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Ricardo A. Freitas
Interlúdio


Apesar da (até agora) relativa invisibilidade, o baixista Ricardo A. Freitas tem sido das figuras mais activas da cena jazzística portuguesa ao longo dos últimos anos. Começou a tocar numa banda de "prog de garagem", os Pablibut Sone, mas encontrou no universo do jazz uma base de trabalho à volta da qual tem focado a sua atenção. Sob a designação SatIErff trabalha música de cena (teatro, dança, cinema) e tem participado em diversos projectos, como 3-Bass-Hit ou KriLoF Trio. Um dos projectos onde mais se fez notar foi o grupo Wishful Thinking, liderado pelo palhetista brasileiro Alípio C. Neto, que editou um interessante álbum pela Clean Feed. O seu mais recente projecto é o quarteto GRIP, onde se junta com os saxofonistas Gonçalo Prazeres e Francisco Andrade e o baterista João Lencastre. Entretanto acaba de editar o seu primeiro álbum na condição de líder, com o seu grupo Interlúnio - L´Ennui Riot foi lançado através da JACC Records. Neste projecto, onde conta com a colaboração de Gonçalo Lopes (clarinete baixo, clarinete), Johannes Krieger (trompete), Eduardo Lála (trombone) e Raimund Engelhardt (tabla, percussão), desenvolve uma música que atravessa fronteiras. Senhoras e senhores, Ricardo A. Freitas - na primeira pessoa.
Como nasceu a tua ligação com a música?

Começou com a iniciação musical por altura da escola primária, o apreender dos primeiros rudimentos da linguagem musical, o que penso terá permitido abrir outras portas muito mais tarde e de uma forma intuitiva. Tive aulas de piano por volta dos 12/13 anos, aos 15 comprei uma guitarra clássica e aos 16/17 anos comecei a tocar baixo num grupo de liceu, mesmo sem ter o instrumento. As aulas de piano eram levadas de forma ligeira, o que eu tinha em casa era um orgão, e comecei inventar umas "brincadeiras" logo de início, e assim a música começa a existir enquanto descoberta e interesse crescente, sempre ligado à possibilidade de criar. Depois com a guitarra continuei esse caminho, de outra forma, e um ano depois fui ter algumas aulas. Com o baixo começa a colaboração com o Paulo Dias Duarte que vai resultar, depois de umas tantas etapas e transformações, nos Pablibut Sone. Vou tendo aulas de baixo com alguns professores e formação musical. Essa ligação também se complementa e comunica com o facto de ter encontrado um meio, ter conhecido pessoas que gostavam de música, num momento de descobertas, curiosidade pela diversidade, procurando a música dessa época e comum nessas idades, assim como outras menos óbvias.

Porque escolheste como instrumento o baixo eléctrico e a guitarra baixo acústica? Escolhes o baixo eléctrico ou acústico consoante as características do grupo?

Pelo que disse anteriormente, o baixo eléctrico veio parar-me às mãos e não demorou muito para que me sentisse cada vez mais atraído pelo instrumento e pelo desempenho que poderia ter num colectivo. Olhando para trás parece-me que esse papel se adapta de certa forma à minha personalidade. Hoje tenho a certeza que é lá atrás que gosto de estar e de ter uma função de base. Isto não desconsiderando os desenvolvimentos que o instrumento tem conhecido ao longo dos anos no sentido de uma maior emancipação, ou autonomia se quisermos, daquilo que é considerada a sua função base enquanto suporte harmónico e rítmico. A versão semi-acústica é bem mais recente, vai fazer agora 5 anos que adquiri o primeiro. Não os considero bem instrumentos diferentes, são o mesmo mas com características, possibilidades e sensibilidade que os distinguem. E não descurando também as diferenças tecnológicas, de construção, materiais utilizados e tipo de captação... Assim quase que era melhor dizer que são instrumentos distintos! Nesse sentido escolho o baixo eléctrico ou acústico consoante as características do grupo e aquilo que quero imprimir em cada projecto específico.

Quem foram (e são) as tuas maiores influências? (Não só no instrumento, mas na música em geral...)

