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Barzin
Canções de acolhimento


As canções de Barzin têm aquela rara qualidade de familiaridade e reconhecimento. Como se fossem de sempre, como se devessem ficar para sempre. São por isso canções de acolhimento, canções de recolhimento. Barzin Hosseini é canadiano e tem vindo a dedicar a sua vida à escrita de canções, uma estranha forma de vida com a qual tem aprendido a viver pacificamente. Com o seu mais recente disco, To Live Alone in That Long Summer (2014, Monotreme Records), Barzin promete transformar-se num nome cada vez maior essencial para aqueles que têm na música, folk, no alt country ou no slowcore os seus portos mais seguros. Visivelmente agradecido pela oportunidade de falar acerca da sua música, Barzin Hosseini respondeu a algumas antes do concerto que dará no Maus Hábitos, no Porto, no próximo dia 26 de Abril, em que apresentará o seu mais recente disco em estreia absoluta - e data única - em Portugal.
Demoraste cinco anos a trazer este disco ao mundo. Como foi todo o processo deste To Live Alone In That Long Summer?

Sim, foi um processo longo e arrastado. Na realidade eu não tenho uma boa explicação para o facto de ter demorado tanto tempo. Acho que estava a deixar as músicas ditarem quando estavam prontas. Eu não queria apressar as canções. Passei quase dois anos a trabalhar na música. Trabalhei nas canções lentamente. Eu sentava-me com elas, da forma que eu sempre faço, e ouvia-as uma e outra vez, até ter a certeza que eram fortes o suficiente para serem colocado num álbum. Eu acho que uma das etapas mais difíceis de fazer um álbum é escolher quais as músicas que queres colocar no álbum. A última coisa que queres fazer como escritor de canções é gravar uma música que não podes tocar nos próximos dez anos. Como muitos compositores, estou sempre a tentar ver se uma canção que eu escrevi ainda será boa o suficiente para ser tocada no futuro. De qualquer forma, passei um par de anos a trabalhar apenas na música, e depois quando achei que tinha um grupo de músicas prontas para um álbum comecei a trabalhar nas letras. As palavras também vieram muito lentamente também. Depois de as palavras e as músicas terem terminado comecei a reunir os músicos que iam tocar no álbum. Foi então que lentamente começamos a tocar as músicas e a trabalhar para encontrar os arranjos certos e a instrumentação para as canções. Tive ajuda de algumas pessoas realmente maravilhosas neste álbum. O meu amigo, Tony Dekker de Great Lake Swimmers, ajudou-me com algumas backing vocals. O Sandro Perri ofereceu os seus conselhos no que toca aos arranjos. O meu colaborador musical de longa data, o Nick Zubeck, estava lá desde o início e trouxe realmente algumas ideias incríveis e partes de guitarra para as canções. Eu não poderia ter feito este álbum sem a ajuda de muitos muitos grandes músicos.

De que forma achas que este disco pode ser diferente dos outros?

No meu álbum anterior a instrumentação e o sentimento de das músicas parecia mais perto do mundo da música folk e do alt country. No novo álbum, eu queria afastar-me disso um pouco mais ainda. Eu queria manter ainda elementos da música folk e do alt country e ao mesmo tempo introduzir novos elementos no meu som. Afastei-me também de um som lo-fi, o que caracteriza o som do meu segundo álbum, My Life In Rooms. Eu queria ter o máximo de clareza na gravação do novo álbum. Sinto igualmente que os músicos trouxeram muito mais de si nas partes que tocaram nestas novas músicas. Por exemplo, a parte da bateria na "In The Dark you can love this place” foi algo que o meu baterista, o Marshall Bureau, inventou. É uma parte incrível e o arranjo que fizemos foi construído a partir dessa parte de bateria. Por isso sinto que os músicos que tocaram neste disco deixaram mais uma marca de si mesmos nas canções comparativamente com os discos anteriores.



Pareces dar tanta importância aos instrumentais como às letras. Quando sabes então que uma canção atingiu todo o seu nível de detalhe?

