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Labrador
Ambiental Sentimental


Orvalho é como uma operação a coração aberto. Das que correm bem. Transparente e permeável, o disco estreia do portuense Labrador é produto de experiências a solo - mais ou menos solitárias - que são como ver o fundo do oceano. Luís Teixeira não o esconde: este é o retrato mais fiel do próprio, parte metade do duo Nimai, um decisivo passo em frente na existência como Labrador. Começou como muitos começam nos dias que correm: timidamente e munindo-se da ferramenta myspace para mostrar ao mundo os sons que se iam fazendo no quarto. Esses sons agora quiseram ar livre e Orvalho chegou com assinatura electrónica eminentemente paisagística de beleza constante. Em entrevista ao Bodyspace, Luís Teixeira mostra as linhas com que se faz o ADN de Labrador, ao mesmo tempo que sublinha objectivos para o futuro próximo.
Parece-me que este disco, da capa à música em si, é um projecto muito pessoal. Quase intimo. Não tens reservas em mostrar um trabalho tão “próprio”?

De facto é algo mesmo muito pessoal. Inicialmente, antes o ter baptizado de “Labrador”, guardava os temas e experiências numa pasta chamada "Quarto" no meu antigo computador, isto porque a maior parte das músicas eram gravadas quase sem pensar no que ia tocar, em casa dos meus pais, durante a noite, com auscultadores para eles não acordarem. Inicialmente foi uma coisa mesmo muito solitária que fazia mesmo só para mim e nessa altura nem sequer pensava que um dia iria dar um concerto. No primeiro concerto que dei, no Maus Hábitos, senti de facto essa sensação de invasão, mas com o tempo acho que a necessidade de partilha das músicas foi algo que me motivou a começar a tocar ao vivo.

Como é que foi conceber este disco? Que estratégias usaste, que método aplicaste, como é que foram as gravações?

Acho que a necessidade de gravar o disco aconteceu a partir do momento em que comecei a dar alguns concertos; o meu som estava a começar a mudar, já acrescentava instrumentos novos e senti a necessidade de "arrumar" músicas antigas num álbum, juntamente com algumas do ano passado. Algumas dessas músicas já têm três ou quatro anos foram gravadas em quartos de hotel, no meu quarto, um pouco por aí, ainda vestígios mais pessoais. Entretanto comecei a cruzar os instrumentos que tocava com uma base feita em computador, desde batidas a sintetizadores ou samples, e simplesmente fui gravando as guitarras, pianos e sintetizadores analógicos por cima, sempre num processo bastante natural e pessoal. Nenhum dos temas foi produzido porque gostava do som "em bruto" que tinham, achei que produzir e dar melhor aspecto era mentir a mim mesmo, retirando às músicas esse carácter "íntimo". Além do mais, gosto do ruído.

Os resultados deste registo são aqueles que esperavas quando começaste esta etapa?

As músicas já estavam todas gravadas quando pensei em editar o álbum, no fundo a única coisa que fiz foi escolher o grupo de canções que queria gravar. Obviamente houve um ou outro retoque, gravei novamente uma ou outra guitarra, mas tudo muito rápido. O disco é ainda muito fresco, tem dois ou três meses e as expectativas que tinha são as mesmas que tenho agora, nenhumas, aquilo que acontecer, se acontecer, é bem-vindo. É um disco para quem quiser, acho que talvez o objectivo seja só dar-me a conhecer, como pessoa, creio.

Este é um disco muito mais cheio do que os primeiros temas que mostraste enquanto Labrador. Previas esta mudança de orientação ou aconteceu de forma natural?

De facto a minha sonoridade mudou bastante, no inicio algumas músicas eram até só guitarra. A verdade é que ao longo dos últimos quatro ano fui comprando uns instrumentos novos, descobrindo outros, e isso trouxe algo de novo também às músicas. No entanto foi algo que aconteceu naturalmente acho eu, muito em parte por ir experimentando coisas novas e ir gostando delas. Talvez agora comece a orientar um pouco mais a minha sonoridade e a criar maior relação sonora entre aquilo que faço para Labrador, mas em nenhum dos temas do disco isso aconteceu.

