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Duquesa
Pop de sangue azul


A primeira vez que ouvimos falar dele era ainda um adolescente imberbe (com cerca de 16 anos) vindo de Barcelos, essa meca mitificada da alternativa portuguesa. Nuno Rodrigues, ou Duquesa, continua imberbe mas pelo menos não na música. Mais de cinco anos de experiência com os companheiros de The Glockenwise valeram-lhe dois álbuns, presenças em festivais como Milhões de Festa, Rock in Rio ou Super Bock Super Rock, e uma digressão europeia. Duquesa surge de uma vontade excessiva de escrever canções que, por sua vez, não se encaixavam no espírito da banda. Momentos com a namorada, gelados, verão, vizinhança, que, no EP homónimo, se transformam em refrões catchy com referências aos clássicos da pop. Tudo despretensioso, tudo descomprometido. Em Duquesa não há tempo para sentir pressões ou responsabilidades, não se teme pela fugacidade do mundo contemporâneo, não há ambições desmesuradas e obstinadas a longo prazo. Como diz Duquesa, “logo se verá”.
Como surgiu a necessidade de criares um projecto a solo?

Não partiu exactamente de uma necessidade. Foi, antes, muito mais aleatório: por escrever canções com alguma regularidade apercebi-me que “sobravam”, entre as quais não podia aproveitar para Glockenwise, canções com um registo diferente, mais suave talvez. Duquesa aparece por epifania, por ter uma carteira de canções soltas que falavam das mesmas coisas.

Apesar de ser diferente de The Glockenwise, há alguns pontos de convergência: a estrutura ou os refrões catchy. A falta de pretensiosismo musical é um objectivo ou uma consequência?

É consequência feita obectivo, ou seja, de facto eu gosto de escrever canções simples e directas e faço-o naturalmente o que eventualmente começa a carregar alguma intencionalidade. Na verdade, e apesar de o formato de Duquesa ser bastante diferente em termos criativos e logísticos de Glockenwise, nunca me aventurei noutros géneros mais expansivos ou esotéricos, não tanto por falta de interesse mas, bem mais, por falta de oportunidade. A falta de pretensiosismo não deve ser só aferida pela estrutura ou catchyness dos refrões mas, antes, pelos temas que retrato e a honestidade com que falo. Há bandas com sonoridades simples, dançáveis ou divertidas que têm imenso de intelectual ou artístico; veja-se o caso dos Talking Heads, por exemplo.

Há um je ne sais quoi de nobiliárquico neste projecto ou não se chamasse Duquesa. Já em The Glockenwise dedicavas uma música a Napoleon... Como explicas estas referências?

© Luísa Cativo

Padeço de um flirt interminável com as coisas da História. Na minha família toda a gente é de História ou das Ciências Sociais, por isso ler sobre a Revolução Francesa ou a fundação de Portugal estava ao meu alcance e era normal para mim em miúdo. Isso também explica o porquê de nunca ser convidado para jogar à bola na escola. É verdade que tenho um interesse, pouco académico diga-se, em História e isso reflecte-se no que faço no resto da minha vida, seja nas referências às suas personagens, seja na adopção de um título.

Por outro lado, as letras que escreves são recheadas de lugares comuns, de namoros, de passeios, de gelados. Há qualquer coisa irónica aqui...?

Não é nada irónico, é bastante honesto. Se calhar em Glockenwise escrevo mais sobre lugares comuns, que podia ser vividos ou sentidos por qualquer um; há uma urgência em falar com os nossos pares. Em Duquesa falo sobre coisas que vivi de facto e como não tenho uma vida de redemoinho emocional ou uma infância fodida para me inspirar, tenho de socorrer do que conheço. Em parte, apesar de aparentemente despretensioso, também há algo de filosófico, epicurista nisto. A beleza dos prazeres moderados.

