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Patrick Wolf
A hora do lobo


Patrick Wolf tem 22 anos, nasceu em Londres (naturalidade fortemente denunciada pelo cerrado sotaque british) e lançou em Fevereiro, pela Tomlab, Wind in the Wires, álbum que está condenado a aparecer nas listas de melhores do ano. Vem pela primeira vez a Portugal este sábado, para actuar no Festival para Gente Sentada, e o Bodyspace falou com ele na Escócia, a caminho do que prometia ser um jantar bem familiar em casa da mãe, que isto da rebeldia adolescente já lá vai (Wolf viveu uma vida boémia desde os 16, idade em que saiu de casa). Musicalmente falando, chamem-lhe a versão europeia de Bright Eyes, Andrew Bird com um laptop às costas, ou exagerem e comparem-no a Nick Cave ou Jeff Buckley. Mesmo que os elogios sejam desproporcionados, a verdade é que não abundam músicos tão jovens com tanta maturidade. Até tendo em linha de conta que em Wind in the Wires foi Wolf que escreveu as músicas e as letras, produziu e tocou quase todos os instrumentos, desde a viola (irmão mais grave do violino, que ele toca desde os seis anos) até ao ukulele, passando pelo piano, acordeão, baixo, sintetizadores e programações. O disco mostra um lado mais emocional e menos técnico do que Lycantrophy (álbum de estreia, de 2003), isto apesar do músico ter estudado durante um ano no Trinity College Music Conservatoire, em preparação para a gravação. Demonstrando uma mistura equilibrada entre o folk britânico e experiências com electrónica e breakbeats, Wind in the Wires pode ser o ponto de rebuçado entre a raiva dos 18 e a acalmia que chega com os vinte e poucos, até porque ao cantautor não faltaram histórias para contar. Algumas dessas narrativas vão decerto ficar na memória de quem assistir ao concerto de Santa Maria da Feira.
Como é que vão ser apresentadas as suas músicas em Portugal?

Vai ser tudo muito despido. Tento aproveitar toda a energia que tenho. Sou só eu, quatro instrumentos e um baterista. Toco viola, ukulele barítono, ukulele soprano e piano.

A maior parte do alinhamento vai ser de Wind in the Wires ou também vai haver uma parte substancial de Lycantrophy?


É estranho, porque este último ano tem sido todo de loucura Wind in the Wires. Normalmente, nos concertos toco todas as músicas desse álbum, mas agora estou empenhado no terceiro disco, já o escrevi por completo, e estou a ser mais retrospectivo, pelo que algumas das músicas mais antigas estão a “inflitrar-se” outra vez.

Vai tocar músicas novas?


Talvez uma ou duas, mas tenho de manter essa “virgindade” segura [risos]. É como uma gravidez, não quero mostrar as fotos a ninguém.

Em “Lands End” canta “Now don’t it seem like too long a time/ Since you were sweating in the spotlight?/ Too many jeers, not enough cheers” (“Não parece que foi há muito/ O tempo em que suavas debaixo dos holofotes/ Demasiado escárnio, poucos aplausos“). E numa entrevista ao Y, em Maio, também dizia que já não se sentia nervoso em palco. Ainda é assim?


Sim, definitivamente. Agora quando canto ao vivo mudo os versos para “Too many jeers, not enough cheers” (“Demasiados aplausos, pouco escárnio”) [risos]. O público é maravilhoso e deposita-me muita confiança. Os sítios em que me sinto mais confortável são no meu quarto e em palco, ao piano.

Num concerto no Paradiso, em Amesterdão, em Abril, disse que quando lá tinha tocado dois anos antes tinha talvez “três ou quatro pessoas” a assistir…


Acho que as pessoas não percebiam na altura o que eu estava a fazer e eu também não!...

O festival em que vai tocar poderia ser traduzido como “Festival for seated people”, é num teatro, com cadeiras. É o ambiente ideal?


Gosto de surpresas. Num dia posso tocar num auditório com grandes cadeiras de veludo em que ninguém se pode mexer e no dia seguinte numa sala “suada” e muito animada. Os meus álbuns não são monocórdicos, gosto do caos, num dia público sentado, noutro de pé, depois de barriga para baixo… É sempre divertido.

Espera que o Wind in the Wires esteja nas listas de melhor álbum do ano? Isso significa algo para si?


