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PAUS
Paus aus aus aus


Existem umas quantas expressões estrangeiras que funcionam maravilhosamente em português quando há que descrever um dos concertos explosivos de PAUS. “Lá se vai a vizinhança”, “quando a merda atinge a ventoinha” e “olha que o céu pode cair”: todas podiam anunciar a chegada destes novos heróis de uma Lisboa que acontece em proporção com o barulho que faz na rua. Alguém disse super-banda? As quatro bestinhas (Hélio Morais, Quim Albergaria, Shela e Makoto) contam com um passado reconhecido em colectivos de rock em grande, sim, mas pouco importa agora insistir nisso, quando a individualidade dos PAUS anda por aí a estoirar na cara de cada um. E esta pode até ser uma segunda juventude dos putos que ganharam ginástica nos dedos com um instrumento numa mão e um comando da velha Nintendo na outra. A precisão necessária nos saltos do Super Mário encontra-se no acerto que une Quim Albergaria e Hélio Morais na bateria siamesa (uma das marcas dos PAUS), assim como a movimentação livre do porco-espinho Sonic estará no coração de toda a banda. Escolas rivais fazem épicos desiguais.

Lançado pela Enchufada dos Buraka Som Sistema, o EP de estreia É uma água só tem quatro músicas e já convence como compêndio da força bruta, que os PAUS tão bem sabem transformar em colossos melódicos e canções de quem conhece de perto o catálogo da Touch & Go e os discos certos de rock progressivo (King Crimson para sempre). É evidente que os PAUS comem-se também uns aos outros nos ritmos que montam e desmontam, e isso é quase tão sexy como a seguinte conversa que o Bodyspace teve com Hélio Morais, Shela e Quim Albergaria.
Contem-me como se sucedeu a formação de PAUS.

Hélio: PAUS nasceu da vontade destas quatro pessoas fazerem música juntas, de uma forma diferente de todos os seus projectos actuais e anteriores.

Shela: Quatro amigos músicos decidiram juntar-se e tocar. O resto veio por acréscimo.

Quim: Ainda andamos à procura, e enquanto andarmos à procura a nossa música estará viva e há-de fazer as pessoas sentir coisas. Como ela surgiu pouco interessa. É quando a química faz som.

O som de PAUS formou-se com alguma espontaneidade ou ainda andaram um pouco aos papéis até encontrar a coesão certa?

H: Foi tudo muito natural, porque o processo de composição é em estúdio. Gravamos um ritmo, uma malha de baixo ou teclado e vamos reagindo por camadas. Por isso, a única premissa que temos quando compomos, é não termos premissas.

S: Formou-se das duas maneiras com ênfase na espontaneidade. Julgo que o som de PAUS é o fruto de nos juntarmos os quatro em estúdio e começarmos a tocar, voltar atrás neste ou naquele riff e tocar outra vez, opinar sobre o que o outro estava a fazer, chegar a um consenso - ou às vezes nem por isso - e encontrar no final algo que nos satisfaça a todos. Neste caso, as quatro músicas do EP.

As vozes em PAUS surgiram logo de início ou só depois dos primeiros ensaios?

H: As vozes surgiram também no estúdio. Gravámos os primeiros ritmos, acrescentámos teclados, baixos e no final achámos que faltavam ali umas vozes.

S: Não houve ensaios, só houve estúdio, e as vozes surgiram tão naturalmente como o resto.

Q: Surgiram porque a música nos pediu.

Como aconteceram as coisas com a Enchufada?

H: Na nossa cabeça, antes ainda de termos as músicas gravadas. Falámos um pouco sobre possíveis editoras e a Enchufada foi o primeiro nome de que falámos. Depois foi uma questão de mostrar o EP e chegar a acordo.

S: As coisas conteceram com amor e compreensão mútua.

A partir de certa altura, “Mete as mãos à boca” evolui em torno daquele loop de um modo que eu diria “progressivo”. Concordas que é o tema do EP em que ficam mais próximos da família Enchufada?

H: Talvez. É de facto a música mais circular que temos e a música electrónica tende a ser mais circular que o rock, de forma a embalar quem a ouve e com isso fazer entrar no ritmo.

S: Talvez, já que a música electrónica é mais circular, e o “loop” sugere isso.

Q: Mete as mãos á boca” surgiu de um riff de guitarra do nosso amigo Tatanka, e depois começámos a pôr camadas em cima e aquilo ia aumentando em intensidade, progredindo para uma conclusão, um clímax. Esta maneira de justapor linhas e sons é uma coisa tão feita na electrónica, como na erudita, como na mais primária e percussiva. Ir sentindo cada vez mais até te vires é uma maneira de sentir de sempre e que desde sempre foi transformada em música. E toda a gente sabe que uma das principais premissas que nos leva a dançar é o desejo de orgasmo. Acho que a Enchufada partilha connosco esta ideia.

