bodyspace.net


Alla Polacca
A hora da verdade


Para os Alla Polacca, We're Metal And Fire In The Pliers Of Time, publicado em Outubro deste ano, n√£o √© o √°lbum de estreia, apesar do facto ser teoricamente indiscut√≠vel. Os membros da banda preferem apontar o split Why not You? , editado a meias com os Stowaways, em 2003, como o merecedor desse ep√≠teto. Por√©m, isto n√£o invalida que haja uma clara sensa√ß√£o de final de ciclo na recente edi√ß√£o, que contou com o contributo de Francisco Silva (aka Old Jerusalem), como autor das letras. Um dos seus membros iniciais, Rodrigo Cardoso, tamb√©m fundador da editora Bor Land (respons√°vel pelo lan√ßamento), abandonou o projecto, que j√° tinha sofrido v√°rias altera√ß√Ķes na forma√ß√£o, cristalizada agora num quarteto, constitu√≠do por M√°rcio Carvalho, Duarte Silva, Leonel Sousa e Pedro Silva. We're Metal And Fire‚Ķ interrompe ainda um sil√™ncio de cinco anos em termos de edi√ß√Ķes, e relan√ßa os Alla Polacca no panorama da m√ļsica independente portuguesa, num momento em que j√° vai longe a vit√≥ria no Term√≥metro Unplugged de 2003. Tratava-se ent√£o de uma ‚Äúbanda promessa‚ÄĚ, mas, cumpridos que est√£o quase 10 anos de exist√™ncia, o r√≥tulo est√° dilu√≠do. O novo disco parece apontar para um caminho de maturidade e de certezas: h√° melodias fortes, altos e baixos r√≠tmicos e linhas de guitarra explorat√≥rias. Agora que querem mostrar o seu novo e consistente conjunto de can√ß√Ķes pelo pa√≠s fora, bem se pode dizer que os Alla Polacca t√™m pela frente meses decisivos. A hora da verdade chegou para a banda portuense, e Leonel Sousa, guitarrista e vocalista, respondeu √†s quest√Ķes do Bodyspace.
Entre o vosso primeiro trabalho, o split Old & Alla, e We're Metal And Fire In The Pliers Of Time, o √°lbum de estreia, a dist√Ęncia √© de cerca de sete anos, e desde a vossa forma√ß√£o j√° passaram quase 10 anos. Porque √© que demoraram tanto tempo a chegar ao primeiro longa-dura√ß√£o?

Na verdade, tivemos alturas em que as v√°rias altera√ß√Ķes na forma√ß√£o implicaram uma √≥bvia reestrutura√ß√£o dos temas que estavam a ser desenvolvidos, o que nos levou por v√°rias vezes √† estaca zero. Desde sempre a nossa m√ļsica foi muito vol√°til, fizemos muitas altera√ß√Ķes, tanto nos alinhamentos, como na estrutura das m√ļsicas em si, o que levou a que muito do material tivesse ido directamente para o lixo. Ao contr√°rio do que temos lido em alguns textos, n√£o consideramos o We¬īre Metal And Fire ... o √°lbum de estreia, mas sim o Why not You?, editado em 2003 juntamente com os Stowaways.

O disco foi gravado em Novembro de 2007 e levou cerca de um ano a ver a luz do dia. A pergunta é quase igual à anterior: o que motivou este intervalo algo prolongado?

O intervalo deve-se ao processo de edição de um disco, desde a edição do áudio, passando pela mistura, overdubs, masterização e artworks, que envolveu o trabalho de muitas pessoas até se chegar ao objecto físico em si.

