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Ride
O grande das Caldas


Se Ride era apenas homem até aqui, passou a ser lobisomem à lua do novo Psychedelic Sound Waves. De modo totalmente legítimo, Ride deixou cair o DJ que até aqui encobria a face de um produtor em permanente expansão e inegável estado de graça. Este tipo de renovação é, pois, essencial para que Ride passe a ser entendido como um gestor de mil géneros e não apenas como um manobrador da memória do hip-hop. Ainda assim, podemos identificar novas e velhas linguagens entre a ficção-científica elaborada pelo fabuloso das Caldas da Rainha: seja a colagem de beats puros ou um bounce capaz de deitar a casa abaixo enquanto frisa o volume dos mais impressionantes rabos. A paisagem de sonho, que consta da capa de Psychedelic Sound Waves, garante a chegada a uma espécie de terra prometida (que converge a fantasia de vários sons) e indica que muito pode ainda existir além daquelas montanhas. Numa longa e abrangente conversa, o Bodyspace ficou a saber mais sobre os picos favoritos para o surf do Ride.
Começo pela pergunta clássica: enquanto produtor, de que novas condições e instrumentos dispunhas ao partir para Psychedelic Sound Waves?

Sempre que parto para um projecto novo tento reunir algumas ferramentas que não tinha anteriormente, gosto de ter uns quantos brinquedos novos para me inspirarem. Mas a grande diferença está mesmo nos discos que tenho comprado ultimamente e na musica que ouço. Acho que isso tem influenciado mais o meu trabalho do que propriamente as máquinas novas que tenho, mas claro que fazem a diferença. Dantes não tinha tantos teclados vintage e outras condições que me possibilitam chegar ao som que quero.

No Psychedelic Sound Waves parece ser ainda mais assumido o teu gosto por jogos de arcade completamente old-school. Lembro-me de parar nas Caldas, a caminho de Leiria, para comprar uns jogos de Spectrum perto da feira. Que memórias tens das tuas primeiras experiências como gamer? Tens alguns arcades favoritos, quer pelo jogo em si quer pelos sons e músicas? Algum velho jogo em que sejas imbatível?

Por acaso nunca fui muito bom nos jogos, mas cheguei a colar em alguns. O Spectrum só cheguei a tocar em casa de uns amigos, e lembro-me também dos jogos muito básicos da AMIGA. Quando ia a casa do meu primo era difícil tirarem-me de lá. Era viciado também nas consolas da Nintendo, e mesmo na Master System, Mega-drive, etc.. Depois vieram as bicicletas e perdi o interesse nos jogos.

O título de “Concept Move” fez-me suspeitar na hipótese de ter sido uma faixa gravada a pensar nas skills do Concept, quase como um argumentista que escreve um papel para determinado actor. Foi mais ou menos isso que aconteceu ou foi outra a história dessa malha?

Acertas-te em cheio. Eu conheci o Concept na Holanda, em 2006, quando fui convidado para uma escola de verão que é o Roots & Routes. Basicamente funcionava num formato parecido ao da Red Bull Music Academy mas numa escala mais pequena. A primeira vez que o vi pegar no microfone fiquei logo fascinado pelo skill dele e começámos a falar em fazer umas músicas juntos. A “Concept Move” foi gravada em 2007 ainda na altura do Turntable Food, mas pensei que faria sentido “guardá-la” para outro trabalho, e acho que fiz bem. Faz mais sentido estar no alinhamento do Psychedelic Sound Waves, e é daquelas músicas que, mesmo passados 3 anos, continuam fresh...

Reparo que o Concept rima em inglês. Foi assim porque calhou ou interessava-te também pimpar o valor internacional do Psychedelic?

Ele viveu muitos anos nos States e calhou. Mas obviamente que me interessa também chegar a um maior número possível de ouvintes, para além de ter outra sonoridade diferente do que estamos habituados a ouvir em Portugal.

Em termos de influências e música que te apaixona, qual das costas norte-americanas dirias que te toca mais?

Há uns tempos atrás faria mais sentido falar de influências com essa exactidão geográfica mas neste momento vale tudo. Tanto pode ser funk vindo da Etiópia como jazz Polaco, disco Russo, Dub brasileiro ou Kraut Rock. Nunca ouvi e pesquisei tanta música como agora, e estou cada vez mais viciado em diggin.