As coisas que me influenciaram são muitas e em diferentes áreas musicais. Tudo o que ouvi, em disco, na rádio ou ao vivo. O pop-rock em sentido lato, das canções à electrónica, ao noise e às músicas experimentais, dos modernistas do início do sec. XX à contemporânea, o jazz nas suas várias vertentes, e algumas músicas tradicionais também. Para o que aqui mais interessa, na definição de uma hipotética linhagem mais concreta e "honesta" vou tentar cingir-me a uns poucos nomes que me acompanham em diferentes fases e que poderão ter entrado de certa forma naquilo que fui fazendo.

No início, quando a música começa a ser assunto, claro que todo um contexto de bandas do pop-rock internacional, inglesas e americanas, dos anos 80 e 90. No entanto escolho aqui influências bem mais próximas, de uma época que foi para mim uma das mais criativas na música portuguesa, pelo seu carácter pioneiro, onde pontificaram os Pop Dell´Arte e Mler Ife Dada. Tanto pela música, descomplexada, imaginativa e livre, como pela influência no instrumento dos baixistas Zé Pedro Moura e Nuno Rebelo respectivamente. Este último principalmente, com as suas linhas de baixo pouco ortodoxas, pelo seu trabalho com uma voz muito própria ao nível da composição, patentes também nos seus trabalhos posteriores para os coreógrafos da chamada nova dança portuguesa e no seu projecto Plopopot Pot. Esta última referência leva-me a outros grupos que surgiram mais ou menos na mesma altura, A Máquina do Almoço dá Pancadas do Flak, O Lugar da Desordem do Paulo Curado e os Idéfix do Sérgio Pelágio. Este último onde participou Yuri Daniel, um dos baixistas que mais me impressionou, embora de uma outra escola, com uma competência técnica à qual não me poderei comparar.

E isto onde leva? Ou melhor, de onde vem… Directamente do outro lado do Atlântico à cena downtown de Nova Iorque. Para mim, mais concretamente, ao inglês aí radicado Fred Frith que passou a ser uma figura incontornável nas suas várias facetas de prolífero compositor e improvisador. Aos Naked City de John Zorn e a sua música inclassificável trazendo atrás de si todo um vasto conjunto de outras referências. Nos anos 90 este grupo passa por Lisboa, que vi na segunda vinda, assim como Elliott Sharp a solo. Também importante no baixo eléctrico foi Bill Laswell, principalmente nos Massacre com Fred Frith (em actividade à volta de 1980).

Esta referência leva-me a falar não tanto de baixistas mas de duas músicas curtas e incisivas em particular, que considero, com inevitável subjectividade e provocação, serem as maiores e mais excitantes “malhas” de baixo eléctrico de sempre! Se é que isso é possível, um assumido exagero. São elas “Legs”, dos próprios Massacre, e “Ironcide”… que gravei em cassete da rádio – não sei se da Marginal (que, acredite-se, já foi uma rádio de programas de autor e de “músicas das margens”) ou já na altura em que existia a XFM – e que só agora, depois de muita pesquisa, sei tratar-se de uma faixa obscura dos Scanners (!?), que aparece desamparada na colectânea Live at the Knitting Factory Volume 1, grupo constituído por Percy Jones, baixo fretless, Elliott Sharp, guitarra, e David Linton, bateria. Percy quem? Não sei (agora mais um pouco), mas muito bom trabalho.

Ao nível da guitarra baixo queria destacar quatro nomes. Dois deles aparecem em muitos projectos que me interessam e influenciam: Skuli Sverrisson, que aparece ao lado de Chris Speed ou Jim Black, e Stomu Takeishi, colaborando com Ned Rothenberg, Myra Melford ou Henry Threadgill. Já agora, todos eles músicos de referência e muitos mais haveria. Voltando a baixistas, os outros dois têm o melhor som e “feeling” que conheço, são eles Jerome Harris e Steve Swallow, uns senhores. O Jerome que me apresentou a guitarra baixo acústica. Ambos tocando modelos excepcionais, que muito invejo e que estão para lá do meu alcance geográfico e orçamental…

