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Eric Carbonara
Homem-guitarra


Eric Carbonara √© ainda um guitarrista √† procura de si mesmo. E isso torna-se muito evidente quando se entra em contacto com a sua obra. Nascido em terras norte-americanas, voltou-se para outras paragens com o intuito de colher inspira√ß√£o profunda: virou-se para Espanha e para a guitarra flamenca, p√īs olhos na √Āfrica e nos seus in√ļmeros estilos e continua com o radar ligado e √†s procura de influ√™ncias v√°rias em v√°rias parte do mundo. O seu trabalho, percebemos nesta entrevista, est√° intimamente ligado com a sua vida, com as suas rela√ß√Ķes, com as mudan√ßas que o tempo e as circunst√Ęncias lhe impuseram. Em Barcelona, Eric Carbonara falou-nos do seu amor pela Europa, da sua rela√ß√£o com a guitarra, de Jack Rose (com quem trabalhou na p√©rola Raag Manifestos), da sua colabora√ß√£o com o multi-instrumentista Jesse Sparhawk, com quem actua no pr√≥ximo dia 27 de Mar√ßo, no Caf√© au Lait (Porto), na terceira edi√ß√£o do BODYSPACE AU LAIT (a entrada √© livre, j√° agora). E muito mais, a descobrir numa entrevista verdadeiramente suculenta.
O que é que te lembras dos dias em que tocavas com bandas como os Jason Likes Science, The Cameras e The Molecules? Como é que elas soavam?

Tinha quinze anos quando comecei a tocar em bandas como os Jason Likes Science, Cameras, e The Molecules. Foram tempos incr√≠veis de evolu√ß√£o e explora√ß√£o, n√£o apenas em termos sonoros, mas tamb√©m enquanto pessoa. N√£o havia o m√≠nimo de pretens√£o ou cuidado acerca do estilo, talento ou habilidade musical nessas bandas, havia apenas a express√£o crua da energia e a vontade de passar um bom bocado. Experimentar drogas tinha tamb√©m muito a ver com isso naturalmente, mas eventualmente cresci para al√©m disso e tornei-me mais focado em expressar sentimentos mais profundos e complexos atrav√©s da m√ļsica instrumental. Essas bandas foram uma parte fant√°stica da minha juventude, estar exposto a bandas como os Spacemen 3, Can, Kraftwerk, e os Pink Floyd dos in√≠cios √© muito importante para um m√ļsico, mas para mim, s√≥ podes fazer um tanto com explos√Ķes s√≥nicas de guitarra com delay‚Ķ Quando cresci como pessoa, comecei a focar a minha aten√ß√£o mais directamente em como transmitir as subtilezas da vida, que √© onde me encontro neste momento com a minha forma de tocar guitarra.

Como é que nasceu a tua paixão pela guitarra? Foi amor à primeira vista?

Como muitos no meu pa√≠s e talvez em todo o mundo, tomei a guitarra como garantida durante uma grande parte da minha juventude. Tive a minha primeira guitarra quando tinha oito anos quando o meu vizinho decidiu d√°-la a algu√©m. No entanto, fiquei rapidamente desencorajado porque os meus dedos eram muito pequenos e eu tinha dificuldade em chegar √†s notas e a conseguir fazer os acordes. Sou o primeiro m√ļsico de uma grande fam√≠lia. Por isso nunca tive ningu√©m √† minha volta a encorajar-me para continuar. S√≥ peguei na guitarra outra vez quando tinha quinze anos. Comecei a tocar guitarra de novo aos quinze anos porque isso era o que todos os meus amigos estavam a fazer. Mesmo assim, n√£o tinha um professor na altura e os meus pais chegaram mesmo a sugerir que deixasse de tocar guitarra porque perdi interesse no desporto naquela altura. Eu venho de uma fam√≠lia da classe trabalhadora e ningu√©m na minha casa percebeu a import√Ęncia de eu ter m√ļsica na minha vida. Por isso ensinei-me a mim mesmo copiando amigos e fazendo exerc√≠cios simples como olhar para o c√©u e para as nuvens e tentar interpretar a forma como as nuvens soavam‚Ķ Quando as nuvens se moviam com o vento, eu mudava as notas do acorde. Na altura n√£o sabia o que estava a fazer mas quando olho para tr√°s percebo que estava basicamente a ensinar a mim mesmo invers√Ķes de acordes utilizando uma forma elementar de sinestesia. Ainda sou uma pessoa muito visual e muitas vezes penso na m√ļsica de uma forma visual primeiro e s√≥ depois a transformo em som.