Em "Abade Nation" cantas sobre a freguesia em que vives, em Barcelos. “All the neighbours think I’m junkie... only in Abade Nation, such a cool neighbourhood”. Apesar dessa desconfiança própria dos meios pequenos, e apesar da tua vida musical se passar quase sempre fora daí, sentes necessidade de voltar às origens?

Sempre. Só escrevo músicas em casa e não ignoro que ser de Barcelos faça parte do ADN da minha identidade. Há um período da adolescência em que queres ver tudo pelas costas; depois há o período em que descobres o interesse das coisas fora do comum, idiossincráticas. Conheci mais gente interessante num período sabático que passei em Barcelos do que nas longas temporadas no Porto, essa aldeia gigante.

Por que não canções em português?

Honestamente, não sei. Não saiu ainda, talvez; nem sequer é uma opção estética, é só a minha voz na música. Quando imagino as canções elas são em inglês.

É o teu primeiro projecto a solo. Que diferenças sentes entre a composição em conjunto e individual? Como surgem as ideias?

Surgem da mesma maneira: em casa ao piano ou na guitarra. Ao invés de as levar para o saudável debate e aprovação no seio de uma banda, ficam na minha intimidade. Facilita umas coisas e dificulta outras, por exemplo, aqui não tenho input de mais ninguém, todas as soluções têm de ser encontradas por mim.

© Luísa Cativo

Apesar de ser a solo, tanto nas gravações como nos concertos ao vivo fazes-te acompanhar por vários músicos. Porquê?

Porque tecnicamente eu não sou um cantautor. Nunca imagino as músicas despidas, estão sempre preenchidas pelos restantes instrumentos. Aquilo que eu não consigo gravar sozinho, peço ajuda a quem sabe (bateria, por exemplo). Quanto ao vivo a explicação está à vista: não posso tocar tudo sozinho.

A crítica tem tecido ao EP grandes elogios, nomeadamente o Mário Lopes do Público. Sentes alguma pressão ou responsabilidade por isso para os próximos trabalhos? Temes que seja fugaz? O que representa para ti?

Honestamente pressão ou responsabilidade dados os elogios da imprensa nunca me passaram pela cabeça. Fico feliz e fico orgulhoso. Sinto-me muito mais pressionado pela opinião dos que me são próximos: gosto de que as pessoas de quem eu gosto gostem da minha música. Quanto a ser fugaz, que peça musical é que não é fugaz hoje? De qualquer maneira fiquei bastante feliz com a maneira como as cosas se têm processado. Entre o lançamento e a imprensa prestar atenção passou algum tempo, o que demonstra que tem sido um progresso sustentado e não um hype de internet com a duração de um refresh na página. De qualquer maneira isso tem pouco relevo nas coisas em concreto: o que interessa é fazer música e gostar dela.

Pensas ter vindo a acrescentar algo que fazia falta à pop produzida em Portugal?

De todos os géneros onde faz falta alguma coisa em Portugal, a Pop deve estar no fundo da lista. Faz falta mais música interessante, erudita, independente, extrema, artsy fartsy, etc. A Pop em Portugal sempre teve bons momentos quando aliada a uma ideia de marginalidade e eloquência artística; veja-se o caso do Variações. Há ali Pop mas também há ideias. Não penso no género como numa equipa ou cavalo de apostas; o que faço pode ser classificado como Pop mas não é feito a pensar num mercado para esse rótulo, não é feito a pensar que produto é que falta na estante.

Como te vês, Nuno, como te vês, Duquesa e como vos vês, The Glockenwise, daqui a 10 anos?

Eu e Duquesa somos indissociáveis; não há uma agenda nem objectivos muito concretos a curto prazo, estará sempre dependente do meu lugar na vida. Quanto a Glockenwise, como é uma banda, há um investimento de quatro pessoas diferentes em fazer aquilo acontecer e há um caminho mais ou menos traçado que tentámos seguir. Daqui a 10 anos pode ter acabado ou podemos estar a celebrar 17 anos de concertos. Logo se verá.


Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com
17/09/2014