É radicalmente trabalhar com Labrador comparado com o que fazes com os Nimai? Qual a maior diferença para além de uma maior liberdade de movimentos?

Sim de facto tocar com o Zé em Nimai é mesmo muito diferente, igualmente bom, mas muito diferente. Acho que fazer música sozinho ou em grupo, seja com uma pessoa ou mais, é sempre muito diferente e acho que no meu caso, até me sinto mais livre em Nimai do que em Labrador, pois a solo estou sempre num compromisso estranho comigo mesmo. As músicas de Labrador são relatos de coisas que me aconteceram ou que senti na sua maioria, a coisa boa de tocar com o Zé é que não penso em nada disso, sinto-me muito mais livre de mim mesmo.

O Porto é hoje em dia uma cidade onde se pode tocar mais e melhor, com mais oportunidades para este tipo de projectos? Como farias um mapa da cidade nesse aspecto?

Eu acho mesmo que o Porto está num bom caminho, ainda tem muita montanha para escalar, mas a coisa está no rumo certo, creio. Acho que tocar este tipo de projectos depende mesmo muito das pessoas, acho que os lugares para concerto se inventam. Eu pessoalmente gosto mais de tocar em espaço pequenos mas obviamente é um privilégio poder tocar, por exemplo, no auditório do Passos Manuel. Eu acho que as pessoas começam a perceber isso de "inventar salas de espectáculo", aliás, o melhor concerto que dei de Labrador, sem dúvida alguma, foi no sítio com piores condições, não havia PA, só dois monitores bem caseirinhos, havia muito pouca luz e estava um frio de rachar (no estúdio do Mauro, "A Certain Lack of Coherence" no largo dos Lóios). De qualquer das formas, acho que é sempre bom fugir ao óbvio, sair do circuito clássico do Porto, criar novos espaços, nem que seja por uma noite, e se isso significar dar um concerto para amigos lá em casa, porque não?

Tens planos para apresentar Orvalho com alguma intensidade ao vivo?

Não estabeleci nenhum plano de apresentação do disco, acho que o mais provável é que o vá apresentando nos concertos que for fazendo por aí.

Parece-me que a tua música tem nas imagens do Pedro Maia um complemento muito especial. Atreves-te a tocar ao vivo sem esse background?

Sim, acho que não teria problema nenhum em dar um concerto sem o Pedro. Mas de facto o trabalho que ele tem apresentado comigo ao vivo, em Super 8, é a melhor porta para as minhas músicas que acho que podia ter encontrado, e felizmente ele tem podido vir comigo para todos os concertos, tem sido um privilégio. De qualquer das formas estou preparado para um dia ter de dar um concerto só mesmo eu e as luzes, mas a cadeira do Pedro está sempre lá para quando ele quiser.

Actuaste recentemente como Labrador no Clubbing da Casa da Música. É sempre um momento especial ser reconhecido a esse nível, presumo. Como foi?

Correu sinceramente melhor do que estava à espera. Pensava que não ia ter ninguém e que ia ter demasiado "reverb" na sala cyber. Mas correu mesmo muito bem, a sala estava cheia de gente, e o tal "reverb" foi uma aura muito especial. Obviamente é sempre bom dar concertos em eventos deste porte, dá visibilidade e para além do mais é um teste, um teste ao músico e à música, dá vontade de continuar, dá mais algum sentido à coisa.

Seguir-se-ão muitos discos a este Orvalho ou não estás a fazer planos para já?

A verdade é que já tenho músicas para editar mais um disco, já tenho nome e capa [risos] mas vou ter de ter calma, mostrar um bocado mais o Orvalho e talvez quem sabe procurar uma etiqueta que possa estar interessada em editar Labrador, com mais músicas, mas mesmo que isso não aconteça, vou gravando temas novos, e se tiver de fazer mais um, dois, três, ou os que sejam, álbum de edição de autor assim farei. Mas de qualquer das formas, há planos de facto, e acho que o próximo disco será bem diferente deste.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
25/03/2009