Mandrágora é nome de uma planta que supostamente possui virtudes fecundantes e afrodisíacas, uma erva medicinal cujo fruto, idêntico a uma pequena maçã, exala um odor forte e fétido. Tanto o fruto como a raiz contêm propriedades mágicas segundo tradições antigas e um poder oculto para batalhar contra o esmorecimento dos desejos eróticos. A raiz da planta tem a forma humana e de acordo com uma crença popular, a mandrágora grita como gente quando é arrancada da terra. Nos tempos que correm é também o nome de uma banda de
folk do Porto que lançou o seu disco de estreia em 2005, depois de duas maquetas. Do colectivo fazem parte Filipa Santos nas flautas, saxofone e gaita-de-foles; Ricardo de Noronha nas percussões, flautas e
throat-singing; Pedro Viana na guitarra clássica; Luís Martinho na guitarra de 12 cordas, baixo eléctrico e Sérgio Calisto na guitarra de 12 cordas, violoncelo,
moraharpa.
Mandrágora é então um disco que assumidamente mergulha de cabeça na música tradicional portuguesa, ao mesmo tempo que busca igualmente inspiração na de outras culturas e os resultados são visivelmente os melhores. A entrevista com os Mandrágora é reveladora do passado que trouxe a banda até ao presente e do fundamento que a moverá pelo futuro. Se tudo correr bem,
Mandrágora marcará presença nas listas de melhores discos portugueses do ano, e é bem possível que nomes como os Marenostrum ou os Galandum Galundaina lhes sigam o caminho - isto se ainda for verdade que andamos todos bons da cabeça. Bem feitas as contas, 2005, que está cada vez mais perto do fim, foi um bom ano no que à música tradicional portuguesa diz respeito.
Como
é que os Mandrágora nasceram e cresceram até aos dias de hoje?
Ricardo de Noronha – A ideia de formar a banda surgiu quase por acaso, quando
após vários encontros musicais entre o Pedro Viana, a Filipa Santos e eu decidimos
experimentar levar a música que fazíamos mais adiante... Entretanto surgiu
a oportunidade de participar num concurso, o "Prémios Maqueta 99", organizado
pela "Deixe de Ser Duro de Ouvido", que integrava pela 1.ª vez a categoria
de Música Tradicional. Para o efeito gravámos
Presença, a nossa 1.ª
maqueta, no MW Estúdios em Dezembro de 1999. Ficámos em 2.º lugar, que nos
valeu a participação no 1.º Festival Intercéltico de Sendim nas Terras de
Miranda. E para termos condições para actuar convidámos então Luís Martinho
e Nuno Silva, no baixo e percussões, respectivamente. Os concertos foram aparecendo
tanto a nível nacional como além-fronteiras e prova disso foi a participação
no 2.º Encontro Europeu de Jovens Músicos Tradicionais em Parthenay, na França.
Em Dezembro de 2002 fomos outra vez a estúdio gravar
O Aranganho, nos
Estúdios Fortes e Rangel, já com Sophie Kalisz no acordeão. Depois da gravação
do álbum de estreia convidámos Sérgio Calisto para tocar violoncelo que, já
depois de tocar connosco há algum tempo, adquiriu uma
moraharpa. A
nossa composição actual é composta pela Filipa Santos que toca gaita-de-foles,
saxofone e flautas; eu que toco percussões, flauta e
throat-singing (técnica vocal que permite emitir vários sons em simultâneo, aprendida nas
andanças por França); o Luís Martinho que toca baixo eléctrico e guitarra
folk de 12 cordas; o Pedro Viana que toca guitarra clássica e o Sérgio
Calisto que executa o violoncelo, a
moraharpa e a flauta de harmónicos.
Ao longo destes 6 anos de carreira o leque de instrumentos utilizados aumentou,
o que influenciou naturalmente o nosso som que está agora mais completo.
Os Mandrágora estiveram então presentes em alguns encontros e festivais
de música folk no estrangeiro, como o Cuarto de los Valles nas Astúrias
(onde ficaram em 4.º lugar) e no já referido 2.º Encontro Europeu de Jovens
Músicos Tradicionais em Parthenay, na França. Como é que foram essas experiências?
Como se olha para a música tradicional nesses países?
