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Norberto Lobo
Guitarra Sem Fronteiras


Ao percorrermos o dedilhado de Norberto Lobo encontramos uma das vozes mais originais da música portuguesa da actualidade, invulgar alquimia onde cabem viagens por paisagens íntimas que julgávamos desconhecer e melodias que se soltam como poemas a partir das cordas da sua guitarra. O terceiro tomo da sua discografia a solo (Fala Mansa, editado no primeiro semestre deste ano) está aí para o comprovar, como se necessário fosse. E surgem cada vez mais comparações – rejeitadas pelo músico lisboeta – com o Mestre Carlos Paredes, a quem dedicou o seu primeiro álbum, Mudar de Bina. No breve diálogo que se segue o ponto de partida teria de ser sempre o seu último registo áudio – que contém algumas inovações e um par de sentidas homenagens. Mas há, também, espaço para remexer na sua arca de referências: músicos de eleição, sejam ou não guitarristas, compositores e bandas-sonoras marcantes. Por vezes com uma saudável pontinha de ironia.
Neste disco cantas um pouco, e até introduziste umas pitadas de electrónica, como no tema título “Fala Mansa”, que surge acompanhado por piano. Houve algum caminho que conduzisse a estas inovações?

Nada de muito concreto, talvez a vontade de ouvir e fazer outros sons.

Fala Mansa lança-nos para fora de Portugal em determinadas faixas. A tua música é mais portuguesa, apátrida ou cidadã do Mundo?

A Música, como os jogos, é sem fronteiras. Ou pelo menos dilui-as.

Em Fala Mansa temos “Charleston Para Jack” e “Balada Para Lhasa; em Pata Lenta havia “Ayrton Senna”. O que te leva a homenagear estas pessoas desaparecidas fisicamente?

No primeiro caso, uma memória antiga associada à fatídica última corrida. Nos outros dois, afecto.

Como foi gravar em Mértola? O Alentejo deixou alguns carimbos durante esse percurso, nem que fosse durante as pausas para uma bucha ou os passeios para desentorpecer as pernas, ou o processo é tão absorvente que o local da gravação acaba por ser indiferente?

Foi como beber minis a ver reposições do Agora Escolha no tempo do Bocas. A sério. O Eduardo Vinhas e o Maga-San são that good.

Portugal é um bom tubo de ensaio para renovar a tradição musical? E Lisboa continua a ser um porto de partida privilegiado?

Penso que há excelentes músicos em Portugal, e que estamos a viver um momento sem precedentes, quer pela profusão, quer pela qualidade de novos projectos musicais.

Sentes o apelo de fazer mais música para filmes? Tens alguns compositores de cinema preferidos ou bandas-sonoras que te tenham marcado especialmente?

Não sinto neste momento grande apelo em fazer bandas-sonoras, no sentido clássico. Gostava de trabalhar em projectos onde os elementos não se sobreponham, onde a música não cumpra uma função meramente "decorativa". Nesse sentido, atrai-me mais a ideia de compor para um musical e/ou para dança. Gosto do documentário, adoro animação. Em relação a compositores e bandas sonoras predilectos, Michel Legrand a encabeçar a lista. Os Guarda-Chuvas de Cherburgo, amen. Outros, assim de repente: Morricone, Krzysztof Komeda, Eric Idle, Mort Garson, Bernard Herrmann, Popol Vuh (Aguirre), Vangelis (Blade Runner), Wendy Carlos, Danny Elfman (Nightmare Before Christmas), Eduard Artemyev. O “Lux Aeterna” do Ligeti no 2001 e o “Single Ladies (Put a Ring On It)”, da Beyoncé.

Quais são as tuas principais referências em termos de guitarristas e outros músicos, cá em Portugal e a nível internacional?

Cá: Rec Brutus, Sunflare, Tokingcratch, Tristes Trópicos, REG, HMB, Ferrandini, Burago, Buraka, Mariana Ricardo, Ricardo Rocha, Sei Miguel, Joana Sá, Pega-Monstro, Fausto, Felizardo e muitos outros. Lá: João Lobo, D´gary, Arve Henriksen, Las Grecas, Going, Tatsuhisa Yamamoto, Mori-Shige e muitos outros.

Não tive oportunidade de assistir aos concertos de lançamento de Fala Mansa no Teatro da Trindade e no Passos Manuel. Li que raramente falas sobre os concertos a solo. Podes partilhar como correram, na tua perspectiva, essas duas apresentações?

É raro achar que um concerto correu muito bem. Na maioria dos casos, se não houver incidentes, já não é mau. Concertos em que se está na "zona", menos. Não sei bem. Nesses dois que mencionas, penso que o primeiro não teve incidentes, e o segundo foi mais na zona.


Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net
04/09/2011