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Balago
Orgulhosamente desalinhados


A história dos espanhóis Balago é uma história de feliz e frutífero não-alinhamento. Ao longo dos últimos quinze anos (a passar já) têm vindo a criar alguma da música mais aventureira do país vizinho. Nascidos e criados em La Garriga, perto de Barcelona, têm vindo a criar um impressionante corpo de trabalho nos territórios da música electrónica que lhes deu o carimbo de instituição na área em Espanha. O mais recente disco, Darder, é um fascinante atestado de maioridade e de liberdade que coloca os Balago ombro a ombro com os seus pares internacionais, onde admitem beber grande parte da inspiração. A propósito destes mais de quinze anos de carreira, e do concerto que darão no Maus Hábitos no próximo sábado, fomos falar com David Crespo, membro fundador e líder dos Balago. E descobrimos, entre muitas outras coisas, que a banda espanhola está a viver uma espécie de segunda juventude musical.
Como é criar uma banda como os Balago num sítio lugar como La Garriga?

É um paradoxo. Por um lado, parece estranho que se possa construir um projecto como este numa cidade onde quase nada acontece, mas por sua vez, é reconfortante estar num ambiente tranquilo para poder trabalhar nos discos. Além disso numa cidade como Barcelona não acabar por num desconectar e para mim é essencial para não cair em clichés ou tornar-te tendenciosa. Na verdade, independentemente da música, que é o que nos ocupa, acho que encontras qualidade de vida em locais que ficam que a uns 30 km da cidade onde as coisas vão a um ritmo diferente.

Os Balago têm mais de 15 anos de actividade. Que balanço fazes de todos estes anos?

É um projecto que não foi concebido para as massas nem é produto fruto de interesses de terceiras pessoas. O nosso projecto é honesto e consistente e isso é suficiente gratificante para nós ao ponto de o continuarmos. Se a tudo isso juntas a imprensa que sempre nos deu boas críticas com todos os nossos álbuns, que nos respeita e que nos coloca no topo das listas anuais, chegas realmente à conclusão que não nos podemos queixar. Um dia o responsável da Foehn perguntou-me se eu estava consciente que ao longo dos anos (e já temos cinco álbuns de estúdio) temos competido com propostas pop, folk , hip hop, rock, etc... muito mais populares e acessíveis. Essa reflexão fez-me pensar que o balanço só pode ser positivo.



Como chegaram ao vosso último álbum? Parece-me que é o vosso disco mais amplo. Pensam o mesmo?

Nós acreditamos que é um disco redondo a todos os níveis. Tanto a nível de alinhamento como do design. Obviamente que gostamos de todos os discos que editamos até agora, mas é verdade que desde o primeiro álbum, Erm (Foehn, 2001) que não tínhamos um impacto tão grande . Pode-se dizer que vivemos uma segunda juventude musical devido à popularidade do disco, tanto a nível de imprensa como de público. É um disco escuro mas ao mesmo tempo muito melódico e cheio de detalhes. De todas as formas, o que realmente faz com que este álbum seja bom é, na minha opinião, o facto de nos termos reinventado uma vez mais mas cinco álbuns mais tarde, o que não é tão fácil como em álbuns anteriores. O facto de voltar a criar expectativas e apresentar uma proposta que soa novo e desperta interesse. Tudo isto num estilo não predeterminado como o nosso e onde é mais difícil reinventar-se comparativamente com outros estilos.

Como podem descrever um processo normal de criação de um disco de Balago? Quais são os principais passos?

Há uma primeira fase em que pensamos qual é a forma do disco, do que se trata e como deve ser soar. Depois há uma busca por sons, texturas, etc... Que são os que formarão parte do disco e lhe darão personalidade. Finalmente há um processo de composição onde se desenvolvem as melodias, os ritmos, etc… Para depois finalmente unir todo o puzzle.

Este disco é negro no que toca aos ambientes e paisagens. Pode funcionar como uma metáfora para os tempos difíceis em Espanha?

