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Za!
Sente o puro flow


ZA! A África tribal ruge através das guitarras, das electrónicas, das danças festivas com que invadem cada palco que pisam. ZA! Da Catalunha para o mundo, dois homens, sete instrumentos (e podiam ser mais), infinita loucura tanto nas actuações ao vivo como em Macumba O Muerte, o disco que os colocou nas bocas dos aventureiros musicais por esse mundo fora. ZA! A língua bate com força nos dentes, o nome surge feito grito de guerra, e os instrumentos chocam uns contra outros numa amálgama sonora onde o rock, o noise, o free jazz, o psicadelismo e a electrónica mais dançável encontram cada qual o seu espaço e criam um objecto único, um corpo estranho que nos agarra e nos obriga a entranharmo-nos mesmo estranhando. Eduard Pou, que é como quem diz Spazzfrica Ehd, falou ao Bodyspace do que tem feito o duo nestes últimos meses que se seguiram à sua aparição no Milhões de Festa - que é inclusive homenageado em Megaflow, o mais recente trabalho. Que se ergam então os braços em aclamação e se afinem as gargantas: MEGAFLOW! MEGAFLOW! MEGAFLOW!
Os ZA! mostram um grande apego pelo sobrenatural. Encaram a vossa música como feitiçaria?

Nós gostamos de rituais, desde o canto dos macacos do Sudeste Asiático até àquela cena no "Indiana Jones e o Templo Perdido", Odaram Sudaram! Gostamos de pensar nos concertos enquanto rituais, mas sem qualquer significado ou objectivo satânico - só pela diversão, pelo ritmo e pelo absurdo de tudo isso.

Duas pessoas para sete instrumentos é algo difícil de conciliar? Como se preparam para isto quando tocam ao vivo?

Se tivéssemos mais dinheiro e mais espaço na sala de ensaios, teríamos mais instrumentos! Nos concertos, ultimamente, temos tocado cinco (bateria, sampler/looper, teclados, guitarra e trompete, sem contar com as vozes), mais porque são os que cabem no avião, com as restrições...

De onde surgiu o título deste novo disco (Megaflow)?

Este ano que passou foi, para nós, o anti-Lei de Murphy; sempre que estávamos em tour, e algo de mau se passava, acontecia de repente outra coisa qualquer que o tornava bom a dobrar. Quando isso acontece, só se pode olhar para cima, erguer os braços em direcção ao espaço infinito e gritar: MEGAFLOW!

Na capa e numa das faixas há uma referência ao Milhões de Festa, onde actuaram no ano passado. Que recordações guardam do festival?

Festa, pessoas com megaflow, improvisações nocturnas com coisas e garrafas de plástico, partidas de futebol às seis da manhã, o El Guincho a partir três costelas enquanto se dirigia para a bola sem reparar no candeeiro enorme que tinha à frente, o fabuloso polvo no forno, o Fua e amigos... que noite, a de Barcelos!

Há algum significado escondido nas imagens que acompanham o booklet?

Sim! É suposto serem a estrutura das canções. Se as ouvires e olhares para as imagens, consegues perceber que aquelas coisas a rosa são a voz do Papa DuPau, a plasticina vermelha é a guitarra, aquilo são loops, aquilo são overdubs. É uma mistura entre um ecrã do ProTools e uma aula de trabalhos manuais de um miúdo de três anos.

Li que começaram a gravá-lo em Fevereiro do ano passado. Foi um trabalho difícil depois do Macumba O Muerte (que há quem considere um dos melhores discos da década passada)?

Começámos a gravá-lo numa terça-feira em Outubro e acabámos no sábado a seguir, o dia em que o Santi Garcia (o MAIOR) nos expulsou do estúdio porque a mulher estava à espera dele em casa com mais dois amigos e uma paella enorme a arrefecer... por isso foi rápido.

Ao ouvi-lo constato que não há grande mudança no vosso som; influências de África, noise, rock, electrónica... Sendo vocês um grupo que procura misturar todos estes géneros e ainda manter um certo grau de improvisação, os temas saem-vos naturalmente ou tendem a trabalhar bastante numa canção?

Há algumas ideias, riffs, melodias que ficam a flutuar na sala de ensaios e nas nossas cabeças quando vamos para o trabalho, durante anos... e depois há um dia em que as tocamos e a canção surge em dois dias. O problema é que depois tocamos essa canção num concerto, o Pau faz uma coisa engraçada ao tocá-la, nós repetimo-la no concerto a seguir, aí um tipo qualquer grita algo com piada, nós adicionamo-la à canção, e por aí fora... por isso há canções que nunca estão acabadas, limitam-se a correr como o Yang-Tsé (antes de ficar infestado com poluição industrial).

Esse disco foi masterizado pelo Bob Weston dos Shellac. Já o Megaflow passou pelas mãos do Jeff Lipton, que tem no currículo bandas como os Lightning Bolt ou o novo álbum de Destroyer. Satisfaz-vos o produto final? Que melhorias viram nos vossos discos com o trabalho de engenheiros de som com a experiência destes dois?

Têm estilos diferentes. Diria que o Lipton é o Bruce Lee e o Weston o Mr. Miyagi. Ambos são pessoas maravilhosas e envolveram-se bastante nos dois álbuns. Escolhemos o Jeff Lipton para este disco porque ele foi o primeiro a dizer-nos o quanto ele gostava da música antes de falar de dinheiro.

Vocês estiveram recentemente pelos EUA a apresentar o novo disco, certo? Tocaram inclusive no SXSW, mas pelo que estive a ler no vosso Facebook não correu lá muito bem...

Passámos um tempo megabom nos EUA, conhecemos pessoas e músicos fantásticos, aprendemos bastante, e divertimo-nos bastante no SXSW. Demos dois concertos, e houve que um começou muito tarde e acabou demasiado cedo, quando um tipo gordo subiu ao palco e desligou tudo. Mas foi divertido à mesma, ao menos esse gajo fez exercício nesse dia.

Disseram recentemente em entrevista que a vossa música é como um carro modificado... não têm medo de vir a ter algum acidente?

As nossas canções são como carros modificados, tal como te disse gostamos de adicionar ou alterar coisas sempre que as tocamos. Às vezes batemos com o carro, mas depois do acidente fica com um novo aspecto, talvez até melhor.

Para além dos ZA! têm outro projecto de música improvisada (La Orquesta del Caballo Ganador). Como tem estado esse projecto? Sei que fizeram umas quantas apresentações ao vivo há semanas.

A Orquesta del Caballo Ganador é uma orquestra que faz improvisações por regência. Isto quer dizer que existe um maestro (que pode ser qualquer um de nós) que faz alguns sinais ou símbolos e o instrumentista (e também a audiência!) toca seguindo essas indicações. É muito divertido, é como o Party&Co mas para músicos.

Já partilharam o palco com o Damo Suzuki e o Angel Deradoorian. Há mais alguém com quem gostassem de dar um concerto em modo jam?

Adorávamos tocar com os California Raisins, que eram quatro ou cinco passas que tocavam surf e rock n´ roll num desenho animado. Tiveram-no em Portugal?

Não me recordo de tal coisa, honestamente. Para finalizar: se eu quiser ser rico e conhecer muitas miúdas, que espécie de macumba tenho de fazer?

Pergunta a um corrector ou a um mágico, nós somos casados e pobres!


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
06/06/2011