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Kubik
Estilhaços de uma metamorfose


Kubik é Victor Afonso, o músico da Guarda que em 2001 marcou a sua estreia oficial com Oblique Musique, um disco editado pela Zounds. Oblique Music fundia vários universos que passavam pela música electrónica, pela colagem e pelo experimentalismo, e acabou por receber vários prémios e críticas entusiasmantes. A sua carreira musical prosseguiu, quer no que diz respeito ao trabalho desenvolvido através de alter-egos, quer nas constantes colaborações com o cinema (uma área onde se sente em casa), e a lista de projectos onde participou nunca mais tem fim. Um desses projectos consistiu na criação de uma espécie de banda sonora para a história da Guarda: Guarda: A memória das coisas surgiu num CD integrado na revista "Praça Velha". Mas agora Kubik está de volta com Metamorphosia, um disco que conta com as participações de Adolfo Luxúria Canibal (voz), Old Jerusalem (voz), Américo Rodrigues (voz), César Prata (gaita de foles, electrónica e voz), Luís Andrade (guitarra, baixo, programações) e Alberto Rodrigues (saxofone alto). Victor Afonso, com uma disponibilidade impressionante, fala-nos do passado e traz-nos de volta ao seu presente e obviamente, a este novo Metamorphosia.
Como é que foi olhar para o final de 2001 e para Oblique Musique e partir para um novo disco? O que é que mudou do primeiro para este segundo disco?

Depois das óptimas críticas que o Oblique Musique recebeu aquando da sua edição, tornou-se, efectivamente, mais complicado “pensar” num novo trabalho. Há sempre aquele estigma de se saber se o álbum sucessor de um disco de estreia consegue igualar ou até superar o predecessor. Mas é óbvio que se trata de um estigma estimulante e motivador. Por isso demorei quatro anos a arquitectar o sucessor de Oblique Musique, porque tomei o meu tempo a considerar em que direcção haveria de fazer este disco. Não acredito que tenha havido assim tantas mudanças entre um disco e o outro, antes assumo que houve uma evolução significativa na minha forma de criação musical: desenvolvi ideias que no primeiro eram meramente esboços, melhorei a produção e aprofundei a minúcia de cada som, de cada montagem e manipulação sonoras, abri portas a novas colaborações, redobrei o carácter surreal e aparentemente caótico da minha sonoridade, não deixando quaisquer coordenadas de orientação ao ouvinte (e por isso tentando surpreendê-lo a cada momento, ainda que não de forma gratuita). Metamorphosia acaba por ser um disco bem mais elaborado e, quiçá, mais arriscado. É um trabalho de um alquimista dos sons, que os trabalha como se tratassem de peças de puzzle ou de lego com vista à construção de algo original e intrépido.

Quanto tempo demorou a concepção deste novo Metamorphosia?

A partir do primeiro momento em que decidi avançar para este novo álbum decorreram dois anos. Foi um processo algo longo e demorado, sobretudo para uma pessoa pouco paciente como eu. A demora deveu-se também ao facto de ter tido um maior número de colaborações (Adolfo Luxúria Canibal, Old Jerusalém, Luís Andrade…), o que acarreta sempre uma demora no processo de criação. Basta dizer que os temas em que participam alguns dos músicos convidados demoraram um ano a serem concluídos.

Como foi lidar com a habitual pressão e a problemática cada vez mais presente do segundo disco?

Pressão nunca senti muita. Aliás, nem concebo que um músico como eu, independente e alheio à lógica de mercado da indústria discográfica e da comunicação social, sinta alguma vez pressão exterior pela edição de um segundo trabalho. Se alguma pressão senti, entenda-se, foi de índole interior, no que ao processo criativo diz respeito. Com o primeiro álbum não tinha que provar nada, houve uma maior libertação e sentido de aventura no momento de editar o disco. Com este segundo disco, as coisas passaram-se de modo distinto. As comparações serão inevitáveis entre os dois álbuns e o sentido de responsabilização para mim é, quer queira quer não, de maior envergadura. Mas isso é algo perfeitamente normal e pacífico.

