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Cangarra
Uma questão de sintonia


Indiferentes a contextos históricos e ao passado, os Cangarra, dupla formada por Ricardo Martins e Cláudio Fernandes, estão apostados em fazer futuro pelas próprias mãos. Nasceram por uma questão de afinidade e é por isso mesmo que continuam juntos. Celebram a liberdade - e outras coisas que não lhes vêm à cabeça – e quem os viu ao vivo sabe que a comemoração é farta em descargas sónicas, riffs-TIR e paisagens hipnotizantes. Ouvir A, o mais recente soco no estômago com alto patrocínio da dupla, é o mesmo que desejar que o seu título signifique que os Cangarra vão percorrer o abecedário todo e chegar ao Z com a certeza do dever cumprido. Na semana em que actuam na Festa de rentrée do Bodyspace no Porto (com os SAUR, Lydia´s Sleep, Equations e Throes + The Shine), no próximo sábado, no Café au Lait, os Cangarra abrem o jogo numa entrevista que os mostra como vieram ao mundo: honestos e impiedosos. Decora a palavra Cangarra, Priberam: vais ouvir falar muito dela.
O que é que ficou da Música Periférica Portuguesa, daquele tempo maravilhoso que agora parece que foram dois ou três meses?

Ricardo Martins: Ficaram as pessoas, as vivência as amizades, bons discos... Acima de tudo criaram se raízes para se fazer muito do que se faz agora.

Cláudio Fernandes: E de repente, 2011. Obviamente, ficou a música, e todas as pessoas que conhecemos. Ficou também a experiência. E o nome, que adoro.

Acreditam que ficou pelo menos o espírito de arriscar um pouco mais, sobretudo com o nascimento de novos promotores? Hoje em dia há gente a fazer coisas em Leira, em Bragança, em Coimbra, um pouco por todo o lado…

CF: Eu fiquei com a impressão (posso estar errado) de que as coisas já aconteciam nesses mesmos sítios e outros mais, mas que antes não tinha tanta visibilidade. Mas sim, acredito plenamente que esse espírito tenha ficado. E ainda bem que assim aconteceu, porque veio abrir portas a muitos outros projectos.

RM: Deste dois exemplos onde sinto que se faz tudo com o mesmo amor e o mesmo empenho que se fazia na altura… Será que mudou assim tanto? Se calhar ficou praticamente tudo. Na altura deram-se passos importantes e não sinto que agora se esteja a andar para trás.

Acham que falhou alguma coisa na altura ou aconteceu tudo como tinha de acontecer e era o esperado?

CF: Não acho que nada tenha falhado; os tempos mudaram, e aquele mesmo sentimento de não existir um compromisso com nada levou a que as pessoas optassem por outros caminhos. Parafraseando Lavoisier, nada se ganhou, nada se perdeu; tudo se transformou. E o resultado dessa transformação é bastante positivo, a meu ver.

RM: Pensar no passado não é um erro, mas viver nele para mim é. Aconteceu tudo o que devia ter acontecido e a prova são as bandas boas que existem hoje. Acho que quase ninguém dos que andava envolvido a tocar, a organizar concertos ou a ir a concertos esperava alguma coisa em concreto e será essa talvez a explicação para que tenha ficado tão na memória.

Sentem-se de alguma forma filhos dessa realidade?

RM: Não. Sinto que fiz parte de uma algo que teve coisas fantásticas mas gosto de pensar que vai ser sempre melhor. Se não fosse assim isto era tudo uma grandessíssima seca! Ser filho é uma responsabilidade muito grande, já dou dores de cabeça suficientes a uma mãe.

CF: Diria mais "alunos". Alunos que se baldaram à semana de apresentação e que nunca tinham o horário escolar consigo.

Como é que os Cangarra nasceram? Havia afinidades musicais entre vocês?

CF: Curiosamente, lembro-me que houve Benfica - Porto nesse dia (a sério). Ao fim ao cabo, ambos tínhamos ideias semelhantes e uma vontade comum de fazer música livre, de deixar a coisa soar conforme nos vai na alma, e durante o tempo que nos for possível. Sem apontar grandes metas. Fazer música pelo simples prazer de o fazer.