Não resisto a referir que encontro um cheirinho de Dan “The Automator” na “Time Travel”. Talvez por causa do disco que tem como Lovage. É um produtor que aprecias?

Sim, gosto bastante, e chegou a ser uma boa influência quando estava a dar os primeiros passos na produção.

Que motivo te levou a incluir a remistura de “Longue Tongue”, dos Micro Audio Waves, no disco? Foi gravado durante o período em que trabalhaste no Psychedelic Sound Waves? Dirias que se enquadra bem na estética do disco em si?

O remix que fiz para os Micro Audio Waves faz parte do DVD deles, o Zoetrope, que saiu no início do ano. Na altura estava a trabalhar no Psychedelic e aproveitei essa influência de beats electrónicos com linhas de sintetizador fortes. Incluí no CD como faixa bónus, mas podia ter sido uma música feita de raiz para o álbum. No fundo gostei de brincar com esse conceito, é um remix feito antes dos toques finais do meu álbum. Incluí como faixa bónus, mas podia ter sido uma colaboração feita de propósito para o meu CD - tem tudo a ver com a estética do disco.

Como descreves a experiência que tens tido enquanto sound designer do Ginga Beat? Leva-te a processos muito diferentes? O Ginga Beat é, de certa forma, o programa perfeito para ti, não?

Tenho pensado bastante nisso, sempre que partimos para um novo programa todas as semanas, e sem dúvida que é perfeito para mim, pelos desafios que tenho tido, pelo registo, conceito, escolhas musicais. Nunca pensei que iria estar a manipular a voz dos locutores com técnicas que costumo utilizar na produção, ou a fazer scratch nos jingles. Para além de que, semana após semana, os conteúdos variam bastante, estou sempre a absorver música a que, de outra maneira, não teria acesso tão facilmente.

O que te levou a deixar cair o DJ do nome?

Eu gosto de brincar e misturar um bocado os conceitos. Partilho da mesma atitude do DJ Babu e dos Invisible Skratch Piklz, que há uns anos faziam mesmo questão de mostrar a diferença entre um DJ e um Turntablist. E, como se sabe, o Babu começou a assinar Babu, the tablist, em alguns trabalhos, de forma a marcar ainda mais essa grande diferença entre um simples disc jockey e um músico que utiliza o scratch como o seu instrumento principal. Uma coisa é o trabalho que desenvolvo num club e noutros registos, e outra bem diferente é a musica que componho, daí neste trabalho ter “omitido” o DJ porque acho que não faz sentido estar sempre presente e a conotação por vezes também não é a melhor, porque podes associar a uma mixtape ou podes a primeira vista olhar para o CD como se fosse um set. Mas obviamente que vou voltar a assinar com o DJ antes, como por exemplo na próxima scratch tool que vamos editar.

Em que ponto estão nesta altura as gravações do documentário Dig in Japan? Se bem sei, as coisas estão um pouco empatadas, não é?

O Dig in Japan foi adiado, mas fizemos o documentário na mesma noutros locais, daqui a 2 meses estará pronto.

Tens investido ultimamente no digging? Que últimas descobertas te deixaram abananado?

Sim cada vez mais, aliás estou numa fase de compra de discos compulsiva, desde que tenham algo que me desperte curiosidade. As últimas descobertas, assim de repente, uns discos de library da BBC cheios de efeitos especiais, outro da Pat Prilly, rock progressivo, e um disco de jazz polaco, Zbigniew Namytow, que tem uns bons samples.

Que novidades nos reserva a RockIt para breve?

Alem do Diggin Doc e uma beat tape feita exclusivamente de samples retirados de discos que aparecem no documentário, temos uma scratch tool entre outras coisas que vão ter muito mais piada quando anunciarmos no momento certo.

Acreditas que o Madlib se vai aguentar na maratona de doze discos que estabeleceu para si este ano?

O Madlib neste momento deve ter milhares de beats e centenas de álbuns na gaveta, por isso acredito que sim e estou muito curioso por ouvir tudo.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
19/04/2010