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Ethan Rose
Patinagem paisagística


A resenha de Oaks, proposta em baixo, revelava o essencial sobre Ethan Rose e o caminho at√© ao √°lbum que comp√īs fazendo magia com a mat√©ria obtida num √≥rg√£o Wurlitzer, que, por sua vez, sintetizava os sons de quase meia centena de instrumentos (entre os quais o xilofone, a marimba e o trompete). Movido por um sentido nost√°lgico muito pessoal, presente em muitas das texturas imaculadas, Oaks n√£o tem parado de crescer como revela√ß√£o ambient que sugere o deslize e prazer habitualmente obtidos a um par de patins. Ainda antes de Oaks, o realizador Gus Van Sant havia convidado Ethan Rose para, com a sua ‚ÄúSong One‚ÄĚ, manter a levita√ß√£o das t√°buas de skate num dos momentos mais marcantes do filme Paranoid Park. O que era espl√™ndido nessa tal cena volta a s√™-lo em ‚ÄúFortune‚ÄĚ, o tema de Oaks que mais aponta para um Brian Eno sobre pequenas rodas. O Bodyspace estabeleceu contacto com Portland (um dos t√≥picos da conversa) para escutar Ethan Rose em discurso directo.
Que parte do material, gravado a partir do órgão Wurlitzer, acabou por surgir no disco, de uma forma ou de outra? Todos os instrumentos e efeitos de som listados foram incluído no Oaks?

√Č dif√≠cil dizer exactamente que parte do material gravado acabou no disco. √Č frequente alguma desarruma√ß√£o no meu processo e procuro n√£o me deixar prender pela organiza√ß√£o de ficheiros. Trabalho com os materiais at√© estar satisfeito com o resultado, e depois adiciono mais materiais.

Foste capaz de conjugar o desenvolvimento de Oaks com outras actividades ou o disco absorveu-te toda a atenção?

O Oaks foi a minha principal preocupa√ß√£o durante o per√≠odo em que o gravei. √Č costume desenvolver v√°rios projectos em simult√Ęneo, mas tento apontar a maior parte da concentra√ß√£o no sentido de uma s√≥ coisa. Mesmo assim, a gest√£o de v√°rias iniciativas ao mesmo tempo faz com que tudo seja mais excitante.

O facto do Oaks ter sido tamb√©m lan√ßado pela Headz deixa-me curioso em rela√ß√£o √†s reac√ß√Ķes obtidas no Jap√£o. Foi-te solicitada a habitual faixa extra como exclusivo para a edi√ß√£o japonesa?

A vers√£o japonesa inclui de facto uma faixa extra (‚ÄúWith Hands‚ÄĚ), e acho que o √°lbum foi bem recebido por l√°. Irei viajar at√© ao Jap√£o em Outubro para uma s√©rie de actua√ß√Ķes e promover um pouco mais o disco.

Escutei a ‚ÄúWhat Hands‚ÄĚ e parece-me um final alternativo que deixa no ar a ideia de que aquela era a hora certa para o √≥rg√£o Wurlitzer ir dormir. Ocorreu-te a hip√≥tese de ser inclu√≠da na vers√£o da Baskaru?

Eu ainda penso na ‚ÄúBottom‚ÄĚ como o final do √°lbum. Essa faixa permite que o √°lbum desapare√ßa lentamente e gosto de como proporciona uma conclus√£o. Eu sabia que a Headz queria uma faixa extra e optei pela ‚ÄúWhat Hands‚ÄĚ para colar ao final da vers√£o original. Acho que a observo como um final alternativo para o Oaks, mas n√£o duvido de que altera o tom da despedida.

Surpreende-me muitas vezes a sensa√ß√£o de conhecer um pouco de Portland atrav√©s da tua m√ļsica, assim como a de Elliott Smith, Eluvium ou Adam Gnade. Acreditas que, quando comparada com as outras cidades, Portland tem uma maneira especial de se infiltrar na m√ļsica?

Portland √© uma grande cidade para a m√ļsica. Existem muitos m√ļsicos, artistas, bandas e uma enorme quantidade de pessoas criativas. Isso significa que, apesar de ser pequena, √© uma cidade repleta de actividade cultural. Existem muitos lugares impec√°veis para tocar e √© enorme o apoio por parte de toda a gente.

O Elliott Smith chegou a ser especifico na referência que fazias às ruas de Portland. Em relação ao Oaks, eras capaz de me dizer de que maneira refere certas partes de Portland?