S√≥ comecei a levar a guitarra a s√©rio a partir de 2002. Em 2001 estudei sitar no Ali Akbar College of Music na Calif√≥rnia. Os meus estudos l√° tiveram um impacto tremendo na minha percep√ß√£o da m√ļsica e naquilo que significa ser um m√ļsico. Quando regressei √† costa leste tornei-me muito mais devote da m√ļsica e da guitarra especificamente. Em 2004 comecei mesmo a dar concertos de guitarra solo. No entanto, foi s√≥ quando conheci o meu professor, Debashish Bhattacharya, em 2008 que declarei uma devo√ß√£o eterna √† guitarra. O Debashish mudou a minha percep√ß√£o acerca daquilo que uma guitarra e um guitarrista podem fazer. Agora, depois de quatro anos a estudar com ele, sinto que comecei um novo caminho que ser√° percorrido durante o resto da minha vida.

Tu geres um est√ļdio, o Nada Sound Studio. Como √© trabalhar todos os dias num est√ļdio. √Č uma experi√™ncia recompensadora?

Eu giro o Nada Sound Studio como um neg√≥cio freelance mas nunca o fiz diariamente. Eventualmente, tornou-se dif√≠cil viver √†s custas disso porque a tecnologia digital permitiu a qualquer m√ļsico gravar-se a si mesmo. A melhor parte de ser um engenheiro de grava√ß√£o √© que podes ajudar os teus amigos a ultrapassarem certos obst√°culos tecnol√≥gicos e fazer belas grava√ß√Ķes que merecem ser ouvidas.

O teu trabalho enquanto produtor levou-te a trabalhar por exemplo com o Jack Rose. Como √© que foi abrir as cortinas e come√ßar a fazer a tua pr√≥pria m√ļsica? E, mais importante, mostr√°-la?

N√£o me vejo a mim mesmo como um produtor. Sempre pensei em mim como um ‚Äúexpeditor‚ÄĚ - algu√©m que ajuda uma pessoa a chegar do ponto A ao ponto B. Eu gravei o Jack Rose mas n√£o produzi certamente nada para ele. Limitei-me a carregar no bot√£o ‚Äúgravar‚ÄĚ e misturar o disco dele, Raag Manifestos. Foi um trabalho muito simples porque tudo o que tive de fazer na verdade foi colocar um microfone com √≥ptimo som e deix√°-lo fazer a cena dele. Acho que a sess√£o durou umas duas horas e depois fomos para um bar beber umas cervejas e falar sobre m√ļsica country. Sempre me considerei um m√ļsico primeiro e um engenheiro de som depois. Por isso a minha devo√ß√£o √© sempre conseguir o melhor tom de guitarra para gravar‚Ķ E no que a este capitulo diz respeito, acho que ainda tenho muito para fazer.

Como √© que o flamenco e os estilos africanos influenciaram o teu trabalho de guitarra? Foi algo org√Ęnico ou foi algo que estudaste e investigaste?

Ainda n√£o estudei m√ļsica flamenca ou estilos africanos de uma maneira formal. Eu apenas mimetizo e abastardo o que ou√ßo nos discos. Gostava de encontrar um professor de guitarra flamenca mas n√£o tenho pressa de o fazer. Tem de ser uma coisa natural porque eu estou mais interessado em desenvolver uma rela√ß√£o com um mestre que possa ter durante toda a minha vida‚Ķ E isso exige tempo. O meu √ļnico professor formal √© o Debashish Bhattacharya, mas estou neste momento em Espanha e estou a praticar o meu espanhol e a falar com as pessoas acerca da log√≠stica necess√°ria para me mudar para c√° temporariamente para estudar.