Sentem que estes hiatos vos fizeram perder algumas oportunidades, ou mesmo o esp√≠rito do tempo? Se me permitem associar-vos ao r√≥tulo p√≥s-rock, pode dizer-se que, em 2001, este era um g√©nero que ainda estava na ‚Äúm√≥ de cima‚ÄĚ, e agora nem por isso‚Ķ

Na minha perspectiva n√£o perdemos nada de especial. Se calhar, tivemos alturas de maior exposi√ß√£o, o que n√£o nos fez alterar um mil√≠metro do que ach√°vamos que estaria correcto em cada situa√ß√£o. N√£o fazemos m√ļsica com o objectivo de procurar o que est√° na m√≥ de cima ou o raio‚Ķ

O rótulo pós-rock chateia-vos?

Nunca pensamos a m√ļsica dessa forma, mas se algu√©m quiser utilizar esse r√≥tulo ningu√©m vai ficar chateado e todos gostamos de algumas bandas consideradas p√≥s-rock.

Os altos e baixos r√≠tmicos e de intensidade s√£o uma das caracter√≠sticas da vossa m√ļsica‚Ķ

Em determinada altura, come√ßamos a ver as m√ļsicas como um desafio, aumentando sempre o grau de complexidade, a n√≠vel da composi√ß√£o. N√£o duma forma exageradamente t√©cnica, mas duma forma em que se torne inesperada e pop.

Foi o Francisco Silva (ou, dito de outro modo, Old Jerusalem) que escreveu as letras deste disco. Como √© que articularam o trabalho? Ele entregou-vos os versos e afastou-se completamente do processo de os ‚Äúencaixar‚ÄĚ nas melodias ou esteve presente em alguns momentos?

Foi uma experiência curiosa, visto que este disco esteve perto de ser instrumental. Mas como tínhamos vários elementos vocais, linhas de orientação, alguém teve a ideia de convidar o Francisco a escrever as letras em tempo recorde, como se de um desafio se tratasse. Depois de receber as demos com melodias definidas, ele ajudou-nos a encaixar as palavras nos sítios certos.

O lirismo desencantado do Francisco Silva est√° presente no disco, tal como no projecto Old Jerusalem. Pensaram sempre que a escrita dele se encaixaria bem no vosso trabalho?

O trabalho que o Francisco desenvolveu foi uma boa surpresa para nós, uma vez que nunca esperamos que ele escrevesse algo do género.

N√£o sei se h√° mais bandas a faz√™-lo, mas como surgiu a oportunidade de gravar no Passos Manuel? H√° algo de interessante sobre as sess√Ķes, relacionado com o ambiente da sala, que queiram contar?

Inicialmente, o disco era para ser gravado num est√ļdio, mas a Bor Land sugeriu essa possibilidade, que aceit√°mos. √Č uma sala de que gostamos, com boa ac√ļstica, e onde t√≠nhamos realizado alguns concertos, e a ideia era que a grava√ß√£o fosse pr√≥xima de um concerto ao vivo. Estivemos sete dias, √† luz de candeeiros, muitas vezes a bater o dente, e aumentamos o n√ļmero de ‚Äútascas‚ÄĚ que conhecemos nesses dias. Aproveitamos para agradecer ao Passos Manuel e √† GDA [Cooperativa de Gest√£o dos Direitos dos Artistas int√©rpretes ou Executantes], que nos apoiaram nesta edi√ß√£o.

Qual √© o vosso objectivo para os pr√≥ximos meses? Mostrar o novo ‚Äúrebento‚ÄĚ pelo pa√≠s fora?

O nosso objectivo √©, al√©m de mostrar o novo disco um pouco por todo o pa√≠s, experimentar novos temas que j√° est√£o a ser desenvolvidos, mantendo sempre o esp√≠rito de mudan√ßa que nos d√° alento. Est√° tamb√©m prevista a colabora√ß√£o com novos m√ļsicos nos pr√≥ximos tempos.

A entrada e a sa√≠da de m√ļsicos da banda tem sido algo quase constante. Acham que daqui a 10 anos ainda vamos ouvir falar dos Alla Polacca?

Creio que temos neste momento uma forma√ß√£o s√≥lida, o que nos d√° espa√ßo para experimentarmos mais op√ß√Ķes no futuro...


Jo√£o Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net
01/12/2008