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Fee Reega
Espírito indomável


Fee Reega nasceu na Alemanha mas vive neste momento em Espanha, nas Astúrias. Mas daqui a nada vai mudar-se para a Áustria e possivelmente vai passar a vida a mudar de poiso. É a sua natureza, é a sua verdade, a sua forma de vida. O seu espírito é indomável. Foi em Berlim de descobriu que podia escrever canções e agora não quer outra coisa. Diz que faz problem folk porque quer que as suas canções sejam conscientes do mundo que a rodeia. Fee Reega não quer que as suas canções sejam apenas entretenimento - embora não negue o possam ser indirectamente. O seu último disco, Salvajada / Wildheit / Savagery , teve três edições em três idiomas distintos porque Fee Reega queria que a entendessem de várias formas possíveis. É uma romântica. Tem imensos projectos para o futuro e contou-nos alguns dos seus planos mais próximos. Numa entrevista sumarenta, ficamos a conhecer um pouco melhor o mundo peculiar de Fee Reega.
Não há como começar de outra forma: como começaste a fazer música? 
 
Creio que escrevi a minha primeira canção com seis anos, juntamente com o meu irmão Dorian e chamou-se "Safari". Tinha uma parte de rap e coros de indianos e gravamo-la em cassete, com alguma canção de amor. Depois disto não houve nada durante muito tempo, mas estive sempre a escrever poemas e quando me mudei para Berlim e comecei a estar em contacto com músicos, vi que os meus poemas funcionariam muito melhor como canções e que sinto menos vergonha apresentando-os a cantar do que a ler. Agora estou numa digressão com o The Great Park. Ele foi uma pessoa chave em forçar-me a dar concertos há alguns anos e contrataram-nos no bar ao lado de casa para tocarmos todas as sextas-feiras por um cachet de 20 euros e cerveja gratuita. Para mim aqueles tempos foram fantásticos. 
 
Quanto mudou então a tua vida depois de saíres da Alemanha em direcção a Espanha? Conta-nos como foi. 
 
Acho que quando vais para outro país todas as pessoas mudam enquanto pessoa se estás realmente disposta a arriscar um pouco. Enfrentas certas partes do teu carácter que provavelmente não conhecias antes. Isso foi muito interessante e foi como uma bomba de inspiração que explodiu na mina cabeça ao escrever noutro idioma. Acho que simplesmente te dás conta que o mundo é maior (para mim neste caso que o mundo é maior que Berlim) e isso prova o sentimento de querer comê-lo com tudo o que tenha dentro e também de ter a responsabilidade de fazer algo com ele. Os espanhóis e depois em particular os asturianos ensinaram-me muitos valores que antes não tinha tão claros e que influenciara a minha música e a minha vida em geral. Para mim é como ter outro país Natal agora, sinto-me muito em casa em Espanha. 
 
© Rowena Waack

Como é viver nas Astúrias? Dá então muito alimento à tua música? 
 
Agora vou viver para a Áustria durante algum tempo, mas a minha temporada nas Astúrias foi incrível. Nunca pensei que me apaixonaria tanto pela região e pelos seus costumes. Não quero ir-me embora na verdade e tenho a intenção de voltar a viver lá no futuro. Vivi meio ano numa terra muito pequena e escrevi imenso nesse local. Havia muitas coisas que me serviram para as minhas canções, como histórias, personagens e sítios. Em Oviedo estive mais concentrada no meu trabalho de artista visual e em trabalhar como professora e por isso não escrevi tanto. Mas a experiência de despedida das Astúrias deu-me outra vez muitas ideias e nas últimas semanas escrevi muitas canções novas.
 
Diz-me: a tua música é mais como o queijo cabrales ou como a sidra? 
 
Sidra, por favor. Ou sidra de champanhe. Gosto do cabrales mas não quero que a mina música soe assim, seria um pouco estranho. Cheira a Sidra. 
 
Como nasce a ideia de publicar Salvajada / Wildheit / Savagery em três idiomas distintos? Foi muito difícil de conseguir? 
 
