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Filho da Mãe
Não é nenhuma asneira


Se Filho da Mãe não é asneira nenhuma, a nova persona de Rui Carvalho, que conhecemos de outras paragens mais agitadas, é-o ainda menos. Terá sido necessária alguma coragem para que este que milita nos If Lucy Fell, I Had Plans e Asneira assumisse esta nova pele de homem dedicado às sensibilidades e doçuras de uma guitarra acústica. Mas ainda bem que o fez. Agora, com nova arma nas mãos (por favor retirar todo o sentido bélico), abre-se todo um novo mundo de possibilidades para Rui Carvalho: os temas que colocou no myspace comprovam-no, os concertos que tem dado aumentam o burburinho que tem crescido em redor do seu trabalho. É provável que, não tarda nada, chegue um disco para tirar todas as dúvidas e teimas. Por enquanto, fomos falar com Rui Carvalho para tentar perceber com que linhas se cose o seu trabalho. E o objectivo foi cumprido.
É um tanto ou quanto surpreendente ver-te tocar este tipo de música hoje em dia, sabendo das bandas em que tocas. Há quanto tempo guardavas isto dentro de ti?

É quase surpreendente que não o tenha feito mais cedo. Na verdade comecei mais por “estes lados” da guitarra clássica, não só na aprendizagem mas mesmo algum tempo mais tarde com a pretensão de construir algo musicalmente, mas nunca sozinho. Sozinho ia tocando sempre, até guitarra portuguesa mas daí a um projecto a “solo”... acho que nunca me tinha passado pela cabeça.

Foi fácil tirar para fora essa persona? Foi precisa muita coragem?

É estranho porque é muito próximo da pele. Sou daqueles que acha que assim que se pisa o palco há alguma coisa que muda na pessoa, mas neste caso é um pouco mais transparente. Coragem? Enfim... Assim que se põe o pé fora do avião só se pode cair...

Tens alguma formação na guitarra ou isto tudo é produto da auto-aprendizagem?

Não tenho formação. Fui aprendendo a tocar sozinho e com outras pessoas, primeiro com o meu pai e depois com vários amigos. Tudo isto é produto disso, principalmente as coisas más... não tenho culpa, ensinaram-me mal...

Tens medo das comparações? Tens algum receio que te comparem com outros artistas?

Não. É parvo ter medo disso, mas é desonesto dizer que não irrita de vez em quando. Neste caso ainda não passei por isso, mas é inevitável.

Tens algum grande herói da guitarra, sobretudo acústica? Alguém que admires ao ponto de admitir a sua influência no teu trabalho?

Herói da guitarra clássica não tenho propriamente, maravilhava-me a ouvir e ver concertos de Paco de Lucia, (principalmente a interpretar Manuel de Falla). Mas há “sacanas” que sabe-se lá como, conseguiram arrancar a terra com as mão e atira-la a toda gente. Deixaram uma marca, mesmo em quem nunca ouviu com atenção. Carlos Paredes é assim.

Como funciona o processo criativo enquanto Filho da Mãe? É fácil para ti criar sem o input de outras pessoas?

Tudo o o que faço tem o input de outras pessoas. Das bandas, amigos... quando se toca sozinho há coisas que são mais facilitadas, mas há outras, como a que referes, que não me agradam tanto...por outro lado também dá gozo dependermos de nós apenas. Estou muito habituado a tocar sozinho, não é assim um grande problema, às vezes é só chatinho...

Transportar isso para os concertos, é algo que te assusta? Ter todas as atenções centradas em ti e na guitarra, é algo que se adivinha confortável para ti?

Abençoados os que se sentem confortáveis nessa situação. Adoro dar “pregos” e rir-me para o lado com cara de cúmplice...também se pode sempre culpar alguém mais inocente quando se tem uma banda. Mas isso de me sentir assustado ou desconfortável tem tudo a ver com a música que faço.

Tens agora alguns concertos proximamente. O que esperas dele?

Não sei o que te diga...dão-me sempre alguma coisa que não se consegue em mais lado nenhum, todos os músicos, ou músicos “amadores” se preferirem, percebem o que quero dizer, não espero mais dos concertos se não isso.

Pensas gravar alguma coisa nos próximos tempos? Algum EP, algum disco? Sentes essa pressão, esse desejo?

Pressão? Nenhuma. Desejo? Claro. Uma demo já está gravada, pelo Pedro Barceló. Antes disto, duas faixas, uma delas presente na compilação Novos Talentos, foram gravadas pelo Makoto no Blacksheep, que agora vai também vai gravar o álbum em breve. Já há conversas com editora.

E nas bandas em que militas, que novidades nos podes contar acerca de lançamentos e novos projectos?

Asneira é a mais recente, temos dado alguns belos concertos e a actuação ao vivo acabou por me surpreender, para além de uma faixa também editada nos Novos Talentos Fnac, não temos mais nada previsto em termos de edições, apenas fazer mais músicas. Estamos a pensar em perseguir o Carlos Bica, cuidado. I Had Plans tem uma edição em vinil prevista para o fim deste ano pela Unterm Durchschnitt (Alemanha), o álbum chama-se The perception of beauty is a moral test, com tour europeia para Dezembro. Quanto a If Lucy Fell: é um perigo, sabe-se lá o que vai sair dali, só sei que não vai ser bonito....

É mesmo verdade que vieste para o continente para jogar futebol num clube grande ou é uma private joke? Podes-nos contar um bocado dessa história e como é que daí acabaste a jogar num dos grandes do pós-hardcore?

Gosto de metáforas. Mas é verdade que treinei no Amadora quando era puto, era bom à baliza mas era muito pequenino, o treinador prometeu à minha mãe que me “esticava” mas isso nunca aconteceu. Felizmente tinha a guitarra e amigos que não gostavam tanto de futebol como isso. Um dia o Hélio e a Cláudia (Linda Martini “wannabes”) estavam lá por casa e toquei umas coisas, ambos odiaram, era assim tipo Botch... Mas ainda assim resolvemos expulsar a Cláudia porque tinha mau feitio. Hoje em dia Linda Martini é grande.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
29/11/2010