Filipa Santos – Olhamos com muito respeito, pois na altura tocámos com pessoas
que, para ali chegarem, passaram de certeza por um conservatório de música
tradicional e tiveram anos de prática, estudo e acompanhamento, algo que infelizmente
não possuímos aqui no nosso país. E de facto houve tempo para aprender muito
com eles e acho que na música que fazemos agora está implícita essa experiência.
Não é algo que se pode descrever sucintamente, mas sentimos que parte do nosso
amadurecimento actual deve-se a essas experiências, marcantes sem dúvida,
principalmente porque em França actuámos ao lado de jovens oriundos dos mais
diversos países, como por exemplo França, Espanha, Grécia, Suécia, Finlândia,
Irlanda, Hungria, Bulgária e Itália... Foi a verdadeira Música do Mundo.
Por cá tocaram já na primeira edição do Intercéltico
de Sendim, no Folkontest em Grândola, entre outros festivais. É complicado
tocar em Portugal para além do circuito de festivais portugueses de música folk? Como é a realidade na cidade do Porto?
Pedro Viana – Temos tocado principalmente em festivais
folk de dimensão
local, organizados por associações que assim promovem a música tradicional
e ao mesmo tempo as suas localidades. Tem sido difícil ter espaço nos festivais
de maior dimensão pois normalmente a preferência ser dada a bandas estrangeiras
de maior ou menor renome. Fora do circuito
folk também não é fácil
chegar aos auditórios municipais. Somos mais solicitados para espectáculos
ao ar livre, às vezes integrados na animação de feiras do livro, artesanato,
etc. No Porto existem vários auditórios públicos com excelentes condições,
mas na grande maioria os espectáculos são esporádicos e os preços pouco convidativos.
Não existe uma programação regular que aposte nos grupos da cidade e que fomente
o gosto pela música ao vivo. Há bares que tentam preencher essa lacuna, mas
para começar é preciso ter um espaço propício e depois é preciso trabalhar
muito bem a nível de organização, programação e promoção. É difícil para um
bar conseguir reunir todas essas condições.

Depois de duas maquetas lançadas em 2000 e em 2002,
lançaram este ano Mandrágora, o vosso disco de estreia. Vêem Mandrágora como uma evolução natural dos primeiros trabalhos ou notam alguns “desvios”?
Como foram as gravações do disco?
Luís Martinho -
Mandrágora foi uma evolução natural da 2.ª maqueta,
O Aranganho. É claro que toda a música que fazemos agora resulta de
um processo de aprendizagem de 6 anos da banda, que começou na 1.ª maqueta.
Mas, musicalmente, já não há muitas semelhanças com esses tempos. A gravação
do disco beneficiou dessa aprendizagem, pois entrámos em estúdio já com ideias
(mais ou menos) bem definidas do que iríamos fazer e com noção das principais
dificuldades que iríamos encontrar. Foi gravado em bobines, num processo totalmente
analógico até à masterização e com um uso mínimo de efeitos. O tratamento
do som resumiu-se, fundamentalmente, ao cuidado tido com a captação e mistura
dos instrumentos.
Quanto a "desvios", julgamos que eles se dão sempre que começamos a fazer
uma música nova.
Comparam algumas vezes os Mandrágora a nomes como os Garmarna ou os Hedningarna.
Partilham essa visão?
R.N. - Encaramos essas comparações como elogiosas, pois, no caso dos Hedningarna,
trata-se duma banda que apreciamos. No entanto, essas comparações são, muitas
vezes, redutoras. Em primeiro lugar porque, musicalmente, não há tantas parecenças
quanto isso. Além disso, são bandas de referência (e exemplos a seguir), mas
também o são bandas como os La Musgaña, Gaiteiros de Lisboa, Ross Daly, entre
muitas outras, e que até terão mais a ver connosco, quer na música que fazem,
quer nas actuações ao vivo. Tentamos ser originais na composição e nos arranjos
e acreditamos que o estamos a conseguir. Se calhar é essa atitude que é comum
a alguns grupos escandinavos, a de encontrar novas formas de misturar música
moderna e tradicional, longe das fórmulas do
rock celta ou do
pop-folk.
A
paixão pela herança musical de Trás-os-Montes é partilhada por todos os membros
dos Mandrágora?
F.S. - Sim. Por motivos afectivos, ou familiares, ou pelas viagens que por
lá fizemos juntos, é uma região que faz parte da história da banda e com a
qual estamos sempre a aprender algo.