Metamorphosia surge dividido em dois espaços abstractos designados por A e B. Em que consiste propriamente a divisão do disco?

Numa perspectiva eminentemente saudosista, representa ao mesmo tempo um sereno sentido nostálgico pela divisão dos discos de vinil e de cassetes, e também por um assumido carácter conceptual que existe no Metamorphosia. Isto é, há claramente esse sentido abstracto de divisão de temas que representa, no fundo, uma estrutura própria do disco, numa divisão quase matemática ou geométrica: o lado A tem 7 temas, o lado B tem outros 7 temas. E há um princípio, meio e fim no disco com três falsos “intros”. Isto tudo fará mais sentido quando se ouvir o disco, dado que há uma lógica estrutural interna com base nesta divisão.

Além disso, optou por incluir vozes em todos os temas, assim como uma maior utilização de instrumentos reais. Porquê? Metamorphosia constitui uma aproximação ao formato canção?

Decididamente, o formato de canção não é algo que eu preze muito. Há, nos meus discos, músicas que obedecem a uma estrutura própria (nem que seja numa estrutura ilógica!), mas nunca se submetem àquele formato rígido de canção standard, com princípio, meio e fim e, - oh heresia! - com refrão. O tema mais próximo desse formato é a remistura que fiz para um tema dos Bypass, mas mesmo aí subverti, deliberadamente, o sentido dinâmico e estrutural desse mesmo formato. Interessa-me muito mais o processo criativo inerente à desestruturação, à fragmentação estética, ao estilhaçar de fronteiras, de limites estilísticos. E o facto de ter utilizado em Metamorphosia mais instrumentos ditos “reais” e mais vozes, não significa, tacitamente, que tenha recorrido ao formato de canção tradicional. Longe disso…


Este novo disco conta com as participações de Adolfo Luxúria Canibal (voz), Old Jerusalem (voz), Américo Rodrigues (voz), César Prata (gaita de foles, electrónica e voz), Luís Andrade (guitarra, baixo, programações) e Alberto Rodrigues (saxofone alto). Tendo em conta a diversidade dos músicos e das suas áreas de acção, pode-se dizer que Metamorphosia percorre vários caminhos dentro do mesmo percurso?

É uma boa definição. Na capa do disco vem impressa uma afirmação de um compositor italiano do início do século - Ferruccio Busonni - que resume na perfeição a ideia do projecto Kubik - “a música nasceu livre, e o seu destino é ganhar essa liberdade”. Ou seja, partilho muito dessa ideia de que a arte deve manifestar-se livremente, rompendo fronteiras, padrões estandardizados, numa via de busca incessante de novas formas de expressão. A história da arte prova que os movimentos artísticos - da música ao cinema ou à literatura - mais ricos e fracturantes foram aqueles que romperam esses padrões e revelaram inéditas formas de criação – surrealismo, dadaísmo, vanguarda soviética, free-jazz, electrónica experimental, Fluxus, etc. O meu trabalho musical é, por isso, fundamentalmente “livre”, espartilha-se numa espécie de bricolage electrónica multi-tentacular, não revelando quaisquer compromissos de ordem estética com este ou aquele estilo ou tendência. Por conseguinte, os músicos colaboradores, todos oriundos de universos bem distintos entre si, acabaram por me ajudar a trilhar essa pesquisa de novas formas de experimentação, que é o que mais me interessa.

Acaba por ser curiosa a participação de Francisco Silva (Old Jerusalem) em Metamorphosia, visto serem dois projectos aparentemente tão distintos…

No tal sentido de procura de novas formas de expressão libertária de que falei anteriormente, o convite ao Old Jerusalém veio permitir isso mesmo: o confronto de sensibilidades e universos sonoros aparentemente antagónicos ou inconciliáveis. O Francisco Silva gostou muito do meu primeiro disco, aconteceu conhecê-lo pessoalmente numa actuação de Old Jersualem na Guarda e aproveitei para convidá-lo a participar neste disco. Achou o desafio fantástico e aceitou de imediato. E deu um excelente contributo para o tema “I’m a Vampire, I’m Disgust”, uma música que irá surpreender muita gente, precisamente porque o trabalho vocal do Francisco afasta-se muito daquilo que conhecemos do projecto Old Jerusalem. Ou seja, o Francisco soube adaptar-se brilhantemente ao universo sonoro “kubikiano” (tal como os outros convidados, diga-se). Foi uma colaboração bastante frutífera para ambas as partes, uma colaboração entrosada como peças de um relógio suíço.