Outras referências mais clássicas e do jazz: Coltrane, Dolphy e Mingus. Referências, sim, incontornáveis e vibrantes, mas cuja influência directa não terei a veleidade. Outra coisa, esta mais complicada. Os clássicos do sec. XX., sobretudo Debussy, também Bartok e Stravinsky. Pelo forte impacto que a sua descoberta penso implicar em quem se interessa por música e composição. Uma música que permanece no seu desafio e mistério, como se desenvolvem motivos, o modo como as vozes se entrelaçam e flúem, a harmonia que se expande e estilhaça para a altura, um século atrás. Daqui o meu interesse por contraponto, pelo discurso a várias vozes, pela profusão de estímulos. Interesse ressalvando que em conhecimento formal de composição sou um leigo, um curioso que se move por processos intuitivos. Depois há o vasto universo da música contemporânea a partir da segunda metade do século, mas isso é toda uma outra história, que me estimula.

Noutro capítulo, o das canções. David Sylvian é já um conhecido de longa data, com um percurso muito próprio que sempre soube juntar colaborações muito pouco óbvias para os territórios da pop, do qual até nem gosto de tudo. Robert Wyatt, embora um veterano, conheço-o há apenas alguns anos tendo ficado completamente rendido, um mestre do qual sou apreciador incondicional.

O teu primeiro grupo terá sido o quarteto Pablibut Sone, “rock progressivo de garagem”. O que ficou deste projecto? Esta experiência foi importante para a tua evolução como músico?

Os Pablibut Sone foram o meu primeiro grupo, embora viessem de um percurso anterior do qual não reza a história, nem deverá. Foram eles o Paulo Dias Duarte na guitarra, o Gonçalo Lopes no clarinete, passando pelo Ricardo Quintas, o Tiago Rodrigues na bateria, meu colega de escola, passando depois para o Bruno Martins. O que ficou deste projecto foram as pontas soltas para tudo o que pudesse vir a seguir. Não exactamente, quase… Foi onde me fiz baixista, com todos os erros, que me informou que o meu percurso teria de passar pela música. Neste sentido foi uma experiência fundamental. Embora, como já ficou expresso acima, eu já tivesse uma ligação inicial à música, até do ponto de vista criativo com toda a sua insipiência, nada indicava que pudesse vir a tocar com uma plateia à frente. Não fosse este “acidente de percurso” poderia eu continuar a tocar para mim, ou não… É mais ou menos comum ver nas razões de muitos músicos uma motivação mais assertiva e, digamos, positivista na sua certeza da inevitabilidade da música. Qualquer coisa como, por exemplo, um dia tiveram uma revelação com determinada música, no dia a seguir tinham um instrumento nas mãos e ao terceiro dia sabiam que era aquilo que tinham de fazer para o resto das suas vidas. Eu sou bem mais disperso e relativista, além de mais prosaicamente já ter sido demasiado reservado e tímido. Os Pablibut Sone foram essa aprendizagem, esse confronto com o lado público de uma performance, um aprender fazendo, uma música quebrada, tocada de uma forma suja, uma forma de testar os nossos limites movendo-os e de extravasar talvez esse lado mais “selvagem” na juventude, que pela minha personalidade nunca tive muito. Fazíamos as músicas nos ensaios, às turras, e não havia pautas. Estará já um pouco romanceado, são assim as primaveras! O que ficou de mais concreto: algumas gravações, registos ao vivo e a memória de algumas poucas pessoas que chegaram a assistir e que, surpreendentemente, ainda hoje nos podemos ir deparando, de vez em quando.

Dos projectos onde colaboraste destaca-se a ligação com o saxofonista Alípio C. Neto, com quem colaboraste no grupo Wishful Thinking. Esse projecto foi importante para a tua evolução?

Sim, os Wishful Thinking foram outro patamar, outra forma de abordar a música. Conheci novos músicos, o Alípio C Neto, que se demonstrou dinâmico e prolífero num curto espaço de tempo, o Johannes Krieger com quem venho fazendo outras coisas, o Rui Gonçalves, baterista formidável, e a oportunidade de tocar com um pianista da estatura de Alex Maguire. Foi uma questão de oportunidade, de ver que as coisas podiam funcionar de outra maneira, de vislumbrar outras saídas. A Clean Feed, para quem gravámos, estava a crescer e cada vez mais pujante, a sensação de que as coisas se moviam. Puxou muito por mim, no bom sentido, de forma a estar à altura, durou cerca de dois ou três anos e os encontros foram intensos. Um embate com o “real” sob diversos aspectos.

