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Nuno Prata
Trágico Comediante


Nuno Prata escreve canções que valem ouro. Perdoem-nos a incongruência, mas basta uma escuta (e as várias que se lhe seguirão) do recente Deve Haver para o perceber. Apelidá-lo de "ex-Ornatos" não o incomoda, embora nos pareça que, ao contrário do que o epíteto implica, ele não esteja ainda à sombra da mítica banda. A pop cuidada de Nuno Prata é eloquente sem precisar de consultar o dicionário; é algo que cada um de nós poderia muito bem cantar (e fá-lo-emos, sem dúvida, seja no chuveiro seja no carro), temas e lemas sociais numa altura de crise - mas sem serem depressivos, coisa notável. O que é como quem diz, se Blacc precisa de um dólar, Prata acha que um dia não são dias, e a nossa vida melhora substancialmente só por haver alguém que pega no stress diário e o transforma numa canção capaz de nos fazer sorrir, num misto de melancolia e de humor auto-crítico. Vesti la giubba, e la faccia infarina... O Bodyspace falou com o músico portuense na ressaca do lançamento de Deve Haver para saber se algum dia iremos ter saúde.
Que mudou na tua forma de pensar a música nestes quatro anos de hiato entre Todos Os Dias Fossem Estes / Outros e Deve Haver?

O que mudou não foi tanto a forma de a pensar mas o tempo que lhe dedicava. No ano seguinte ao da saída do primeiro disco (saiu em Setembro de 2006, um ano depois de ter terminado as gravações) comecei a sentir que a montanha parira um rato. Deixei de encontrar razões para a viver tão intensamente e tive necessidade de fazer outras coisas. Mais tarde, ao perceber que a minha relação com a música não precisava de ser de vida ou morte, decidi fazer as pazes com ela gravando um novo disco; como já não tinha todo o meu tempo para ela, entre o primeiro passo para este trabalho — mais uma vez, a gravação de uma maquete com quatro canções em casa do Nico Tricot — e o seu lançamento passaram cerca de dois anos.

Ainda se referem a ti como "ex-Ornatos". Isso incomoda-te? Considera-lo um entrave na tua maturação enquanto músico a solo?

Não e não. Não me incomoda porque é verdade. Não é um entrave porque é uma questão extra-musical.

Li que te sentiste algo frustrado com a recepção do público ao Todos Os Dias Fossem Estes / Outros. Que tens achado das reacções a este Deve Haver?

Estava a contar que primeiro o disco não chegasse a muita gente — até pelas dificuldades que tive em editá-lo —, não contava era que chegasse a tão pouca. O que encontro de mais importante nas reacções a este novo disco é a sensação de que Deve Haver legitima e valoriza Todos Os Dias Fossem Estes / Outros.

Nessa onda, é mais penoso trabalhar com as tuas próprias canções, ou com as que surgem num contexto de banda?

Sozinho é muito mais difícil acreditar que o gozo que me dá escrever canções e cantá-las vai encontrar correspondência fora do meu universo pessoal.

Deve Haver parece-me um disco com uma forte componente crítica aos tempos que correm... concordas? Era algo que tinhas em mente enquanto o compunhas?

Sinto-me ao mesmo tempo resultado dos tempos que correm e co-responsável por não correrem de outra forma. Não me agrada esse resultado e não me agrada sentir-me incapaz de o alterar. Mas os tempos já correm há muito tempo e as minhas batalhas pessoais não são travadas contra este momento em particular — talvez por isso se encaixem bem nele.

Mesmo transparecendo essa ideia é um disco com melodias bastante alegres e mexidas... sentes-te um "trágico comediante"?

Sinto. As canções ajudam-me a resolver questões comigo e com o mundo, muitas vezes de frustração e conflito, mas o ponto de partida não tem necessariamente de ser o de chegada; a chegada é sempre um momento feliz: tenho mais uma canção. Os temas podem até comportar algum negrume, mas não faço questão de reforçar musicalmente esse facto e simplesmente vou atrás da melodia que os versos esboçam; para não correr o risco de estragar uma boa ideia, não a contrario.

Sei que guardas várias gravações que fizeste de canções incompletas, ou ideias por terminar. Há alguma canção neste disco que tenha sido repescada?

Tanto este disco como o anterior funcionam como um sumário daquilo que fiz desde que comecei a escrever canções até ao momento em que os comecei a gravar. Se Todos Os Dias Fossem Estes/Outros compreende um período entre 2000 e 2005, Deve Haver prolonga esse período até 2009.

Esse arquivo pode levar-te a algum dia lançares um disco como o de Foge Foge Bandido?

Não. Conheço bem o método e, sobretudo, o volume de trabalho do Bandido; tenho ainda algumas canções e ideias guardadas, por trabalhar, mas nada que algum dia possa dar origem a algo semelhante.

No teu blogue escreveste: «um disco é um objecto quasanacrónico». Sentes que algo se perdeu no abandono do físico pelo digital? És conservador nesse aspecto?

Nesse abandono, perdem-se coisas e ganham-se coisas. Para mim, um disco ainda é um objecto físico — deu-me um gozo imenso quando Deve Haver chegou da fábrica —, mas isso tem mais que ver com o modo como sempre fiz e ouvi música e com os meios de que disponho neste momento. Não sou conservador, nem saudosista — tenho até muito interesse em perceber como é que a maneira de consumir música está a alterar a maneira de a fazer.

Que esperas, profissionalmente e pessoalmente, para 2011?

Espero ter oportunidade de tocar ao vivo as canções do novo disco; ao vivo são as mesmas mas são diferentes: vão vestidas de maneira diferente e evoluem através da relação criada com as pessoas que as ouvem e com os espaços onde são tocadas. Tenho vontade de aprender a tocar outros instrumentos, para fazer mais música, de maneira diferente e com mais pessoas, e de voltar a pegar no baixo como baixista.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
19/01/2011