Diz-se que o vosso disco de estreia regista aquilo que vocês acreditam
ser a vossa personalidade musical ao vivo, acrescentando mais gaita-de-foles
e diminuindo na percussão. Concordam com essa visão?
L.M. - O objectivo principal foi registar em disco as músicas que vínhamos
tocando ao vivo, com um som limpo e sem exageros. Queríamos um disco em que
se ouvisse todos os instrumentos, sem ter um som demasiado “puxado”, nivelado
ou retocado, que, muitas vezes, tira a naturalidade aos discos. No fundo,
queríamos que tivesse a dose necessária de silêncio, para a música poder “respirar”.
Obviamente, assistindo “in loco” a uma actuação ao vivo há uma percepção
muito mais real da música como ela é, até porque alguns temas foram entretanto
modificados, trocámos instrumentos, entrou um novo elemento, com novos instrumentos
e o som da banda foi evoluindo.
Como tem corrido a promoção de Mandrágora em
termos de concertos? Têm a vossa agenda preenchida para os próximos tempos?
P.V. - Julgamos que a promoção do disco tem corrido bem, pois conseguimos
tê-lo à venda nas lojas, a um preço minimamente justo (na medida do possível,
no nosso país), fizemos várias apresentações ao vivo, em lojas e na rádio
(no “Viva a Música”), onde tivemos uma boa receptividade das pessoas que assistiram.
Agora estamos é com vontade compor novos temas e para o ano esperamos tocar
ao vivo ainda mais do que este ano.

Como surgiu o apoio da Zounds e da Sabotage? Sentem-se
confortáveis fazendo parte do “catálogo” de ambas?
L.M. - O apoio da Zounds / Sabotage surgiu por intermédio do jornalista Fernando
Magalhães, que fez parte do júri no Folkontest. Já depois de gravada a segunda
maqueta, fomos contactados pela Ana Paula e pelo Zé Maria, no intuito de gravar
o disco de estreia pela Zounds. Começámo-lo a gravar na Quinta da Música (em
Grijó) em finais de 2003 e em 2005 o disco apareceu, finalmente, nas lojas.
Apesar da morosidade do processo (que muitas vezes nos surpreendeu e desesperou),
estamos satisfeitos por termos à venda um disco de que nos podemos orgulhar
e que é um marco importante da banda. E penso que também é um marco importante
no catálogo (já de si heterogéneo) da editora e da distribuidora, pois é um
disco radicalmente diferente dos restantes.
Como reagem vocês à recente exposição (embora relativa)
de bandas como os Galandum Galundaina, os Mu, os Dazkarieh, os Marenostrum
ou mesmo os Mandrágora? Como vêm a música folk ou tradicional feita
em Portugal?
F.S. - Dá a sensação de que em Portugal têm surgido mais bandas
folk/tradicional
do que acontecia há uns tempos atrás. É de realçar o facto de a música
folk interessar a muita gente jovem e de os projectos que vão surgindo serem muitos
distintos uns dos outros. A divulgação das bandas tem melhorado muito com
a Internet. Hoje há
sites especializados, bem como blogues e fóruns
para todos os gostos. Na imprensa as coisas também têm melhorado porque os
grupos estão a conseguir editar álbuns sobre os quais se escreve. Pensamos
que a principal evolução da
folk portuguesa tem sido mesmo o maior
número de edições. A exposição ao grande público é que continua muito abaixo
do que seria normal e justo, porque a rádio e a televisão, salvo honrosas
excepções, ignoram toda a música que não lhes chega dos
tops americanos
e britânicos.
Acreditam haver já em Portugal uma maior consciência e atenção à música
tradicional?
R.N. - Há sempre quem procure música fora do
pop-rock dominante e os
festivais de música étnica têm conseguido atrair essas pessoas. Começou por
haver um interesse pela música tradicional de outros países e lentamente essa
atenção vai-se estendendo à música portuguesa. Os grupos, como nós, que não
fazem propriamente música tradicional mas inspiram-se nela, também têm ajudado
a promover uma consciência do que é a nossa cultura musical. O facto de se
criarem verdadeiros eventos sociais à volta deste género de música é um contributo
para um público mais informado no futuro e acima de tudo, prova que há uma
apetência das pessoas pela música
folk. É preciso é promovê-la.