminho pela frente, para que Angola seja um país igualitário e completamente democrático. São lutas diárias, no fundo.

O que dizes acerca do que se vem passando no mundo nas últimas semanas. Há quem diga que tudo isto é circular, que vai e vem. Acreditas? És uma optimista?

Tenho acompanhado com muita preocupação, como todo o mundo. Para além dos problemas políticos em Angola, é muito grave tudo o que está a acontecer na Síria, na Nigéria, no Iraque. A desconfiança e a tensão que se vive na Europa, o medo... Acho que é importante tentar ir à raiz dos problemas, que apesar de ser uma expressão corriqueira, não se pratica amiúde. E preocupa-me que a direita europeia ganhe mais espaço, fazendo uso de argumentos xenófobos para fazer valer o ódio ao outro. Enfim, dói-me a dor do mundo, cada vez que a violência se expressa. O optimismo é uma palavra simples demais. É preciso ver a realidade com os olhos limpos, para poder transformá-la pouco a pouco, equilibrando as balanças dia após dia, mesmo quando parece que estamos no meio de uma tempestade.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
02/12/2015