E quem é esse Tatanka? Presumo que não seja o mesmo que andava à porrada com o Kamala.

Q: O Tatanka é um guitarrista de bambolé, amigo do Makoto, que toca e canta nas horas. Certa noite o Makoto fez uma jam com ele e gravou. Depois os PAUS ouviram essa jam e pensaram que poderia ser interessante tocar com ele. No final acabámos por usar apenas o sample de guitarra acústica que entra na “Mete as mãos á boca” a seguir à bateria.

Sentem que têm vindo a apurar a simbiose rítmica desde que tocam juntos a bateria siamesa? Diriam que o vosso caso é um daqueles em que um puxa sempre pelo outro? Já se estudavam mutuamente antes de acabarem a malhar na mesma siamesa?

H: Sempre admirei a capacidade de improviso do Quim, em CAVEIRA. Ele conseguia pegar em retalhos e torná-los musicais. Dava corpo aos devaneios do Pedro. Eu sempre fui um pouco mais mecânico a tocar. Por isso mesmo, acho que encaixamos muito bem. Mas naturalmente ainda estamos a aprender a tocar em conjunto. É um processo que nunca estará terminado.

S: Esses dois cada vez estão melhores: apuram e divergem a cada vez que tocamos. Dá-se mais o caso de um puxar pelo outro, por cada um puxar para o seu lado e por terem estilos tão distintos. Não se estudavam, eram amigos. Vem por acréscimo.

Q: Eu acho que o Hélio é o grande baterista desta leva de músicos portugueses. Sentimento, precisão, criatividade e uma fonte de segurança para qualquer músico que toque com ele. Ele tem puxado muito por mim e tem-me feito querer ser melhor baterista. Tenho de lhe agradecer mais vezes.

Ao seres muitas vezes obrigado a reflectir o andamento do Hélio na bateria siamesa, até que ponto tiveste de domar aquele teu animal que dispunha de uma liberdade muito maior em CAVEIRA?

Q: Sinto que o que tenho tocado com o Pedro me ensinou e permitiu mais liberdade na maneira de falar com o ritmo e o som que uma bateria oferece. Da mesma maneira que o facto de ter cantado muito e pensado em refrães e na elasticidade que a língua tem de ter para se fazer entender e fazer dançar, me permitiu perceber um pouco melhor como pode uma bateria cantar.

O facto da produção, mistura e masterização do EP terem também ficado a cargo da banda é uma daquelas regalias que se obtém com os anos de experiência? Ou assim aconteceu por uma questão de logística? Interessa-vos tentar a produção de alguém de fora num próximo disco?

H: Para ser sincero, nunca pensámos muito a fundo numa produção exterior à banda. Somos ainda muito punk e "faz tu mesmo" nesse sentido. Mas sim, é uma regalia conseguirmos fazer sozinhos coisas que nos realizem. Se são boas ou não, isso já cabe a quem ouve. Mas também a música não foi feita para ser boa ou má. Foi feita para suscitar vontade de ouvir ou não e para causar reacções.

S: Se queres algo bem feito, fá-lo tu mesmo! Quando fomos para estúdio não havia ideias pré-definidas, nem EPs, nem dinheiro, nem sequer sabíamos se havia banda para durar ou não, não havia músicas nem nenhum estilo definido. E, como tal, aconteceu sermos nós próprios a definir isso tudo. Apesar de na altura não o sabermos, julgo ter sido a melhor opção, o que não significa que de futuro não se experimente misturar o som de PAUS em conjunto com alguém de fora.

Q: A ideia é continuar a aprender e aprender juntos uns com os outros. Se no futuro fizer sentido trazer mais alguém, que seja. Por agora queremos experimentar uma data de merdas juntos.

Pelo que vi em concerto, estas canções parecem às vezes a plataforma ou um portal para algo maior que acontece apenas quando ali estão na cara das pessoas. PAUS passa também pela redescoberta desse contacto primário com o público?

H: Sim. PAUS idealiza-se no estúdio, mas realiza-se ao vivo, com as pessoas que assistem. E um concerto de PAUS é tanto melhor e tanto mais intenso quanto maior for a interacção do público. Queremos que as pessoas sejam connosco.

S: A música é para ser ao vivo, com os músicos a tocá-la "in loco". Não tirando mérito às mesmas, as gravações são um subproduto, uma interpretação diferente das canções. Eu penso que a música “ao vivo”, quando bem feita, é sempre algo maior que as canções. Quando a cristalizas numa gravação tende a ficar um pouco mais pequena, sem demérito nenhum – é só um formato diferente. É como tocar um instrumento em que os sons saem sempre exactamente iguais não importando a maneira como o toques.

Q: A música gravada é uma prova de vida que resiste mais ao tempo que tu. Mas que interessa o tempo que tu vives se em vida não sentiste nada? Por isso é que a música ao vivo se chama ao vivo, por que nos faz sentir vivos.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
02/09/2010