Sim, poderia funcionar e seria uma boa metáfora, mas a realidade é que somos um grupo estético, de forma, não de fundo. Não temos letras e não falamos de problemas sócio-políticos porque somos ou estamos perto da misantropia. Portanto, estamos pouco interessados em todos os problemas que preocupam a humanidade. A mim, pessoalmente, interessam-me mais as injustiças com o resto das espécies animais ou a própria natureza do que a miséria humana, basicamente porque nós somos responsáveis por tudo o que acontece e tanto o ódio como a ganância são algo que só diz respeito à espécie humana. Não é assim com as espécies não-racionais que eu respeito profundamente. O disco é negro, é escuro e soa a uma fábrica abandonada porque vimos e bebemos das músicas de corte mais obscuro, sombrio, triste, etc...



Os Balago têm algumas ambições ou activismos políticos de qualquer espécie?

Como eu disse antes não estamos interessados na política, ainda que se tivéssemos de nos posicionar sobre o nosso país que é a Catalunha diria que não estamos interessados em fazer parte da Espanha. Não é nada pessoal. É uma questão mais profunda, de convicções e da espoliação de que padecemos. Eles desprezam e ridicularizam uma cultura milenar como a nossa e isso não podemos permitir. Eles nem sequer nos permitem decidir ou votar democraticamente o que queremos fazer! Ninguém entende isso. E, claro, não se pode esquecer a ditadura de quarenta anos em que não fomos sequer autorizados a falar a nossa língua. É um tema longo e complexo, mas não é inimizade, trata-se de ter a independência de algo que já não te dizer nada e cada parte seguir o seu próprio caminho. Quanto a um activismo real eu faço parte de associações que defendem os direitos dos animais e faço tudo o que me seja possível para que acaba tudo isto e quando digo isto refiro-me ao extermínio, a enriquecer às custas dos animais e fazer um espectáculo, à desflorestação, etc, etc, etc, etc. Apoio organizações como a PETA, ALF ou GREENPEACE, entre muitas outras. Eu acho que é das coisas mais sensatas e bonitas que eu posso fazer da minha vida. Humaniza-me.

Como avaliam a produção electrónica em Espanha? Há alguma realidade da qual os Balago se sintam próximos?

Nós bebemos basicamente da música feita na Inglaterra, Estados Unidos e alguns outros países do centro-norte da Europa. Temos amigos em Espanha e há grupos que nos interessam e dos quais gostamos, mas muito poucos. Eu acho que isto não deve ser tido muito em conta, pois é uma opinião pessoal.

É difícil continuar um projeto com entusiasmo depois de quinze anos?

Há momentos em que é mais do que difícil. Enquanto tivermos ideias e vontade de tocar em público superaremos esses momentos em que achas que tudo está terminado. O que nunca acabará é o desejo e o entusiasmo me dá tocar na minha casa com os meus amigos sem nenhum outro objetivo para além passar um bom bocado.

Para além do Sónar, onde actuarão este ano, há muitas oportunidades de salas e festivais em Espanha para projectos como Balago?

Sim, existem, embora menos do que em outros países. Há realmente apenas dois grandes festivais na Espanha que são o Primavera Sound e o Sónar. Os restantes mostram vontade mas nada mais. Em relação a locais ou salas há um circuito interessante onde cada vez que lançamos um álbum temos a oportunidade de nos apresentar e estamos felizes e agradecidos que exista, embora tenha vindo a diminuir nos últimos anos. Como bem sabes, não podemos comparar Espanha com os Estados Unidos ou Inglaterra, onde a oferta é superlativa.

Estarão em Portugal para um concerto no Maus Hábitos. Que esperam deste concerto?

É a segunda vez que tocamos em Portugal. Fizemos isso com o nosso segundo álbum, em 2004, também no Maus Hábitos. O que nos atrai em Portugal para além das suas cidades e da gastronomia é saber que o público é inquieto e sabemos que há uma grande procura por tudo o que seja anglo-saxónico, que é no final de contas aquilo que nós bebemos. Quando estivemos em Portugal percebemos um interesse muito elevado pela acultura e isso gratifica-nos independentemente das pessoas que possam ir ao concerto ou não. Sabemos que têm um país com bom gosto para as artes. Será um prazer estar com vocês e queremos apenas dar um bom concerto e que as pessoas se possam abstrair da sua vida quotidiana para entrar na nossa banda-sonora imaginária e algo apocalíptica.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
29/01/2014