Ao vivo chegaste a tocar uma versão de “Mudar de Vida”, de Carlos Paredes. O que representa para ti essa música e a obra de Carlos Paredes?

O Carlos Paredes é um caso muito especial, para mim como, felizmente, para muitos outros. A versão para os IntErLúNio do “Mudar de Vida”, um tema que achei que podia tocar e do qual fiz uma versão com um arranjo criativo, adicionando vozes que não se encontram no original. Para lá da versão, uma recriação e uma homenagem. O que representa para mim a sua obra? Muito. Um valor intangível, dificilmente expresso. É a música que é incrível, indelevelmente portuguesa, algo que parece sempre lá ter estado mesmo antes de a ela chegares. Apesar disto, propositadamente não o mencionei nas minhas referências porque nada do que fiz, ou virei a fazer, tem a sua influência directa, é outro universo. É só amor, incondicional…

Tens outras referências importantes na música portuguesa?

Já mencionei algumas. Posso acrescentar os autores que bebem das fontes populares, Zeca Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto. Num outro campo, gosto muito da Banda do Casaco, banda que não deverá ficar esquecida, e dos Gaiteiros de Lisboa. Não considerando uma referência, de frescos que estão, mais recentemente gostei de conhecer A Presença das Formigas, que ao contrário de muitas outras coisas que por aí andam não têm tido a atenção merecida. Mas há mais coisas interessantes a acontecer.

Um dos projectos em que estiveste envolvido foi o grupo 3-Bass-Hit. Qual é o ponto de situação deste grupo?

Os 3-Bass-Hit estão sem situação. É um projecto da responsabilidade do Johannes Krieger e da sua iniciativa dependem. Até prova em contrário, já foram, o que é uma pena. Mas o que é importante é que o Johannes continua endiabrado e muito activo!

Um dos teus parceiros recorrentes é o trompetista Johannes Krieger. Como defines a relação musical que tens com ele?

É uma boa relação. Já toquei com ele nos Wishful Thinking, 3-Bass-Hit, Mechanics, um projecto efémero com Lars Arens, e ainda integra os IntErLúNio. Além destes grupos também já fiz uma substituição nos Yatra do Raimund Engehardt e noutras situações de improviso. É um músico completo, trompetista de bom som, boas ideias, aberto, capaz de tocar dos contextos ora tradicionais ora mais abertos ou mesmo “free”, bom compositor à procura de coisas novas e diferentes para sua música e que gosta de se divertir com o que faz. Em suma, um prazer.

No projecto SatIErff dedicas-te à música de cena (teatro, dança, cinema). Como tem estado este projecto?

SatIErff não é tanto um projecto, é mais uma designação que utilizo para arrumar o meu trabalho de música de cena. A razão desta arrumação é prática, para definir um contexto, e porque às tantas não me fez sentido que a música que faço para outros tivesse apenas o meu nome, assumindo-se mais como minha do que os projectos que lanço e dirijo por minha iniciativa. Antes pelo contrário. Não é algo com uma linha definida, é música feita para determinados fins, o que depende do carácter e das intenções das peças ou coreografias a que se destinam. Cinema, mesmo, ainda é algo que não tem acontecido, apenas um pequeno contributo. Se é certo que se tem caracterizado pelo recurso à componente electrónica, seja com participação ao vivo ou através de gravações, tal se tem devido a uma questão de produção e orçamento, visto que o faço sozinho. Também será por essa capacidade que me contactam. Mas para mim seria também interessante poder fazer um dia algo com recurso a mais instrumentos, um ensemble, seja ao vivo ou gravado. Esta faceta move-se havendo trabalho e solicitações.

Acabaste de editar o primeiro álbum do grupo Interlúnio, o teu primeiro álbum na condição de líder. O que representa este disco? O que dirias para convencer um possível ouvinte?