Alguma vez sentiste a vontade de te aproximar do estilo de guitarristas como o John Fahey, e toda a tradição da Takoma?

Para falar a verdade, eu nunca ouvi muito o Fahey ou as coisas da Takoma. N√£o √© que n√£o goste, quando eu ou√ßo penso ‚Äúoh, isto soa fant√°stico‚ÄĚ, mas nunca fui totalmente agarrado emocionalmente por isso at√© √†quele ponto de me sentir completamente capturado. No entanto, h√° muita coisa que ainda n√£o ouvi. A primeira vez que ouvi o Glenn Jones fiquei de boca aberta. Por isso sei que h√° muitas coisas fant√°sticas por a√≠ nessa tradi√ß√£o, simplesmente n√£o √© para esse lado que o meu cora√ß√£o bate.

Estás neste momento em Espanha e sei que queres aprender um pouco mais sobre a guitarra espanhola. Como é que isso está a correr?

√Č engra√ßado, falo tanto sobre a minha devo√ß√£o pela guitarra mas √© apenas uma frac√ß√£o dos meus interesses na vida. Boa comida, boa m√ļsica, bom amor, √© tudo o que me interessa. Simplesmente quero uma vida cheia de coisas simples que tenham muita qualidade. √Č √≥bvio que podes ter isto nos Estados Unidos mas tens de procurar um pouco mais no que toca √† comida e √† m√ļsica. Sinto-me t√£o inspirado quando ando em digress√£o pela Europa pelo simples facto que as culturas aqui parecem valorizar as mesmas coisas que eu valorizo. Por isso sinto-me mais em casa aqui do que em Filad√©lfia. Tem sido dif√≠cil arranjar algumas coisas na minha vida pessoal de forma a que possa vir para c√° quando me apetecer‚Ķ Mas ir√° acontecer. N√£o estou ainda certo de qual o s√≠tio na Espanha onde irei viver mas sei que irei passar algum tempo na Andaluzia para estudar.

O que é que me podes contar acerca deste novo disco, The Paradise Abyss?

The Paradise Abyss √© o meu novo √°lbum. √Č feito de sete composi√ß√Ķes, todas elas narrativas instrumentais autobiogr√°ficas tocadas na guitarra flamenca a solo. Estou muito orgulhoso deste disco. Demorei dois anos a termin√°-lo porque as can√ß√Ķes n√£o podiam ser acabadas sem fechar alguns cap√≠tulos da minha vida. Em Outubro de 2009 fui atropelado por um condutor b√™bedo e parti v√°rios ossos. Felizmente, fiquei v√°rias semanas apenas sentado e a tocar guitarra. Ao mesmo tempo, estava a ganhar muita perspectiva acerca de muitas das rela√ß√Ķes na minha vida para al√©m da forma como me sentia comigo mesmo. Por isso em Dezembro de 2010 senti-me preparado para gravar um √°lbum. Por isso pedi a um engenheiro de som amigo meu que me gravasse e em menos de duas horas tinha acabado o The Paradise Abyss. Acredito firmemente que as minhas composi√ß√Ķes precisam do tempo que precisam de forma a que possam desenvolver-se e escreverem-se a si mesmas. N√£o tenho pressas.

Mudando de assunto, como √© que se sentes a viver ‚Äúnas ruas de Filad√©lfia‚ÄĚ?

Filad√©lfia tem uma √≥ptima cena musical e √© um s√≠tio bastante barato para viver para os m√ļsicos. N√£o sou maluco pela cidade porque √© de certa forma feia quando comparado a s√≠tio como Barcelona, onde estou agora. No entanto, h√° muitas pessoas fant√°sticas l√° que t√™m tido uma influ√™ncia enorme em mim. Terei sempre um espa√ßo no meu cora√ß√£o para Filad√©lfia, mas recentemente tenho sentido vontade de sair de l√°!

