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Marc Copland
Good Cop, Bad Cop


Começou como saxofonista, mas deparou-se com as limitações do instrumento e resolveu mudar. Passou para o piano e foi aí que encontrou a sua própria linguagem, combinando lirismo e originalidade. De Philadelphia até Nova Iorque, atravessou um longo caminho de descoberta e é hoje, reconhecidamente, um dos vultos maiores do pianismo jazz contemporâneo. Se alguém ainda tenha dúvidas, poderá confirmar as suas gravações em trio, “New York Trio Recordings” (Modinha de 2006, Voices de 2007 e Night Whispers de 2008) - manifestos de estonteante beleza. No dia 23 de Setembro Marc Copland vai apresentar-se ao vivo no Centro Cultural de Belém acompanhado pelo guitarrista John Abercrombie, histórico companheiro de aventuras musicais. Antecipando esta actuação em Lisboa, Marc Copland falou ao Bodyspace.
Começou como saxofonista, mas numa decidiu mudar para o piano. Porquê esta mudança de instrumento?

Foi uma decisão tomada com o coração, para dizer a verdade. Andava cada vez mais atraído por determinados tipos de harmonias que só conseguia tocar com o piano – um novo mundo de cores. Na altura andava a escrever composições com aquelas harmonias, que eram muito mais adequadas ao piano que ao saxofone, e sentia-me em casa. E quando encontrei essa casa, decidi que a parir daí era ali que ia morar.

A sua abordagem do piano é considerada inovadora e tem muitos seguidores. Como vê a sua contribuição para a evolução do piano na história do jazz?

Esse tipo de análise prefiro deixar para os outros. Tudo aquilo que faço musicalmente é guiado por uma única decisão: a decisão não tocar uma nota, um acorde, a menos que ele tenha um certo som, uma certa textura e sentimento; a decisão de não tocar uma nota a menos que ela tenha um certo toque, que mostre que vem de dentro, do coração; a decisão de não tocar uma nota a menos que ela conte algo de uma experiência humana; a decisão de não tocar uma nota a menos que seja tenha honestidade.

A sua música tem evoluído constantemente ao longo dos anos. Tem por objectivo continuar sempre a trilhar um caminho de evolução e mudança?

O meu objectivo é evitar ser um simples músico, mas tentar ser um artista que transmita um significado através da música. Para se conseguir fazer isso deve-se continuar a evoluir, não é possível ficar parado. A capacidade de fazer uma música com significado depende, por um lado, do crescimento da alma e espírito, e por outro lado, das capacidades necessárias para expressar esse espírito. A alma e as capacidades podem ser deterioradas, ou então poderão ser fortalecidas. O facto de crescerem ou murcharem depende se são nutridas e desenvolvidas ou não. Isto são coisas que não se mantém sempre no mesmo sítio, estão sempre em movimento. E eu prefiro ir em frente, sempre que possível.

Uma palavra utilizada recorrentemente para classificar a sua música é “poética”. Sente que a sua música com uma especial qualidade emocional?

Sem emoção, a música tal como a conheço seria impossível.

Quem são os pianistas que o entusiasmam, hoje em dia?

Qualquer músico que toque daquela forma que descrevi. Gosto muito do Bill Carrrothers.

As suas gravações “New York Trio Recordings” ganharam um certo culto e em parte serão responsáveis pela sua música ter chegado a audiências mais vastas. Como vê esses discos?

Julgo que são discos honestos... Se um disco soa honesto então eu sei que é o melhor que pude fazer, porque não tentei ser outra pessoa, ou não tentei ser algo que não sou.

O formato que melhor revela a sua expressividade será o piano solo. Pessoalmente prefere tocar sozinho ou aprecia a partilha dessa criação de música com outras pessoas?

Acaba tudo por ser música, não tenho preferência. Se perguntar a alguém se prefere estar sozinho, ou com outras pessoas, as respostas poderão ser diferentes hoje ou na próxima semana. É tão simples quanto isso.

Como surgiu a possibilidade de trabalhar neste duo com o John Abercrombie?

Nós somos amigos e já tocamos juntos há muito tempo. Foi algo que aconteceu de uma forma muito natural.

A sua ligação com John Abercrombie remonta ao início da década de 1970, em que tocavam juntos no quarteto de Chico Hamilton. O que se recorda dessa altura?

Seria difícil para mim subestimar a importância de John na minha vida, especialmente naquela época. Eu era um saxofonista jovem e ambicioso que queria tocar no limite, tocar milhões de notas, tornar-me muito famoso - eu andava na música para todas as razões erradas. Nessa altura o John entrou na banda do Chico e eu fiquei atordoado. Ele era um músico a sério - tudo o que ele tocava tinha significado - mas ele não tocava notas a mais, não era impetuoso, não tinha absolutamente nenhum interesse em fama, só queria tocar a melhor música que ele podia. Então senti-me embaraçado, para ser honesto. Era óbvio para mim John era um verdadeiro artista, e eu senti que eu não era. Ele falou-me na linguagem das harmonias e cores e eu soube que era por aí que eu tinha que ir. O John foi o catalisador que ajudou a despertar essa parte de mim.

Ao longo destes anos todos tem colaborado com John Abercrombie em contextos muito diversos. Como vê a evolução da vossa relação musical ao longo dos ano?

Nós entendemo-nos muito bem e enquanto algumas coisas vão mudando (os métodos, as abordagens, as ideias), há uma coisa que continua sempre: nós não queremos tocar aquilo que não estamos sentir.

Além de John Abercrombie, quem são os seus colaboradores favoritos?

Qualquer músico pode ser um favorito. Se está a acontecer, é o meu favorito!

O que poderemos esperar deste concerto no CCB, em Lisboa?

Espero que consigamos criar alguma boa música!

Que música tem ouvido por casa, recentemente?

Tenho andado a ouvir os estudos para piano de Ligeti e, acredite se quiser, os Doobie Brothers com Michael McDonald.

Que projectos tem em mãos para os próximos tempos?

Estou a planear um álbum em trio e outro a solo – vamos ver. Na primavera do ano que vem vou andar em tour pela Europa, com o John num quarteto com Drew Gress e Joey Baron. E nós também queremos gravar este grupo.


Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
20/09/2011