Sim, eu dou tanta importância aos instrumentos como às palavras. Há tantas grandes canções por aí fora com arranjos de bom gosto e letras. Essas são as coisas pelas quais eu me esforço. É muito difícil tentar alcançar esses padrões elevados, mas enquanto houver grandes álbuns a serem feitos tens um lugar no qual podes procurar inspiração. Por exemplo, eu posso estar a trabalhar na letra de uma canção durante dois meses. Trabalho nela todos os dias durante longas horas. E depois chego a um ponto em que sinto que terminei. Quando chego a esse ponto, ouço um disco de um grande letrista, como o Leonard Cohen ou o Bod Dylan. Sento-me e ouço as palavras deles e depois vou ouvir a minha música e tentar ouvir as letras que acabo de terminar. E quando eu ponho as minhas palavras ao lado das palavras de um grande letrista eu posso ter uma ideia em relativamente a onde reside a força e a fraqueza das minhas palavras. Muitas vezes, preciso de começar a trabalhar nas canções do início e muitas vezes sou capaz sou capaz de ver uma ou duas linhas fortes que posso manter. Esta é a forma como muitas vezes trabalho até sentir que cheguei a um lugar onde sinto que as músicas estão terminadas.

Fale-me sobre a banda que tem vindo a tocar contigo nos últimos anos. Qual a real importância deles para Barzin?

Muita coisa mudou com este novo álbum. Quando eu estava a trabalhar no meu último disco, Notes to na absent lover, eu não tinha muito input da banda que tocou nele. Eu escrevi as músicas e eles apareceram para tocar partes muito simples na gravação. Mas com este álbum eu sinto que os músicos se tornaram numa parte maior das canções. Uma das coisas que fiz neste álbum foi ter passado muitos dias com os músicos a tocar as músicas e a trabalhar nos arranjos. E quando fiz isso, por vezes uma parte da bateria ou uma parte de guitarra seria o ponto de partida para toda a canção. Então, algo que o meu guitarrista fazia podia ser as fundações de uma música inteira e nós construiríamos o resto das partes a partir dessa parte de guitarra. Por isso os músicos envolvidos nesse álbum tiveram um papel muito grande neste álbum. Os dois músicos que desempenharam um grande papel neste álbum foram o Nick Zubeck (que tem o seu próprio projecto musical) e o Marshall Bureau. Eles trouxeram mesmo muito para as canções. Eles também estarão a tocar comigo durante esta digressão.

Começaste toda esta experiência em 1995 sozinho. O que te lembras dos dias em que começaste a escrever músicas como Barzin?

Foram os dias da minha juventude. Eu vivia num pequeno apartamento numa pequena cidade nos arredores de Toronto. Vivia com uma rapariga linda, com quem partilhei dez anos da minha vida. Ela era escritora. Tínhamos uma vida linda. Ela trabalhava na sua escrita num quarto, e eu trabalhava nas minhas músicas noutro quarto. E isso era tudo o que queríamos. Era simples. Vivíamos para a arte e da arte por si só. Eu não sabia muito sobre escrever canções quando comecei. Escrever canções não veio até mim de uma forma natural. Eu tive que sentar-me e analisar imensas mcanções para tentar entender como funcionavam. Eu queria saber a fórmula mágica que fazia com que uma canção ganhasse vida. Mas eu adorava escrever canções, e queria fazer isso e tornar-me cada vez melhor. Esses dias parecem que foram há muito tempo. Foi um momento simples na minha vida. Mas pensando bem, pergunto-me se o passado parece sempre assim na nossa memória. A mente tem uma tendência para romantizar o passado.



Quase vinte anos se passaram desde o início. O que mudou na tua vida? O que mudou na maneira de escrever músicas? Sentes que se perdeu um pouco da inocência, da ingenuidade, talvez?

