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Rui Lima & Sérgio Martins
Contra os ouvidos moucos


Rui Lima e Sérgio Martins fazem música há uma porrada de anos; contra ouvidos moucos, sabemos agora. Fazem música porque são amigos, porque gostam de a ver fundida com o teatro, o vídeo, a animação, as artes performativas e tudo o que mais lhes permitir um cruzamento de linguagens; que lhes permita ir mais longe. Não lhe chamam cruzamento, chama-lhe unidade, mas a verdade é que o trabalho de ambos, fora ou dentro de Equipa B, Mimical kix, Bambi Neto e Comercial Bastardo, Senhor Doutor, MEM ou Morteshopping, é muitas vezes aberto ao ponto de se deixar tocar por outros mundos. Em duo, e em nome próprio, Rui Lima e Sérgio Martins querem tocar mais ao vivo e, quem sabe, gravar um disco, registar todos estes anos num documento pessoal e transmissível. Até que isso aconteça, será possível descobrir que sons cozinham juntos na 4ª edição do BODYSPACE AU LAIT, no próximo dia 24 de Abril, domingo, e com entrada livre.
Que clique se deu 1997 na Soares dos Reis para que começassem a trabalhar juntos e ainda não tenham parado até agora?

Sérgio Martins: Conhecemo-nos por sermos da mesma turma, começámos a trabalhar juntos no contexto dos projectos académicos em diversas áreas do nosso curso e ainda nessa altura partilhávamos muita música que estávamos a ouvir e a descobrir. Acabámos naturalmente por criar os nossos primeiros projectos musicais, que nunca mais terminaram, foi obra do acaso...estávamos em sintonia.

Rui Lima: O Sérgio era um tipo muito calado, sempre sentado num dos bancos do recreio a ouvir um tal de Tricky e Tool... Se bem me lembro. Passámos muitas tardes a ouvir discos e a gravar k7s, muito bom... Na verdade nunca o Sérgio recusou uma proposta minha, esteve sempre presente... Acho que de certa maneira me apaixonei pela sua serenidade... E claro pela sua curiosidade. Devemos também esta parceria às pessoas que de alguma forma nos incentivaram, que nos desafiaram para tantos projectos, que acharam nos dois uma razão óbvia de ser... Foi de facto a nossa melhor ideia.

Podem fazer-nos um resumo curto do vosso currículo, do que fizeram até aos dias de hoje na área da música?

Sérgio Martins: Tudo começou com O Projecto é grave!, um projecto que se manteve durante alguns anos e com o qual editámos um álbum Benjamim. Fizemos depois diversos projectos de carácter mais espontâneo e muitas vezes dedicados a certos propósitos, como Equipa B, Mimical kix, Bambi Neto e Comercial Bastardo, Senhor Doutor, MEM, Morteshopping. Tudo o resto foram bandas sonoras e performances no contexto das artes performativas.

Rui Lima: Criadores como João Garcia Miguel, Jorge Andrade, Victor Hugo Pontes, Ana Luena e o Teatro Bruto entre outros.... Still Frank... Actualmente O Outro uma peça criada a partir de Dr Jekill and Mr Hyde...

Este vosso trabalho em nome próprio e em duo, onde está e para onde quer ir? Álbum em vista, mais concertos? O que se segue?

Sérgio Martins: Este projecto volta a ser agora a nossa própria banda sonora, desta vez sem a presença de um espectáculo de teatro, vem da vontade de nos ouvirmos novamente depois de uma maturidade adquirida a trabalhar para outros e a corresponder às suas necessidades. Sentimos que era o momento para o fazer. Estamos ainda no início mas queremos efectivar este trabalho, naturalmente num álbum e com a possibilidade de fazer diversos concertos e assim crescer com ele...

Rui Lima: Não temos linha definida, pretendemos que seja uma produção independente sem linhas mestras de construção. Para nós, este espaço, destina-se à nossa libertação. Gostava muito que este trabalho progredisse para algo mais seguro de si, para já estamos ainda a construir algo que ainda não consigo descrever, sei que o teatro e a música são parte...mas de facto o que é? Talvez seja só uma banda sonora á espera de um texto, de uma encenação...

