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Himalayha
Um passo de cada vez


Parece ser essa a tónica do projecto Himalayha, a persona musical idealizada por Hélder Costa que se deixou assumidamente influenciar por nomes como Deaf Center, Murcof, Max Richter, Yann Tiersen, Ryuichi Sakamoto, Debussy, Erik Satie, Fennesz ou Alva Noto, um mundo que criou para si e para si chamou para pintar telas musicais criadas com um timing próprio, ao sabor dos dias: um passo de cada vez. Não terá sido por isso à toa que chamou Melancolia em Dia Menor à porção do disco, editado na Thisco, que partilha com mais três projectos (Dream Metaphor, Eletrólise e Vysehrad). Porque a sua música se faz de dias, do tempo que precisa para criar, para ver o mundo passar e dar-lhe uma banda-sonora. Numa breve troca de palavras com Hélder Costa, deu para perceber a relação do homem com a obra, as suas intenções, o método, a dedicação. Numa entrevista sumarenta, o mentor de Himalayha conta-nos os planos da subida à cadeia de montanhas mais alta da sua criatividade.
Há uma frase no press release do teu disco que pode servir de mote para o início desta entrevista: que nada se cria de cabeça vazia. Defendes isso com todas as tuas forças?

Sim, claro, somos influenciados por tudo o que nos rodeia, pelos menos eu sou assim. Há influências que são conscientes outras subconscientes.

Quais são então as tuas grandes influências musicais e como é que arrumas isso na tua cabeça?

Eu ouço muita música, ouço muitos estilos de música, pode parecer cliché, mas a música alimenta-me a alma. Ao compor para Himalayha fui buscar o imaginário de compositores de bandas sonoras como Zbigniew Preisner, Umebayashi Shigeru, Yann Tiersen e Bernardo Sassetti, juntei o exotismo do Ryuichi Sakamoto, a melancolia de Debussy e Erik Satie, o experimentalismo de Fennesz e de Alva Noto e as paisagens e ambientes de Biosphere, mas há mais influências, claro.

Há influências extra musicais neste disco? Como é que elas operam aqui?

Há de facto muitas influências extra musicais, eu funciono muito com imagens, posso ir buscar influências ao cinema, à fotografia, à pintura e a ilustração. Depois também me inspiro nas pessoas que conheço, e no dia-a-dia claro. A primeira música do EP, a “Le petit mort” é uma música muito influenciada pelo cinema do David Lynch.

Como foi chegar a este disco? Do momento em que começaste a fazer música até ao dia em que foi editado, assim algo resumidamente?

Foi um processo moroso, a primeira música criada foi mesmo a “Le petit mort”, andei dois anos com ela, a limar arestas, a tentar encontrar uma linha de piano...Depois surgiram mais temas e a sonoridade de Himalayha começou a desenhar-se. Deu-me muito trabalho tentar criar algo que tinha na cabeça há já vários anos. Surgiu a oportunidade de editar e não pensei duas vezes.

E como foi gravar a música para este Melancolia em dia menor? Podes falar um pouco desse processo, das tuas escolhas, dos teus receios?

A maior parte dos temas surgiu a partir de linhas de piano, fui compondo tudo ao piano, apesar de não dominar o instrumento. Gravava e compunha ao mesmo tempo. Fiz os arranjos, adicionei alguma electrónica minimalista, captei e samplei sons de ambientes, juntei vários instrumentos acústicos. Tenho sempre muito cuidado com a selecção dos sons e dos instrumentos, são ferramentas que moldam o som, que o tornam personalizado. Os receios surgem sempre a compor e a produzir, isto porque nestes campos podes seguir vários caminhos, depende daquilo que tens em mente, se o que fizeres fôr igual aquilo que tens na tua cabeça então seguiste pelo caminho certo.

Este teu lançamento surge num disco com mais 3 projectos. Sentes-te bem ao lado dos outros três nomes? Queres falar-nos um pouco sobre esses nomes?

Este EP surge num CD split, com Dream Metaphor, Eletrólise e Vysehrad. Sou apreciador das músicas destes projectos, apesar de não me identificar com os temas que aparecem neste split. Não foram a melhor selecção de músicas, falo dos temas de Dream Metaphor e Electrolise, estes projectos têm mais potencial do que aquilo que demonstram no split. São projectos já com identidade própria, vão com certeza fazer algo de muito bom mas sou suspeito de falar, o Pedro (Electrolise) e o Lionel (Dream Metaphor) são dois grandes amigos meus.

Como foi acolhido o teu trabalho pela Thisco?

Eu conheço o Luís Van Seixas da Thisco há já uns anos, desde a altura em que fazia música com mais pessoas num projecto chamado Oxygen, ele sempre quis editar algo dos Oxygen, mas nunca chegamos a fazê-lo. Por coincidência o Luís esteve presente nos últimos concertos de Oxygen e nessa altura a sonoridade da banda já tinha algumas pistas daquilo que viria a ser Himalayha. O Luís sempre me incentivou a editar algo, foi um grande apoio. Ele gostou muito de Himalayha.

Há também uma palavra que se destaque no press release do disco: cinemática. Trabalhas com esse conceito em mente? É possível trabalhar-se com esse objectivo, de “cinematicidade” digamos assim?

Sim, trabalho, e de forma muito consciente. Estou a tentar construir uma banda sonora para ser acompanhada pela imaginação, acho que cada pessoa poderá fazer o seu próprio filme ao ouvir Himalayha. A partir do momento em que crias música e esperas que ela transmita algo de emotivo a quem a ouça, então aí consegues cumprir o objectivo de fazer música cinemática.

Interessa-te trabalhar com o cinema, com o teatro, com a dança? Não serão estas extensões lógicas do seu trabalho para quem trabalha este tipo de músicas?

Interessa-me muito, acho que a música pode ser um grande complemento dessas formas de arte. E sim, são extensões lógicas, estas formas de arte mexem com as emoções, podes compor a pensar naquilo que queres transmitir, nas emoções, no final só muda o meio em que apresentas o teu trabalho.

Fascina-te a fusão da música clássica com o da electrónica? Ou fascina-te mais o quebrar das barreiras que está implícito nesse trabalho?

Fascina-me muito, comecei a ficar fascinado com esta fusão através de trabalhos de projectos como Deaf Center, Murcof, Max Richter, e muitos outros. No início, quando ouvi esta fusão achei que foi um quebrar de barreiras, mas hoje em dia acho que é um caminho lógico, pois acho que se compositores como Erik Satie e Debussy vivessem nos dias de hoje utilizariam a também a electrónica para criar as suas obras, mas isto sou eu a divagar.

Tens planos para apresentar com regularidade este trabalho ao vivo? Isso passa-te pela cabeça?

Sim, tenho planos para apresentar Himalayha ao vivo, já recebi convites, mas para já não o vou fazer, isto porque tenho prioridades: quero ter um reportório maior, para isso falta um álbum, quero ter bons músicos também e quero trabalhar muito com outras pessoas nas imagens que vão acompanhar a música ao vivo.

Tens projectos apontados para o futuro? Talvez o lançamento de um disco inteiro, assinado só por ti?

Tenho vários projectos, um deles é editar o álbum de Himalayha, estou a trabalhar nele desde que acabei o Melancolia em Dia Menor, isto porque tenho essa necessidade de fazer música. Há a possibilidade de fazer algumas bandas sonoras para curtas-metragens, surgiram também várias janelas abertas para editar além fronteiras, mas quero ir com calma, quero fazer as coisas bem, um passo de cada vez...


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
05/01/2011