Não tenho certeza se a inocência se perdeu. Sempre que começo a escrever uma nova canção, um certo sentimento surge em mim que vem de um lugar profundo dentro de mim. Esse lugar liga-me àquilo que eu sou. Por isso sempre que sou levado de volta a este lugar eu sinto os mesmos sentimentos que senti quando escrevi a minha primeira canção. Eu vejo que o meu desejo de criar não mudou desde o momento em que me sentei há muito tempo atrás na minha cave e peguei numa guitarra e tentei escrever minha primeira canção. À medida que envelhecemos acho que enfrentamos o perigo de nos tornarmos preguiçosos em termos criativos. Com o tempo, tornamo-nos nos na arte da composição; sabemos a estrutura de uma música de dentro para fora, sabemos as coisas que podem tornar uma canção memorável ou orelhuda. Mas o que é muito difícil e requer muito tempo é estar sentado com uma canção e trabalhar nela uma e outra vez. Isso é o que eu acho que se torna cada vez mais difícil à medida que envelhecemos. Tens menos paciência para sentar-te durante longas horas à procura da palavra certa ou da nota certa. Por isso podes começar a trabalhar em piloto automático.

Sentes que fazes parte de alguma realidade musical específica no Canadá? Sentes-te parte de alguma força criativa onde vives?

Eu sou bastante consciente do cenário musical no Canadá. Existem alguns artistas incríveis neste momento. Pessoas como Bry Webb, Timber Timbre, Dirty Beaches de muitos mais. Mas para ser honesto eu não me sinto realmente parte da comunidade musical neste país. Eu tenho um grupo de músicos com quem eu trabalho e sinto-me feliz por ter a sorte de conhecer tantos músicos talentosos e de ter a oportunidade de trabalhar com eles. Por isso estou grato por isso.

Tens algum cantor ou compositor fetiche? Alguém que quem gostarias de escrever uma canção com? És um homem com heróis musicais?

Bem, eu sempre fui um admirador de grandes compositores. A maioria dos meus heróis são pessoas que muitos consideram grandes compositores. Por isso não estou a dizer nada de único aqui. Algumas das pessoas que eu realmente admiro e são: Leonard Cohen, Bob Dylan, Scott Walker, John Lennon, Bruce Springsteen e o David Sylvian.



Andar em digressão é normalmente uma boa experiência para ti? Qual é a melhor parte?

Andar em digressão é uma experiência muito estranha. Entras numa carrinha com um grupo de pessoas e viajas com eles todos os dias e tocas música. De repente estás a partilhar a tua vida com pessoas num período de tempo. E todos os dias estás num lugar completamente diferente. Sentes-te como um voyeur, paras em novas cidades todos os dias e olhas para a forma como as pessoas vivem as suas vidas nesses lugares. É uma experiência muito intensa e especial. A melhor parte disso é conhecer pessoas e aprender coisas sobre as suas vidas. Adoro saber como as pessoas vivem, pois permite-me olhar para a minha vida de uma maneira nova. Ensina-me coisas novas.

Quais são as tuas expectativas de uma forma geral para essa digressão?

Espero apenas ser capaz de apresentar a minha música e este novo álbum para tantas pessoas quantas possíveis. Estou muito orgulhoso deste novo álbum e espero que as pessoas tenham a oportunidade de o ouvir.

É a tua primeira vez em Portugal? O que é que sabes acerca do país?

Estou muito entusiasmado com a ida a Portugal. Nunca estive no teu país. Andei em digressão pela Europa muitas vezes mas nunca foi possível ir a Portugal dar um concerto por isso estou feliz por finalmente ter a hipótese de o fazer. Em Toronto, onde eu moro, vivo na realidade num bairro Português. Na verdade, estou a escrever estas respostas a partir de um café português onde eu costumo vir quando quero tomar um café e comer alguma coisa de pastelaria. Por isso a minha vida é rodeada por pessoas do teu país. Por isso estou familiarizado com alguma da gastronomia do teu país mas estou ansioso por provar mais boa comida quando aí chegar. Sou um grande fã de marisco e eu sei que o povo português adora marisco. Também sou um grande fã do futebol europeu por isso estou muito ciente do grande talento que sai de Portugal, como o Cristiano Ronaldo.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
24/04/2014