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Black Bombaim
Acreditar em Barcelos


Acreditar. Em Barcelos. Em 2009. Quem o diz √© T√≥j√≥, e estamos certos que Ricardo e Senra rapidamente assinariam por baixo. A verdade √© que, no processo, fizeram alguns acreditar no stoner rock e na m√ļsica psicad√©lica. De novo. Se √© psicad√©lico est√° na lingua de T√≥j√≥, dizem alguns. Ao vivo √© que a coisa rende, dizem outros. Os relatos dos concertos dos Black Bombaim s√£o os mais entusi√°sticos: fala-se de riffs imposs√≠veis, de uma certa e crescente vontade de movimentar a cabe√ßa, de actua√ß√Ķes suadas. O EP que se chegou √† frente mostra todo o querer, toda a inten√ß√£o. E h√° um novo disco que pode ser a prova dos nove. Porque n√£o mexer com Barcelos e com o resto do pa√≠s? E porque este rock pode ser do demo, quem sabe devolver os cornos √† popula√ß√£o? T√≥j√≥ n√£o confirma nem desmente, mas discute em conversa amena os genes dos Black Bombaim e Barcelos enquanto para√≠so instalado.
Como é que está Barcelos?

Morto, vazio e deprimente. Nada de novo

√Č por isso que os Black Bombaim existem?

Eu normalmente digo que sim, as pessoas costumam-se rir quando digo que toco numa banda porque não tenho mais nada para fazer...mas a verdade é essa, não arranjo uma explicação melhor, e se arranjasse, estaria a mentir.

√Č tipo Ramones?

[risos] Pode-se dizer que sim, mas sem a fama, o dinheiro e as groupies...

Mas quanto tempo durou esse tempo de tédio? Quem é que atirou a primeira pedra?

Como assim? A primeira banda a levantar o rabo do sof√°?

Mais o primeiro de vocês da banda a levantar o rabo do sofá...

Ahh... Posso dizer que foi o Senra (o baterista), porque é o mais velho e já tinha uma banda...que tanto eu como o Ricardo (o guitarrista) assistíamos aos ensaios e concertos nos nossos 15 aninhos. Nessa banda agora extinta, de nome Lip Poppers, estavam os nossos amigos rockeiros, e de certa forma, queríamos ser como eles...em vez de estarmos a assistir aos ensaios, decidimos nós também trabalhar no Verão para comprar instrumentos e começar a rockar como eles. E depois de uns aninhos para aprender a tocar e sempre a rodar amigos dentro da banda, a banda do Senra acabou e convidámo-lo para tocar connosco.

Mas agora que falas, o gigante rabo de Barcelos também parece querer estar a sair do sofá. Há mais bandas aí na ribalta. Como é que vês essa coisa toda?

De fora parece ser melhor do que é...digo isto porque sempre estivemos habituados a lidar com bandas em Barcelos, e não me parece assim nada fora do comum. Maior parte dos nossos amigos toca um instrumento ou tem uma banda. Mas a partir daí levar a coisa mais a sério e sair da cidade maldita acho que contou muito com a ajuda do Joaquim da L&L. Ele puxou e apoiou as bandas de Barcelos que de certa forma precisavam e mereciam aquele empurrão.

Ia mesmo falar do Fua, que carinhosamente chamas de Joaquim. O empurr√£o dele foi mesmo decisivo?

Sem d√ļvida, n√£o fosse ele e ainda estar√≠amos a tocar em caf√©s obscuros a troco de 2 cervejas. Tornou poss√≠vel a edi√ß√£o do disco e proporcionou um giro de concertos bastante agrad√°vel.

Como é que tem sido tocar por aí pelo país. Achas que o pessoal está a sentir a vossa cena?

Est√° a ser muito bom! Acho que desde que come√ßamos a sair da terrinha encontramos um p√ļblico diferente, mais vasto. Principalmente por n√£o dar import√Ęncia ao estigma de n√£o haver vocaliza√ß√Ķes. √Č um p√ļblico mais aberto e acho que curtem mais a nossa m√ļsica, principalmente nas cidades maiores.

Não achas incrível que ainda haja pessoas espantadas a esta hora do campeonato com bandas que não cantam? Isso terá fim algum dia?

Realmente, √© estranho algumas pessoas ainda n√£o estarem habituadas, principalmente agora com o "hype" do p√≥s-rock, no qual muitas bandas n√£o cantam. Mas tamb√©m o pessoal que ainda estranha as bandas instrumentais n√£o √© de certeza o p√ļblico do p√≥s-rock eheh...Acho que j√° era tempo de as pessoas abrirem um bocado os ouvidos ao que se anda a fazer por a√≠ e deixar de lado os "preconceitos do rock".

Achas que o vosso disco pode cumprir também essa função?

Pode facilitar...mas n√≥s temos o defeito de n√£o levar o disco demasiado a s√©rio, quer dizer, andamos a promov√™-lo mas ao vivo apenas tocamos uma pequena parte do disco. Somos todos rapazes novos e cansamo-nos facilmente das m√ļsicas, e o disco apesar de ter sa√≠do h√° muito pouco tempo, foi gravado no in√≠cio de 2008. Desde a√≠ j√° tivemos ideias novas e andamos a praticar isso ao vivo. O disco pode ser visto como uma parte mais light, mais descomprometida e certamente mais acess√≠vel de um concerto. √Č mais um m√©todo de promo√ß√£o e de inser√ß√£o no meio do que uma prova da m√ļsica que fazemos.

Mas é também um disco que resume aquilo que vocês são? Estão satisfeitos com ele?

Estamos satisfeitos, mas tamb√©m n√£o gostamos de parar no tempo. A faixa ‚ÄúComplication (Amplify, Defy, Mistify, Deny)‚ÄĚ √© certamente a que nos resume, devaneios psicad√©licos numa base claramente rock n' roll.