A verdade é que primeiro foi uma ideia muito prática. Fui tocar à Alemanha, na Inglaterra e em Espanha e queria que as pessoas me entendessem. Então traduzi algumas canções. Depois ocorreu-me a gravação em três idiomas. Traduzir as letras foi muito rápido ainda que muitas vezes tenha sido de castelhano para alemão ou do alemão para o inglês. Mas afinal de contas eu sei o que quero dizer e se tive de mudar alguma palavra fi-lo mantendo sempre o seu sentido. A única complicação foi que ao gravar tive de gravar todas as vozes duas vezes mais do que normalmente e dura muito tempo e depois as misturas dão também o triplo do trabalho. Mas acho que valeu a pena, pelo menos para mim foi muito interessante. Há duas semanas atrás um amigo professor usou o CD na sua aula de inglês para praticar tradução com os alunos. Algo que me parece muito engraçado. 

© Sam Collins

Há muitas diferenças entre as três edições? Cada língua impôs as suas diferenças? 
 
As canções soam diferentes ainda que sejam a mesma música. Mas um idioma também tem musicalidade e por isso muda a canção e as histórias levam com ares distintos. Acho que o alemão soa mais sério e o castelhano o mais ligeiro. É interessante porque no fundo são as mesmas histórias. É a magia dos idiomas e é o que me interessa na tradução. 
 
Tens já planos para editar um novo disco? Queres tentar algo novo? 
 
Sim, tenho muitos planos. Quero gravar o mais rápido possível, é uma questão de possibilidades agora. Quero fazer um vinil em algum momento, com gravações em formato banda. Também quero fazer um EP apenas com canções acompanhadas de piano. E depois experimentar com outros instrumentos, outros idiomas e outras construções de canções. Interessa-me a canção como forma de arte. 
 
Diz-me: tens algum herói musical? Ou não acreditas em heróis? 
 
Claro que acredito em heróis, mas não é uma confiança sem limite. No há nenhum músico do qual goste de tudo, mas há músicos do qual gosto muito do seu desenvolvimento, como o Bob Dylan. Fez discos dos quais não gosto mas no geral quero levar a vida como ele. Fez de tudo e acho que é boa pessoa. 
 
Que significa Problem Folk para ti? 
 
Significa que as minhas canções falam de conflitos e expressam problemáticas, e além disso às vezes não é fácil de tragar. O meu primeiro objectivo não é entreter embora às vezes possa gostar disso e as pessoas divertem-se nos meus concertos. Não significa dar problemas mas dar matéria para pensar de alguma forma e não fazer música para entreter. 

© Rowena Waack

A Europa está carregada de problemas. Tu que nasceste na Alemanha e vives em Espanha, achas que tens um ponto de vista privilegiado para falar de toda esta depressão? 
 
É uma boa pergunta e posso dizer que ir viver para Espanha mudou o meu ponto de vista completamente. Os alemães não estão conscientes da dimensão da crise em países como a Grécia ou a Espanha. Quando vais a um país, dás de caras directamente com os problemas e isso converte-se na realidade. E isso para mim foi uma mudança radical. De repente tinha novos amigos e a maioria está no desemprego sem conseguir encontrar nenhum trabalho e na Alemanha os meus amigos perguntam-se em que empresa podem conseguir mais dinheiro. É uma generalização mas a diferença é enorme e isso não se pode negar. Não sinto que tenha uma posição privilegiada porque não aproveito tanto a minha nacionalidade com a vida que levo. A minha intenção é ser independente, também na minha forma de pensar, mas é um objectivo muito grande e custa às vezes. Talvez o ponto de vista possa ser privilegiado por conhecer os dois países e saber como as pessoas pensam em cada um deles. Assim vês as grandes diferenças que há e a falta de conhecimento em muitos casos. Agora quando falo com alemães dou-lhes muito na cabeça acerca da necessidade de serem mais conscientes do que se passa no resto do mundo. 
 
Onde imaginas que esteja a tua música dentro de dez anos? 
 
Dentro de dez anos? Espero ter conseguido fazer ligações com outros continentes e quero ter conseguido uma maneira de dirigir-me a pessoas de qualquer idade ou nacionalidade e que possa significar algo para eles. Quero mover algo grande ou pequeno dentro das pessoas e ser sincera com a música. Em tudo o resto estou bastante feliz.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
30/04/2013