Nem por isso [risos]. Não acredito na competição na música. Isso é para o desporto, futebol, râguebi, guerras e presidentes.

Parece haver uma vaga de violinistas no pop de hoje em dia. Há Andrew Bird, Final Fantasy, os Arcade Fire têm alguma preponderância do violino. Sente que há uma corrente ou que tem uma abordagem similar a eles?


Não. Conheço o Owen [Pallett, violinista que responde pelo nome de Final Fantasy e que começou o projecto quando abriu um concerto de Wolf], mas fazemos música muito diferente e temos personalidades muito diferentes. Ele toca violino, eu toco viola, fiquemos por aqui.

O maior hype deste ano são possivelmente os Arcade Fire. Sente alguma relação com a música deles?


Não são bem o meu género. Eu percebo porque é que as pessoas gostam, mas se pudesse reinventar a roda destruía todas as bandas que se estabelecem no “mundo indie” e voltava às pessoas pré-históricas a fazer barulhos nas cavernas. Acho que as pessoas deviam ser mais corajosas.


Acha que os Arcade Fire não são corajosos?

Não posso comentar porque não conheço o suficiente da música deles, nunca falei com eles. Mas eles são nitidamente muito apaixonados pelo que fazem e isso é uma grande raridade na música hoje em dia. Mas não são algo que eu ouviria para sempre.

Faz sentido compararem-no a Jeff Buckley e Nick Cave?


Não [risos]. Aprecio muito o trabalho do Nick Cave. A minha namorada adora o Jeff Buckley e está sempre a tentar obrigar-me a ouvi-lo. Agora, no meu leitor de CD tenho uma compilação chamada The Pilgrims Way, uma viagem medieval de Inglaterra a Israel, com a música que os peregrinos ouviriam nesse caminho, e para mim, como músico e produtor, não é importante ouvir os standards e os clássicos. Tenho de evitar fazer isso se quero continuar inovador para o resto da minha vida, tenho de continuar a procurar e explorar na Internet por uma espanhola de cinquenta anos que toca xilofone, continuar a encontrar novos sons, novo sangue, novo sexo. Sou um explorador, sabe?

Em Outubro vai fazer primeiras partes dos Bloc Party. Tem algum interesse pela nova cena rock britânica, emanada principalmente dos Franz Ferdinand?


Acha que sim? [Risos.] Não, não é o meu tipo.

Em Maio o terceiro álbum estava sessenta por cento completo. Como é que está agora?


Estive na estrada todo o ano, não tinha computador portátil, só tinha um bloco de notas para escrever. A escrita foi toda feita no meu cérebro. Tem sido fantástico para mim afastar-me ainda mais do Wind in the Wires, em que me separei do computador. Agora desliguei-me até de passar as ideias para o papel. Aconteceu tudo no meu cérebro, o que é óptimo, porque confio mais no meu corpo do que em outra coisa qualquer no mundo. Deixei o meu corpo escrever as canções e compô-las. Agora está tudo acabado e só tenho de deixar sair tudo cá para fora.

Na entrevista ao Y disse que ia ser “uma estrela pop” com o próximo álbum, que só lhe apetecia “dançar, cantar, pôr uma cara alegre e fazer o mundo sorrir”. Ainda acha isso?


Eu sou uma estrela pop [risos]. Vou ser uma estrela pop com um pouco mais de pop.

Vai ser um álbum simples, despido?


Adorava ser simples, mas não consigo. Nos dias de hoje, na idade digital, está toda a gente constantemente a tirar fotografias e a fazer vídeos, isso inspira-me de uma maneira que me repugna, por outro lado. Há excesso de informação em todo o lado e não consigo evitar ser influenciado por isso. Este terceiro álbum vai ser uma produção maximalista, quase até à insanidade.

Costuma dizer que pergunta sempre a si próprio se pode trazer algo de novo ao mundo, em tudo o que faz. Acha que os artistas devem mudar o mundo ou isso é uma ideia ingénua?


Acho que a ingenuidade não é um defeito. As crianças têm uma visão muito entusiasmada do mundo e no meu cérebro de criança a música pode mudar o mundo. Podes fazer a canção perfeita e tocá-la para uma rocha e vai haver paz no dia seguinte. Acredito na magia e a música para mim é magia. E a magia é a possibilidade de tudo acontecer.


João Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net
29/09/2005