Essa base de que falas √© influenciada por alguma fase especifica da m√ļsica rock? Sentem-se capazes de explicar de onde vem a vossa m√ļsica?

As refer√™ncias s√£o √≥bvias. O final da d√©cada de 60 e in√≠cios de 70. S√£o in√ļmeras as boas bandas nessa altura, e cada uma delas criou qualquer coisa nova. Principalmente Black Sabbath, Blue Cheer, Led Zep e Grand Funk Railroad. O aparecimento do chamado "stoner rock" nos 90's √© nada mais que um tributo a essa mesma √©poca.

Com alguns desvios preocupantes, ter√°s de concordar...

Sim, claro... Talvez um desses desvios mais importantes foi o punk rock…

Falava mais de outras entidades, mas o punk é preocupante para ti?

Acho que foi muito decisivo no som de bandas como Kyuss...eles cresceram todos a ouvir Black Flag, e isso reflecte-se um bocado no som deles, mais uptempo e duro nalgumas m√ļsicas. Mas no caso de uns Sleep, aquilo √© puro "Sabbath worship"‚Ķ

Sacar riffs a la Black Sabbath é um bom estilo de vida?

√Č o melhor estilo de vida. Eventualmente ir√° cansar... Ou j√° cansou...

Não vês um futuro longo para os Black Bombaim?

Espero que sim, mas creio que uma banda deve-se reinventar e trazer qualquer coisa de novo se quer permanecer activa. Uma coisa um bocado hipócrita dita por um fã incondicional do rock clássico. Mas bandas como os Comets on Fire, Earthless ou Mammatus fizeram isso.

O que é que é preciso para fazer o que os Comets on Fire ou essas bandas fizeram? O que é que achas que eles fizeram de diferente? Eu por acaso concordo contigo, diga-se...

N√£o sei explicar muito bem, deve ter qualquer coisa a ver com as drogas. [risos] Acho que levaram os 70's ao extremo...n√£o sei bem como, talvez nem eles saibam

Achas que o rock é tão melhor quanto menos calculista é?

Sim, sem d√ļvida. A filosofia do rock √© mais de atitude e imprevisibilidade do que mega composi√ß√Ķes calculadas, com escalas musicais escolhidas a dedo e mudan√ßas r√≠tmicas propositadamente confusas. O calculismo tira a piada ao rock, na minha opini√£o.

Morte ao prog?

Talvez, ao recente. Bandas como Amon Duul, Pink Floyd, Van der Graaf Generator t√™m o meu maior respeito, porque nota-se que √© mais sentido. Agora fazer m√ļsica para m√ļsicos sem qualquer tipo de alma...

Tipo Yes?

Yes escapa porque tem um dos baixistas mais cool de sempre...agora Rush, Dream Theater e afins...n√£o obrigado.

Dirias então que estás mais próximo do Porkabilly Psychosis dos Tédio Boys do que do 10,000 Anos Depois Entre Venus e Marte do José Cid…

Sim, apesar de reconhecer a qualidade do disco do Cid, é bastante choninhas para o meu gosto.

Em Portugal, que bandas satisfazem o teu apetite? Ou fizeram em tempos…

Hmm...gosto dos nossos amigos de Barcelos, Green Machine, ALTO!, The Glockenwise, Aspen. A nível nacional tenho que dar crédito aos Born a Lion, Dawnrider e também Men Eater. Bandas extintas lembro-me de Z.E.N. e Arte e Ofício, que apesar de não conhecer a fundo, já ouvi grandes malhas.

Esse estilo de vida de que falavas... é um estilo de vida que vais aguentar como a partir de Setembro? Ouvi dizer que ias para Budapeste em Erasmus...

Vai ser difícil, vou tentar compensar ao ver concertos ao vivo. Tenciono ver Trouble e Pentagram em Outubro. De qualquer forma, está planeado um regresso em grande em Janeiro/Fevereiro. Talvez com disco novo.

H√° can√ß√Ķes novas no forno?

O disco j√° est√° gravado. Como sempre, quest√Ķes financeiras atrasam tudo. A ideia √© tamb√©m fazer uma edi√ß√£o diferente, o que tamb√©m leva tempo.

H√° interesse de alguma editora?

Será uma edição semelhante à do disco homónimo. Com o apoio da Lovers & Lollypops. Será diferente pois queremos lançar o disco apenas em vinil

S√£o f√£s do vinil?

Sem d√ļvida. S√≥ compro discos em vinil (quando posso claro). Acho que a m√≠stica do vinil tamb√©m vai bem com o nosso tipo de som, al√©m de que agora, muitas pessoas preferem comprar em vinil do que em CD, pelo factor coleccion√°vel. Acho tamb√©m que a edi√ß√£o exclusiva em vinil n√£o vai ser um entrave a um poss√≠vel comprador, pois no fundo, acaba-se sempre por arranjar o disco de outra forma.

N√£o podia estar mais de acordo. Para terminar, pergunto: no meio de tudo isto quais s√£o os teus desejos para os Black Bombaim? E para Barcelos. Podem ambos ser a mesma coisa?

O meu desejo para os Black Bombaim é que continuemos tocar, a lançar discos. Somos ainda muito novos (por exemplo eu tenho 21 e o Ricardo ainda só leva 20). Não queremos parar por aqui. Quanto a Barcelos, acho que já não há nada a fazer. Espero só que continuem a aparecer bandas novas com qualidade e, acima de tudo, que tenham coragem de se lançarem para fora daquela terra. Acho que se notou bem o amor que sinto por Barcelos ao longo desta entrevista.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
06/07/2009