Em primeiro lugar representa uma etapa que tinha de ser alcançada. Apresenta um conjunto de ideias num determinado momento na vida de um projecto. Neste tipo de música, que inclui o factor improvisação, traduz uma maturação e a forma como decorreu essa sessão de gravação. Não será original afirmar que é um arrumar de ideias para poder seguir em frente de outra forma. É também um meio de a música ganhar uma identidade pública, de se poder fixar uma obra, com o que isso representa como potencial de comunicação, partilha e circulação. Representa o culminar de um esforço. E é também um objecto que fica, mesmo que não fique para sempre, que possa vir a desaparecer, mas permanece o seu registo, existiu, viu a luz do dia.

Como músico e responsável pelo projecto não será o mais confortável esse papel de ter de convencer por palavras os possíveis ouvintes, algo que nunca faria face a uma situação real. Eu de marketing e gestão de carreiras infelizmente percebo pouco. Não concebo uma arte feita de certezas, a dúvida é inerente a todo um processo criativo e é ela que o move. E depois há as escolhas, no meio disto um certo grau de certeza para que a determinados passos e no final possamos dizer “é isto”, não outra coisa, está aqui. Não me furtando ao exercício, direi em primeiro lugar que o ouvinte terá de ser convencido pela audição do disco em si e não por palavras minhas ou de qualquer outra pessoa, mas para isso é claro que será necessário que lá chegue. As apresentações ou recensões servem apenas para nos despertar a curiosidade em nos aproximarmos do objecto, ou não.

É um tipo de trabalho que poderá interessar a algumas pessoas específicas, não sei se muitas ou poucas, mas obviamente que existe um público que justifica plenamente esta edição. Se o disco chega a esse público é toda uma outra questão. É uma abordagem muito diferente do que fiz para trás. Exige também alguma disponibilidade generosa de quem ouve, da mesma forma que o exigiu a quem o interpretou. Isto é, não porque possa ser difícil, não será, mas nada aqui é espectáculo imediatista, não assalta a escuta com “grandes malhas”, há antes um som que pretende tomar conta de um espaço. IntErLúNio tem uma formação pouco usual: Gonçalo Lopes nos clarinetes baixo e soprano, Johannes Krieger no trompete, Eduardo Lála no trombone, eu na guitarra baixo acústica e Raimund Engelhardt na tabla; o que lhe confere um universo tímbrico particular. É verdade que o atravessa um certo pendor mediterrânico, mas não o concebo como diálogo de duas ou mais culturas. O facto de utilizar uma tabla é onde começa e acaba qualquer ligação com a tradição indiana, esta estará no saber do Raimund, que a estudou e utiliza à sua maneira enquadrando-se nesta música, como não podia deixar de ser. Avalio antes um conjunto de elementos perfeitamente interiorizados numa linguagem e trabalho de composição próprios. Trabalho esse que tem um lado simples, outro complexo, minúcia num quadro de contenção com algumas excepções, que se complementa com momentos menos determinísticos da improvisação. São quatro temas meus, um do Gonçalo, dois arranjos que fiz para músicas do Raimund e do guitarrista francês Serge Pesce, e uma improvisação sem rede. Não será experimental, mas muito menos “mainstream”, é um projecto com uma voz própria que provavelmente pouco se enquadra em qualquer “cena” específica do jazz nacional. Isso poderá eventualmente ser uma debilidade comercial, mas também uma mais valia. E com isto tudo não me pude escapar a dialogar com algumas coisas que entretanto já li. Esta é uma questão nada fácil, não sei responder melhor.

O teu projecto mais recente é o quarteto GRIP, uma espécie de grupo “all-star” com Francisco Andrade (sax tenor), Gonçalo Prazeres (sax alto) e João Lencastre (bateria). Quais são os teus objectivos para este quarteto? Como tem sido a evolução deste grupo?

