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ALTO!
Do alto destas guitarras seis décadas vos contemplam


Por cada morte anunciada do rock n¬ī roll, outra ressurrei√ß√£o acontece em s√≠tios onde o poder m√°gico do riff adquire tra√ßos libert√°rios. Por cada single de dance-pop mascavada e descart√°vel que atinge o lugar cimeiro dos tops, dezenas de excelentes discos rock s√£o imaginados em garagens, caves, bunkers e demais espa√ßos onde a imagina√ß√£o corre f√©rtil, ajudada seja pelo que for - √°lcool, drogas, t√©dio, √≠dolos antigos, sonhos de paisagens des√©rticas, long√≠nquas, alcan√ß√°veis com um simples acorde. E ent√£o, vilarejos esquecidos at√© em mapas brilham com uma intensidade maior que a das grandes cidades, contagiam os sedentos com a sua sensa√ß√£o de invulnerabilidade. Tal √© o caso de Barcelos. N√£o necessariamente um vilarejo, mas hoje tem mais, muito mais com que se orgulhar do que um mero galo: tem o estatuto de Meca do rock nacional. E para se juntar ao trajecto de grandes como os Black Bombaim ou os Glockenwise, tem agora os ALTO!, esp√©cie de supergrupo da cena Barcelense, e o seu disco de estreia hom√≥nimo que est√° quase a sair. N√≥s que j√° o ouvimos agradecemos. E √† disponibilidade de Jo√£o Pimenta, vocalista, para responder √†s nossas perguntas.
Em que é que o longa-duração muda em termos sonoros do que já se conhecia dos EPs, se é que muda alguma coisa?

Penso que a ac√ß√£o do Ricardo Miranda nos teclados e na guitarra foi muito mais preponderante na escrita dos temas. A pr√≥pria tem√°tica, que andou √† volta de 10 hist√≥rias diferentes em 10 locais diferentes (da√≠ os t√≠tulos na topon√≠mia original). Os elementos come√ßaram a ouvir outras coisas. As letras obedeceram portanto j√° a uma hist√≥ria escrita por ela pr√≥pria. Muda sempre uma banda com o passar do tempo, seja de elementos, de sonoridade. E num EP nunca tens muito tempo para exp√īr a tua sonoridade, um alb√ļm exige outra aten√ß√£o. Sentimos que era agora o momento.

Foi um trabalho mais ‚Äúpensado‚ÄĚ do que os outros? Visto que hoje as bandas apressam-se a cuspir discos ‚Äď com melhores ou piores resultados ‚Äď quiseram olear bem a m√°quina antes de lan√ßarem um LP meses ap√≥s a forma√ß√£o da banda?

Na verdade s√£o anos. A banda tem cerca de 3 anos, j√° tocou um pouco pelo pa√≠s todo, tem hist√≥rias maravilhosas em Espanha, normais numa banda que se abeira do escuro. J√° t√≠nhamos lan√ßado 2 EPs e sentimos que a liga√ß√£o musical estava a ideal para tomarmos este passo, portanto nem foi uma quest√£o de olear, foi pegar em 10 m√ļsicas que sent√≠amos que faziam sentido no seu todo, trabalh√°-las e grav√°-las. Sem nunca pensar muito nisso. Sentimos que trabalhando com o instinto se consegue melhores resultados.

O que é que os membros dos Green Machine e dos Black Bombaim podem fazer nos ALTO! que não podem (podiam) fazer nas suas bandas respectivas?

Isso s√£o tudo nomes de bandas, s√≥, n√£o √©? Na realidade o que importa aqui s√£o as pessoas. N√≥s n√£o nos junt√°mos por x ou y tocar em determinada banda. Na realidade o nosso baixista nem tem outras bandas, √© a sua primeira. √Č uma coincid√™ncia essas bandas, mas l√° est√°... numa cidade t√£o pequena seria quase imposs√≠vel isso n√£o ter acontecido.

Não posso ser eu a fazer copy-paste do Facebook, por isso importam-se de ser vocês a fazer ctrl+v e dizer-me onde gravaram, com quem e como correu?