Vou citar o vosso press release na parte em que diz que “este projecto tem na sua génese a intenção da re-interpretação do movimento "tape music", universo do mundo concreto, da utilização do som como uma plasticidade”. Falem-nos um pouco mais sobre isto.

Sérgio Martins: Inevitavelmente foi a “tape music”, música electrónica e concreta que deram origem à actual musica feita hoje nos nossos computadores. Foram estes os nossos grandes recursos e inspiração quando trabalhámos com as artes cénicas e é sobre elas que nos apoiamos no nosso dia-a-dia. Hoje não faz muito sentido falar nesses géneros como o nosso recurso musical mas são as bases nas quais nos reinventamos constantemente e que servem como ponto de partida para algo mais nosso.

Rui Lima: A nossa obsessão pela plasticidade do som e sua dramaturgia, a percepção da matéria sonora como um espaço do sub-consciente, o ciclo que desenha uma linha de pensamento e a eterna repetição do som. O trabalho em teatro obrigou-nos a acelerar este processo de percepção musical, chegando ao cume da não musicalidade...

Teatro para os ouvidos moucos de quem? Acham que as pessoas no geral precisam de abrir um pouco mais os ouvidos?

Sérgio Martins - No geral sim, a falta de curiosidade é surdez e cegueira...

Rui Lima: Precisamos de ser continuamente espicaçados para continuarmos vivos, a norma é irmos ouvindo menos, a nossa música está cheio de alertas e nós compreendemos bem esse estado de coma... Eu não quero ficar surdo.....

Sei que fazem questão de fundir a música com artes performativas, teatro, dança, poesia, cinema, artes visuais, documentários e animação. O que é que exactamente vos dá prazer nestes cruzamentos?

Sérgio Martins - A oportunidade que nos surgiu de colaborarmos com estas áreas foi algo que alterou muito o nosso rumo no crescimento musical, foi um exercício monstruoso de criação e de pensamento. Posso dizer com toda a certeza que nunca faríamos determinadas músicas ou utilizaríamos certos recursos se não estivéssemos nessas condições, nos diversos processos de trabalho que se alteram constantemente e por isso é sempre um desafio muito imprevisível e um risco constante que nos agrada.

Rui Lima: O cruzamento é inexistente na verdade... É uma unidade... As traduções das matérias são os veículos, e estes sim, dissidem. O prazer de operar dramaturgicamente, criando universos, cores, ritmos e texturas, por vezes paredes, espaços abertos, corredores, passagens, manifestando-se sobre a forma de pensamento, ou em plena acção.

Acham que a arte e a cultura podem e devem ter um papel fundamental nestes tempos de indecisão e depressão e contribuir até para que possamos encontrar uma nova forma de viver?

Rui Lima: As pessoas são a matéria-prima, essas sim têm um papel fundamental em todas essas incertezas... Sempre assim foi... Espero re-inventar-me, re-inventando o meu mundo.

Sérgio Martins: A arte e a cultura tem na história um papel muito activo no que diz respeito às questões sociais em que habitam, é inevitavelmente um manifesto e uma forma de esperança.

A cidade do Porto inspira-vos? Como acompanham estas novas mudanças na cidade, a nível artístico, politico, a movida e outras coisas igualmente importantes?

Sérgio Martins: O Porto inspira-nos muito pela sua tradição cultural que sempre teve. É reconhecido em Portugal por ter “fabricado” pessoas notáveis nas artes e como tal não deixa de ser deprimente ver como foi, por motivos políticos muito abaixo nos últimos anos. Obriga-nos a reinventar recursos e formas de sobreviver...

Rui Lima: A inspiração vem muitas vezes mais do que não existe nesta cidade do que propriamente daquilo que retiro dela, de qualquer forma, também ela me deu muita inspiração, a cidade e as pessoas que a habitam, sinto-me uma pessoa de sorte... No meio de todo este azar...

O que é que pode esperar quem vai no próximo domingo ao BODYSPACE AU LAIT? Como é que descreveriam o espectáculo que vão apresentar?

Sérgio Martins: Será uma síntese da nossa espontaneidade musical, uma banda sonora para uma peça que não existe.

Rui Lima: Uma super-nova... E tudo aquilo que nos faltou dizer nesta entrevista.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
19/04/2011