Sentes-te parte de alguma realidade musical dos Estados Unidos, de alguma forma? Pareces ter uma afinidade musical forte com um grupo de m√ļsicos como o Jesse Sparhawk, os Arborea, Fern Knight‚Ķ

Sim! Agora, pela primeira vez na minha vida, come√ßo finalmente a sentir-me parte de uma comunidade musical. Sempre me senti um exc√™ntrico em Filad√©lfia porque eu nunca quis saber muito de americana ou m√ļsica folk brit√Ęnica quando toda a gente est√° louca com esse tipo de coisas. No entanto, ao longo dos anos, tenho vindo a fazer alguns √≥ptimos amigos entre outros guitarristas solo. Por isso sinto que fa√ßo parte de uma rede forte de m√ļsicos amigos como o Mike Tamburo, Nick Schillace, Jesse Sparhawk, William Tyler, Keenan Lawler, Paul Metzger, e a malta de Pairdown‚Ķ Assim como bandas como os Fern Knight e os Arborea.

Trabalhaste com o Jack Rose durante algum tempo. Como foi?

Era muito fácil trabalhar com o Jack. Ficava sempre muito impressionado com a exactidão dele enquanto tocava. Ele nunca falhava uma nota ou uma batida. Por isso tive a sorte de testemunhar o fruto do seu trabalho, ver o quando ele tocava e o resultado que ele alcançou. Foi uma inspiração.

O que é que nos podes contar acerca da tua relação musical com o Jesse Sparhawk? Como é que tudo aconteceu e como é que trabalham em conjunto?

Conheci o Jesse no casamento do Greg Weeks, dos Espers. Foi-me apresentado como sendo um grande guitarrista e começamos a falar. Mandei-o em direcção à Tompkins Square Records com quem andava a falar na altura. O Jesse acabou por editar uma composição na compilação Imaginational Anthem Vol. II. Ao longo dos anos íamos aos concertos um do outro e apoiávamo-nos um ao outro enquanto artistas individuais. Eventualmente, falei com ele acerca da gravação de um disco de harpa solo, que é algo que gostava muito ainda de fazer com ele. Consegui misturar um disco de guitarra solo dele. O Jesse acabou de gravar um disco, Or Kestrel, que é o disco de estreia dele de guitarra solo, que ele anda a mostrar às editoras neste momento. Um engenheiro de som amigo sugeriu que ele e u devíamos fazer um do, tentamos e percebemos que os nossos instrumentos, o estilo de tocar, e as nossas atitudes em relação à improvisação funcionavam mesmo bem juntos.

A forma como tipicamente trabalhamos √© cada um de n√≥s trazer um sistema de escalas ou um padr√£o para cima da mesa e o outro experimenta com isso e adapta se for necess√°rio. E depois improvisamos com isso durante horas e durante v√°rias semanas. A certa altura, come√ßamos a chegar a motivos mel√≥dicos e padr√Ķes r√≠tmicos similares, e depois isso forma a estrutura solta das composi√ß√Ķes. Nos concertos, no entanto, √© 90% de improvisa√ß√£o.

Há um novo disco vosso pronto a sair. O que é que nos podes contar acerca desse disco?

O nome do disco, Sixty Strings, refere-se ao n√ļmero de cordas partilhadas entre a "Lever Harp‚ÄĚ dele e a minha ‚ÄúUpright Chaturangui‚ÄĚ. Musicalmente, o √°lbum vai buscar muita inspira√ß√£o a Alice Coltrane e Ali Farka Toure e Toumani Diabet√©. N√≥s quer√≠amos simplesmente fazer um disco que soasse como se dois m√ļsicos entrassem numa sala, apertassem as m√£os, e tivessem uma conversa com significado. Nesse sentido, acho que fizemos um √≥ptimo trabalho. Esta digress√£o, em que estamos juntos, est√° a dar-nos muitas oportunidades de tocar mais frequentemente e de nos tornarmos muito melhor na improvisa√ß√£o conjunta. J√° temos muito material novo para um novo disco e mal podemos esperar para continuar a tocar e gravar de novo para podermos voltar √† Europa e tocar mais ao vivo.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
22/03/2011