Grav√°mos nos Est√ļdios S√° da Bandeira nos primeiros 2 dias de Dezembro com o Jo√£o Brand√£o. Takes live, menos os de voz. No primeiro dia ficou gravado todo o instrumental e no segundo a voz que seguiu um estilo pouco ortodoxo. Nenhum take foi gravado na sala normal. Foi mais uma jun√ß√£o de micro no fundo de um corredor de escadas, um chuveiro e um micro ligado a um amp de guitarra min√ļsculo chamado ‚Äúpigonose‚ÄĚ. Convidados s√≥ o engenheiro de som do est√ļdio que tocou pandeireta num tema e o som da rua de S√° da Bandeira noutro. No terceiro dia foi tudo misturado pelo Brand√£o e pass√°mos para a parte da masteriza√ß√£o e capa.

Que espécie de favores tiveram de fazer ao Joaquim Durães para que ele lançasse o vosso disco?

Passar m√ļsica com ele e um tipo chamado Nuno Dias e provavelmente umas pulseiras coloridas e um ou outro mojito no final de Julho, n√£o digo onde. Mas n√£o chamo a isso favores mas aux√≠lios.

Sentem que a imprensa musical fala demasiado das bandas de Lisboa e esquece a qualidade que h√° no norte?

A imprensa musical em Portugal é uma publicação mensal com a Amy Winehouse 3 vezes por ano na capa. O resto é internet. Esse dilema é eterno e provavelmente já na Idade Média se queixavam disso. Naturalmente que se presta mais atenção em Lisboa às coisas feitas lá, está tudo lá concentrado não é? Penso que não se irá alterar, mas também não queremos fazer parte dessa guerra.

J√° diziam os KLF que para se ter sucesso pop tem de se estar desempregado para n√£o ter qualquer esp√©cie de preocupa√ß√Ķes. Acham que o facto de serem ‚Äúdesempregados num pa√≠s asfixiado pela crise‚ÄĚ vos d√° uma maior liberdade criativa?

Pelo menos dá mais tempo para compor e isso é um bónus numa época em que não se tem tempo para nada. Nesta altura alguns de nós trabalham, outros estudam, outros estão desempregados. Somos muito heterogéneos.

Ap√≥s o lan√ßamento do LP, t√™m alguma digress√£o planeada ou far√£o s√≥ apresenta√ß√Ķes espor√°dicas?

Vamos apresentar o disco nas principais cidades nacionais nos locais onde se podem apresentar, também nas Fnacs, e estamos a planear voltar a tocar em Espanha, em especial em locais onde não tenhamos estado ainda, como Madrid ou o País Basco. E como focaste o factor desemprego, sentimos que o disco se calhar tem potencial para nos enviar além Pirinéus, daí que uma digressão por essa velha Europa não esteja de parte.

O vosso bunker tem alguma ligação à zona das espirituosas do mini-mercado ou ainda não se lembraram de fazer um buraco no tecto?

Penso que o lugar √© muito mitificado. √Č s√≥ um canto numa garagem onde de facto algumas bandas de Barcelos cresceram e funcionou como uma placa girat√≥ria muito importante de troca de informa√ß√£o sobre m√ļsica e cultura em geral. Lembro-me das sess√Ķes de cinema ao domingo √† noite ou mesmo da pr√≥pria partilha de pens. E √© sempre bom um s√≠tio assim existir. Ajuda mais o local a crescer do que qualquer centro cultural, no fundo.

Barcelos é mesmo a capital do rock?

Tendo em conta que eu, o Ricardo Miranda, o Toj√≥ Rodrigues e o M√°rcio da Lovers and Lollypops crescemos em Abade de Neiva, mais concretamente na zona Breia-Cachadinha-Caf√© Os Manos, penso que Abade de Neiva, sim, a um n√≠vel underground mais underground ainda, pode ser considerada a verdadeira capital do rock no meio disto tudo. √Č uma zona com vacas, caminhos em pedra, caixas de correio a 200 metros das casas, zona de graffitis surreais como o ‚ÄúO Tora √© Romano‚ÄĚ ou ‚ÄúJ√° almo√ßaste?‚ÄĚ e o som do fuzz de Fu Manchu l√° ao fundo intercalado por tiros de espingarda. Um s√≠tio giro.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
26/01/2012