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The Go! Team
It goes it goes it goes


Aqui cabe de tudo: punk, funk, hip-hop, blaxploitation, cânticos de claque, covers de Sonic Youth, e, claro, uma enorme propensão para a cantiga pop. Em três discos (Thunder, Lightning, Strike, Proof Of Youth e Rolling Blackouts) os The Go! Team juntaram da melhor forma possível um sem número de influências, merecendo sem sombra de dúvida as excelentes críticas que receberam e ainda recebem. Contudo, é ao vivo que estas canções se transformam, muito por culpa da hiperactividade de Ninja, a vocalista que os acompanha desde 2004. Com a indefinição a pairar sobre o futuro dos Go! Team, sendo o mais provável que terminem enquanto grupo - palavras de Ian Parton, mentor de tudo o que os britânicos fizeram nos últimos doze anos - o Bodyspace resolveu ir à sua procura dias antes de subirem ao palco do Festival de Paredes de Coura, para que nos respondessem a algumas perguntas simples. O resultado é o que se segue.
Olhando para trás, como avalias tudo o que os Go! Team fizeram nestes doze anos? Há algo de que te arrependas de não ter feito, ou que agora pensas poder ter feito melhor? Qual é a melhor recordação que guardas?

Há demasiadas boas recordações: adorei todos os concertos nos EUA, os que demos juntamente com os Sonic Youth e os Flaming Lips, ter o Chuck D a participar numa canção, o Mercury Prize... O meu único arrependimento é ter feito a tour do NME: o NME é o mal.

Já disseste que o Rolling Blackouts pode ser o vosso último disco, e esta tour igualmente a última. Que te impede de continuar? Sentes que é tempo de rasgar tudo e recomeçar, tentar coisas diferentes com pessoas diferentes?

Há muito ainda por tentar, mas tudo aponta para o fim dos Go! Team - sinto que é o curso natural das coisas, porque andar em tour é muito mais difícil agora visto que alguns de nós já têm filhos. Se fossemos os Fleetwood Mac, podíamos levar uma ama-seca connosco... A próxima coisa que quero experimentar é criar canções dream pop, feitas a partir de fragmentos de discos antigos, para que soem mesmo deformadas.

O Rolling Blackouts - um disco que tentaste que fosse "mais esquizofrénico" - o canto do cisne que tinhas em mente, então? Como foi trabalhar neste disco, que tinhas em mente ao escrever estas canções?

Acabou por não ser o disco esquizofrénico que eu queria, mas ainda estou a trabalhar nisso. O Rolling Blackouts incidiu mais sobre a canção pop clássica, com maior ênfase nas melodias e nos arranjos, para depois tentar arranjar formas de incluir os samples em torno disso. Foi para mim um disco bastante diferente e mais ambicioso. Albergou, em termos de géneros, pequenas canções radiofónicas, uma espécie de coro Africano hippie, e coisas como Ennio Morricone e os My Bloody Valentine. Continuo a achar que os Go! Team têm um som único mesmo que se debruce sobre tantas coisas.

Os Go! Team são uma banda que coloca bastante ênfase em sons do passado, isto é, a vossa paleta engloba tudo desde o funk dos anos 70 até ao hip-hop da velha escola, passando por inúmeros samples obscuros, e misturam isso até resultar em algo novo. Numa altura em que as discussões sobre música se debruçam sobre o tema da retromania, e considerando que os Go! Team se saíram bastante bem neste revisitar de "música antiga", devo perguntar-te: olhar para o passado é no geral algo bom? E porquê? Tens algum conselho para dar aos jovens artistas de hoje que andam a ouvir os discos dos pais e a ficarem tão inspirados quanto tu ficaste pela música de que gostavas?

Para mim, o segredo é criar algo novo a partir do passado e mandar foder as regras de cada género - os Go! Team soam a Go! Team, e não a alguém de antes. Acho que as coisas no geral só começam a ficar interessantes quando misturas algo que não devia ser misturado, não basta rappar sobre uma canção metal, tens de o levar mais longe. Ainda acho que é isto o futuro da música.

Os vossos concertos têm tido tão boas críticas quanto os vossos discos, e já disseste que pensas em cada qual como duas coisas distintas. Que te passa pela cabeça antes de um concerto? Como transformas aquilo que tens em estúdio para algo que seja material para audiências ao vivo?

Nunca escrevi com o palco em mente - a coisa mais importante de tocar ao vivo, para mim, é o dinamismo e a acção. Adoro bandas que "deambulam" pelo palco, e, nos Go! Team, somos todos tão diferentes na forma como nos mexemos e vestimos que faz de nós, creio, uma banda única. Estamos todos a puxar em direcções diferentes e a tocar como se fosse o último concerto - e será, no que a Portugal diz respeito.

Que achas do estado presente da música, especialmente da Britânica? Achas que a crise económica pode servir como um balão para a criatividade da mesma forma que o foi no início dos anos 80? Há algo, Britânico ou não, que tenha captado a tua atenção recentemente?

Sinto que a música está um pouco em "águas de bacalhau", de momento. Há imensas coisas interessantes a acontecer, como sempre houve, mas parece que as pessoas estão demasiado distraídas com o Facebook ou com videojogos. A cultura de jovens parece ter-se pacificado - já merecíamos, sem dúvida, uma explosão.

Tens imensa experiência a remisturar outros artistas, mas posso perguntar-te qual é a tua remix preferida de uma canção de Go! Team?

Para ser franco nunca ouço as remisturas de outras pessoas... mas foi um sonho tornado realidade ter o Kevin Shields a trabalhar uma canção nossa.

Este será o vosso terceiro concerto em Portugal. Que podemos esperar de diferente - para além das novas canções, como é óbvio?

Vamos só fazer a nossa cena, o público fará a dele, e veremos quem ganha.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
21/09/2012