Bem‚Ķ Sim, existem determinadas coisas de Portland que serviram de inspira√ß√£o para os t√≠tulos de alguns temas. A maioria dos t√≠tulos est√° directamente relacionada com o ringue de patinagem onde o √≥rg√£o se encontra. ‚ÄúFortune‚ÄĚ, por exemplo, recupera o nome de Keith Fortune, a pessoa que toca e cuida do √≥rg√£o no ringue. O t√≠tulo ‚ÄúFloor Released‚ÄĚ refere-se ao ch√£o flutuante do ringue. O ringue encontra-se localizado junto a um rio que transborda ocasionalmente. O ch√£o de carvalho est√° colocado de maneira a flutuar quando isso acontece, de modo a que velha madeira n√£o seja danificada pelas √°guas.

Como surgiu o convite para que a tua m√ļsica fosse usada no Paranoid Park? Aprecias o modo como Gus Van Sant combina m√ļsica com situa√ß√Ķes diferentes? Eu ainda n√£o consegui ultrapassar a intensidade daquela cena no chuveiro‚Ķ

Obrigou-me a alguma humildade o facto de Gus Van Sant ter decidido usar a minha m√ļsica no seu filme. Basicamente, ele contactou-me e perguntou-me se eu estaria interessado em ceder alguma da minha m√ļsica. Sou um f√£ de longa data e aprecio muito o que faz como cineasta.

Tens algum filme favorito de Gus Van Sant?

√Č dif√≠cil nomear um filme favorito de Gus Van Sant, porque muitos deles s√£o fant√°sticos. Posso dizer que o My Own Private Idaho √© o que tem mais significado para mim. Vi-o nos meus primeiros anos de juventude e n√£o se parecia com nada do que eu j√° tinha visto. Expandiu realmente a minha no√ß√£o de cinema.

A felicidade da combina√ß√£o, que liga a tua ‚ÄúSong One‚ÄĚ ao skate, recorda-me de como √© belo o final de Traffic, com os mi√ļdos a jogar basebol ao som da ‚ÄúAn Ending (Ascent)‚ÄĚ de Brian Eno. Acreditas que o aspecto harmonioso de alguns desportos pede m√ļsica?

Eu acredito que s√£o imensas as possibilidades da m√ļsica na forma como se enquadra no cinema. √Č sempre interessante observar como combina√ß√Ķes invulgares oferecem express√Ķes imprevis√≠veis.

Tenho ideia de que a ‚ÄúSong One‚ÄĚ ganhou aos poucos o estatuto de um pequeno √™xito de internet. Achas que plataformas como o You Tube ajudam a espalhar aquelas m√ļsicas que os f√£s adoram combinar com diferentes imagens e v√≠deos?

Absolutamente. Parece-me que muitas pessoas aderiram a essa m√ļsica a partir da banda-sonora do filme e √© interessante reparar nas reutiliza√ß√Ķes expostas no You Tube.

Tens desenvolvido esfor√ßos no sentido de aproximar a imagem e a tua m√ļsica? Sei que aprecias ambos os meios.

Trabalho com realizadores e essa √© uma das formas de casar som e imagem. Terminei recentemente uma banda-sonora para o filme Nothing Personal, que ir√° estrear brevemente em Locarno, na Su√≠√ßa. Gosto deste tipo de trabalho porque apresenta novos desafios e outras interac√ß√Ķes colaborativas. Interessa-me tamb√©m fazer instala√ß√Ķes sonoras e trabalhar com componentes audiovisuais em galerias.

Depois destes primeiros discos por conta própria, sentes-te mais confortável com a hipótese de tentar uma colaboração brevemente?

Sim. Estou agora envolvido numa colaboração com a cantora Laura Gibson. Os detalhes serão divulgados entretanto.

Essa colaboração com Laura Gibson representa um trabalho extensivo da sua voz como instrumento?

De certa maneira sim. Nas grava√ß√Ķes que temos feito, trato a sua voz como tratava as caixinhas de m√ļsica, os pianos e outros instrumentos que j√° utilizei. Atrav√©s da grava√ß√£o das suas improvisa√ß√Ķes e da edi√ß√£o posterior, cheg√°mos a uma colabora√ß√£o que reaviva o passado criativo de ambos. A Laura aventurou-se em explora√ß√Ķes in√©ditas da sua voz e eu agarrei a oportunidade de trabalhar com palavras, algo que nunca tinha feito.

Fala-me dos teus restantes projectos actuais.

Al√©m desse disco com a Laura, estou tamb√©m a preparar v√°rias instala√ß√Ķes sonoras. Uma dessas em colabora√ß√£o com Andy Paiko, um artista que trabalha vidro. Estamos a criar uma s√©rie de vasilhas de vidro que rodam √† medida que uma armadura as esfrega como um dedo num copo de vinho. Tenho tamb√©m trabalhado em alguns v√≠deos e novas m√ļsicas.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
14/10/2009