Ao longo da sua carreira, nota-se a predilecção pela composição de bandas sonoras. É um mundo que o encanta particularmente?

A música e o cinema (e também o teatro) são as duas áreas artísticas que me fascinam desde miúdo. De resto, antes de ter enveredado por um curso superior de música ponderei entrar para o curso de cinema… Sou um cinéfilo inveterado, tenho muitos mais livros sobre cinema do que sobre música e sempre tive a paixão pela descoberta e experimentação da relação entre o som e a imagem, desde os primórdios do cinema. Quanto ao teatro, já tive cinco experiências de composição de bandas sonoras originais, assim como música para performance, vídeo e cinema. O trabalho de construção de bandas sonoras para estas áreas é bastante peculiar e motivante. Sou grande admirador do expressionismo alemão e da vanguarda soviética e o afã de experimentar este campo de relação som-imagem levou-me a arriscar criar uma banda sonora original para o filme mudo surrealista “Un Chien Andalou” (1928) da dupla Luís Buñuel e Salvador Dali.

Em 2004 foi convidado pessoalmente por Mike Patton para actuar na primeira parte do concerto dos Fantômas na Aula Magna, em Lisboa. Como é que foi a experiência?

Detestável!... Não, foi óptima. Na verdade, já tinha sido excelente o facto de o Mike Patton ter manifestado gostar imenso do Oblique Musique, depois, mais extraordinário ainda, o facto de me ter convidado pessoalmente para abrir o concerto dos Fantômas na Aula Magna, foi algo completamente fabuloso. Esta consideração crítica favorável do Mike pelo meu trabalho é algo que contribuiu, em larga escala, para um maior reconhecimento do projecto Kubik. É claro que havia muita gente na Aula Magna que não fazia ideia quem eu era, uma espécie de extraterrestre solitário a fazer música bizarra antes dos Fantômas (alguns pensaram mesmo que eu era uma “banda” estrangeira de suporte da digressão da banda do Mike!), mas acabou por ser uma experiência única, valha a verdade.

Como vê actualmente a cidade da Guarda, tendo em conta que contribui largamente para a sua dinamização cultural?

A cidade da Guarda sempre foi conhecida, nos últimos anos, como uma cidade muito dinâmica culturalmente e que tem, proporcionalmente, mais dinamização cultural do que certas cidades do litoral do país. Basta dizer que é pioneira nalgumas iniciativas, como o festival de Novas Músicas “Ó da Guarda” dedicado às músicas ditas experimentais, electroacústicas e de improvisação, o ciclo de conferências sobre Cibercultura, festival “Correntes de Ar“ (sobre poesia sonora, spoken word e experimental), etc. A Câmara detém três equipamentos culturais que têm dinamizado o panorama cultural da cidade e da região. Músicos como Elliott Sharp, Meira Asher, Chris Cutler, Xiu Xiu têm passado pela Guarda. E agora a cidade mais alta tem um novo Teatro Municipal com capacidade para a realização de maiores eventos (em dimensão e em qualidade), como é o festival de Jazz, que traz à Guarda músicos da craveira de Nils Petter Molvaer ou Anthony Braxton Trio. Curiosamente, um dos grandes promotores culturais da cidade é o músico, actor e poeta sonoro Américo Rodrigues, que já participara no meu primeiro trabalho e que volta a participar em “Metamorphosia”. A Guarda é, por isso, uma cidade que apesar de ser do chamado Interior do país (sem sentidos pejorativos) tem sabido apresentar uma programação cultural diversificada e de grande valor artístico. A área da programação cultural e educativa é, actualmente, a minha área profissional propriamente dita.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
22/05/2005