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Negra Branca
Espelho meu, espelho meu


Negra Branca é Marlene Ribeiro, que é Negra Branca que é Marlene Ribeiro… Vocês percebem a ideia, uma pescadinha de rabo na boca, em que criador e criação se confundem numa autofagia necessária para que, como Marlene diz, a música funcione como um espelho daquilo que nos vai cá dentro. Ouvida a estreia enquanto Negra Branca - editada numa colaboração entre a muito recomendável Tesla Tapes e a Ono - fica-se com a sensação que este espelho ainda tem muito para reflectir. Entre sentimentos avassaladores e exercícios abstractos de som e palavra, Negra Branca é um disco escorreito apesar de denso, com uma dimensão sonhadora que o torna apropriado tanto para os de coração forte (por amor), como para os moles a precisar de um remendo. As teimas podem tirar-se no dia 18 no Lounge, em Lisboa, e dois dias depois, a 20 de setembro, no jardim da Praça da Alegria, no Porto.
Negra Branca é um reflexo do teu envolvimento com os Gnod ou já havia vontade de fazeres um disco assim?

Negra Branca é uma mistura: de tudo o que fui desenvolvendo pessoalmente, de técnicas que fui aprendendo com a banda e de influências dos vários tipos de musica que Gnod toca. Na verdade comecei por gravar ideias que não seriam usadas para Gnod e durante quase 2 anos completei as peças de musica quem compoem o album. Nem tinha ideia de as lançar, mas em 2013 o Paddy (Shine, de Gnod) começou a editora Tesla Tapes e decidiu lançar este meu projecto, a que chamei Negra Branca.

Num press que nos chegou, constam palavras como “melancolia”, “sedução” e “suor sexual”. São expressões que se encaixam, ou preferes deixar a interpretação aberta para cada pessoa que te ouça?

Gosto sempre de deixar a interpretação aberta, já que a música foi ela própria composta dessa maneira, é carregar no “REC” e deixar sair, sem tentar mudar o primeiro objectivo / tom/ ideia que escolho para escrever cada peça. E claro, para mim o "feel" de cada faixa há-de ser diferente do que outras pessoas sentem. Até acho dificil explicar o meu som e gosto de ver as definições que por aí aparecem, já que eu não lhe consigo dar um nome - mas "suor sexual" está engracado!



Foste a única responsável pelo disco?

Fiz tudo sozinha. Só tive ajuda a editar certas coisas que não conseguia fazer na mesa de mistura e/ou na gravação (não sou muito amiga de computadores), mas de resto fui eu.

Há uma certa dualidade implícita em Negra Branca – tanto no nome, como no próprio som. É um conceito importante no teu projecto?

Acho que a dualidade na música vem mesmo da maneira como me sinto quando gravo certas coisas, é mais ou menos um espelho do que sinto ou imagino. O nome Negra Branca, tal como a letra das músicas (se é que lhe posso chamar letras), tem mais a ver com a fonética das palavras juntas: não faz mesmo sentido nenhum, mas soa como fizesse.

A pergunta pode parecer estranha, mas será que este disco tem mais de Portugal ou de Inglaterra?

É mesmo um pouco de tudo, tem que ser! O disco tem sol, chuva, quente e frio…



Existe alguma motivação em particular por detrás de Negra Branca?

A motivacao é mesmo só uma, fazer o que me apetece e gosto. E claro, ver os frutos do trabalho.

Alguma vez pensaste em regressar a Portugal para ficar?

Já pensei e penso… É sempre bom ter as duas opções, nunca se sabe.


António M. Silva
ant.matos.silva@gmail.com
16/09/2014