RM: Somos amigos há muitos anos, tivemos bandas no passado... Acho que era inevitável tocar mos juntos outra vez. Organizei um concerto em que fiquei fascinadíssimo com a forma como ele estava a tocar e começou se a falar logo nesse dia que era bom fazermos uma banda juntos.

O que é que os Cangarra celebram?

RM: Cangarra para mim celebra a liberdade de não ter de celebrar nada.

CF: Paz e alegria, sei lá. Aquilo que quiserem celebrar.

O que é que cada um de vocês mais aprecia no outro em termos musicais, em termos criativos?

RM: [risos]. Apetece me falar do Benfica para explicar isto... Comunicamos muito bem, e é sempre um desafio. O Cláudio é dos guitarristas com mais personalidade com que já toquei. Criativamente identifico-me muito com o que faz, seja em termos de música ou visualmente/artisticamente e isso torna tudo mais simples e prazeroso.

CF: O Ricardo é um grande benfiquista, e isso foi importante para que a coisa avançasse. Temos uma visão táctica semelhante: futebol de ataque, agressivo, a explorar as alas. Na música acontece o mesmo. Basta ouvir (e ver) tudo aquilo que faz. Entra com tudo, dá tudo no momento. Estamos em sintonia.

Acabaram de lançar um disco. O que é que nos podem contar acerca deste lançamento? Batalharam muito ao vivo para chegar àquele resultado?

CF: Na verdade tocámos apenas três vezes ao vivo antes de o gravar. Foi relativamente simples, já fazíamos coisas semelhantes nos ensaios, limitámo-nos a fazê-lo outra vez. Ter o Carlos a gravar ajudou, se calhar teríamos ficado encalhados noutro espaço, com outras pessoas. Acabou por sair até um pouco diferente do que tinha vindo a ser ao vivo, talvez menos duro, mais lírico e descontraído.

RM: Acho que a beleza toda do disco foi ter sido feito com muita naturalidade, sem pressões. O Carlos pôs a gravar e nós deixámo-nos ir. Ao vivo fomos fazendo o mesmo. A fórmula é a melhor que podia existir: não há absolutamente formula nenhuma. Acho que as batalhas (as boas batalhas) começam agora, com a vontade de gravar sempre com uma regularidade muito grande e tocar/fazer tours.

Sobra tempo aos Cangarra para tocar com todos os vossos projectos ou a magia do duo está no facto de terem pouco tempo para ensaiar?

CF: A magia está no dentro de nós (por mais foleiro que isto soe). Quando tocas com o coração, os ensaios passam a ser um pequeno pormenor (a menos que estejas a tocar mesmo mal, claro).

RM: Pensamos sem dúvida muito na banda e isso é importante. Vivemos em países diferentes mas vamos tocando quando queremos. Há tempo para tocar, felizmente tem havido tempo para tocar sempre que se quer.

O Priberam não devolve resultados para “cangarra”. De onde vem isso?

RM: Da cabeça do Cláudio, que inventou uma palavra (que afinal já existia).

CF: Eich, "inventei" o nome há uns anos. Quero dizer, pensei que tinha inventado, porque depois o Google informou-me que é um termo moçambicano para uma espécie de cesta utilizada para transportar caranguejos. O largo léxico dos PALOP fascina-me (a sério).

E ideias para Portugal, têm?

RM: Tocar, tocar, tocar, tocar, tocar, tocar, tocar, tocar, tocar, tocar, tocar, tocar, tocar e gravar muito também.

CF: Tenho muitas ideias, mas infelizmente segui a carreira errada. Continuar a fazer o que fazemos, mas tocar mais ao vivo.

Ricardo, só a talhe de foice, voltaste a tocar enquanto Lobster. Como é que foi isso?

RM: Foi mesmo muito bom. Os amigos todos lá e um prazer imenso de fazer aquilo outra vez, parecia que tínhamos parado há dois meses… Foi uma óptima sensação. O Milhões foi uma estranha espécie de portal para se revisitar lugares que me dizem muito.

CF: Fiquei com alto melão por não ter visto esse concerto, pá.

O que é que esperam da festa de rentrée Bodyspace no próximo sábado?

RM: Uma descarga sonora muito grande. Fazer-nos tremer por dentro e se vocês também sentirem isso será perfeito.

CF: Espero que estejamos todos em sintonia.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
13/09/2011