Esse epíteto “all-star” é simpático, mas que me parece muito pouco plausível. Talvez o João Lencastre seja o mais próximo de ser “estrela”, pela atenção que têm merecido os seus discos e por tocar com grandes nomes nacionais e internacionais. Isto não querendo desdenhar a força criativa destes meus companheiros que, aliás, escolhi a dedo e muito honram este projecto. O “estrelato” obedece a outros critérios. Os objectivos para este quarteto são muito simples. Tocar, tocar cada vez mais e melhor, e gravar um disco logo que possível, assim estejam reunidas as condições necessárias. O grupo tem evoluído de forma muito positiva e em força. Não é uma música de execução fácil, tem muitos truques e alçapões, mas estes músicos dão-lhe bem e têm toda uma vibração e vida para lhe dar.

Sei que és uma pessoa interventiva a nível social. Achas que a música pode contribuir para fomentar mudanças positivas na sociedade?

Não. Isto respondendo directamente à tua pergunta. Isso é uma ideia romântica e autocomplacente que quanto muito pode apaziguar quem apenas faz aquilo que sabe, mesmo que com enlevo e elevação, pensando assim propagar o bem por osmose. A música pode ser mágica, e eu até acho que é, mas não dá para tanto. A cultura e as artes são essenciais para quem a elas é sensível, podem até ser uma questão de sobrevivência, digamos, espiritual em estados avançados de consciência de si próprios e dos outros, daquilo a que chamamos civilização. A cultura é essencial, mas há várias e não nos salva. Até o pior criminoso pode ser um esteta de fino recorte… O contributo para uma mudança positiva na sociedade, que seja sólido, só pode ser eficaz pela palavra, no que ela comporta de transporte de ideias e sua discussão, e pela acção, na concretização dessas ideias e por ideais, pelo exemplo. Agora, uma coisa penso ser garantida, um mundo melhor, mais equitativo e justo é absolutamente impossível sem música, arte imaginação, cultura, educação e saúde. Inviável.

Como analisas o actual momento da música portuguesa (jazz e não só)?

Encontra-se bem e recomenda-se. Isto num certo sentido, na vontade de fazer e força criativa. Mas num contexto de um país sem grandes alternativas e, a julgar por quem lhe conduz o destino, sem futuro. Parecemos estar novamente no pico de um ciclo em que havendo quem queira fazer as coisas acontecer corresponde uma permeabilidade de quem delas queira usufruir. No entanto isso continua a ser um grupo restrito no contexto de todo um país e não é igual para todas as expressões e estéticas, muito longe disso. Provavelmente haverá uma ilusão de movimento propiciada por alguns fenómenos restritos, com mais expressão no pop e no rock, na proliferação de novos projectos e caras que têm surgido nos últimos anos, aliado a alguma atenção mediática. Mas isso é demasiado assunto. O que interessa é que as pessoas estão menos complexadas, os jovens músicos parecem saber mais cedo e em maior número aquilo que querem, a atitude parece-me um pouco diferente. Penso que há um projecto que dá um bom mote, talvez a música portuguesa esteja a gostar mais dela própria. No entanto a realidade económica e social é incontornável. Não havendo dinheiro vai faltar quem queira pagar bilhetes para ver concertos e comprar discos, o que para as novas gerações já acontecia de qualquer maneira, comprometendo uma certa profissionalização da música. O caso específico do jazz é um pouco diferente. Há muito menos público para os clubes, embora até tenham aberto recentemente novos espaços com programação e reabriu o Hot Clube, falando apenas de Lisboa. Há cada vez mais diversidade de projectos, músicos a tocar bem e com abertura para diferentes estéticas, penso eu.

Quais são os teus planos para o futuro?

No imediato é sobreviver. Depois ideias há, mas não é momento para falar delas. Essencialmente quero diversificar, expandir o meu percurso, porque simplesmente o posso fazer naquilo que são as minhas capacidades, e quero alargar horizontes. As pessoas parecem não saber o que faço e isso não é culpa delas. Umas vezes dou por mim a falar com alguém que parece acreditar que eu deva fazer um “jazzinho” (?), viro-me para o lado e outro pensa que sou free jazz, atrás de mim faço umas coisas experimentais… Sei lá, nada disso. Ou talvez seja apenas cansaço e percepção enviesada sobre a percepção dos outros. Venham ver os meus concertos.


Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
28/04/2012