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Mariana Ricardo
Uma princesa do seu tamanho


Discretamente, sem provocar ruídos desnecessários, Mariana Ricardo vai descrevendo, no céu deste jardim, um arco-iris musical que engloba muito mais tonalidades do que as que se antecipariam a alguém principalmente interessado em conjugar, de várias formas, a simplicidade do predilecto ukulele, das canções de dois acordes e dos arranjos vedados a complicações. Fica a ideia de que, para Mariana obter as cores que pretende, basta tentar diferentes combinações das (poucas?) que comporta na sua palete. Não se julgue, contudo, que o “basta tentar” denuncia apenas facilidades. Antes indicará a naturalidade e um certo “minimalismo descomplexado” como características salientes das composições de Mariana Ricardo.

A verdade é que, independentemente da origem, toda esta tinta rega, desde há muitos anos, uma carreira tão transversal quanto desigual: essa que germinou nos alvos preferenciais de culto Pinhead Society (cume do indie nacional) e que actualmente se estende ao intercâmbio de linguagens instrumentais do ensemble München e aos riffs assanhados dos Rock Group Tiger. Carreira essa cujas qualidades também se verificam na composição das sublimes bandas-sonoras para filmes de Manuel Mozos e Miguel Gomes (com quem também co-escreveu o argumento da saga popular - e candidato a filme do ano - Aquele Querido Mês de Agosto), e na escrita de canções, tão perfeitamente votadas aos seus próprios ciclos pop, que se parecem com os números 1 (“My Case is a Different One”) e 3 (“Sunday is a Common Day”). A numerologia pode ser avaliada no próximo dia 20 de Setembro, um conveniente Sábado, quando Mariana Ricardo fizer do Aquário da Zé dos Bois, em Lisboa, o seu quarto improvisado (com ou sem astros luminosos). Em entrevista, falou um pouco de tudo isso e curou as insónias de quem vivia intrigado com determinada radiação de telemóvel desde os 18 anos.
Bem sei que lá deveria ter estado, mas como foi a última noite no Maxime? Quais são os desafios e recompensas peculiares das actuações em nome próprio?

O desafio maior foi arranjar um formato que resultasse para todas as músicas. As músicas foram surgindo em instrumentos diferentes - guitarra, ukulele, teclado - mas eu queria que o concerto fosse bastante simples, com poucos instrumentos e com um som simples. Então optei por adaptar as músicas todas para ukulele, baixo e um mini-kit de bateria. Contei com a ajuda preciosa do Nuno Pessoa na “bateria” e na voz e do Bruno Duarte no baixo.

A recompensa é a mesma dos outros concertos: as pessoas no fim dizerem de sua justiça. Bem ou mal. É sempre uma recompensa saber que as pessoas estiveram atentas e que se interessam pelo que estás a fazer.

A “Sunday is a common day” fez-me pensar se acharias que aquele anti-clímax e tédio típico de alguns Domingos são propícios à composição de canções que assentem em ideias simples. O que achas?

Sim, claro. Aliás, a música fala um bocado sobre isso. Especialmente Domingos de Inverno. Se bem que não é propriamente tédio. É mais aquela preguiça...

Acreditas que podes já ter um conjunto de canções suficientemente sólido para pensar num lançamento em teu nome ou ainda é apenas vislumbrável essa hipótese?

Vou pensando nisso de vez em quando. Faltam-me letras.

Sentes que estavam aglomeradas na “A Cockle in the Shell” do Kings of Our Size parte das linguagens musicais e métodos de composição em que te virias a concentrar mais tarde?

Não fui eu que fiz essa música. Foi a Joana, a baixista. Letra e tudo. De qualquer forma não creio que eu tenha propriamente métodos de composição. As coisas saem-me. Quando eu gosto, dou graças a Deus e continuo a trabalhar. Quando não gosto, vou dar uma volta.

De que tipo de orientação necessitas por parte do Miguel Gomes na colaboração que mantêm? Para dares início ao processo de composição para os seus filmes, basta às vezes teres noção do argumento ou preferes mesmo o acesso a algumas imagens?

Normalmente eu começo a trabalhar com os filmes quase montados. Tanto com o Miguel Gomes como com o Manuel Mozos, com quem também já trabalhei duas vezes. Vejo, conversamos um bocado sobre algumas ideias e depois vou apresentando coisas. Dessas coisas escolhe-se o que mais se adequa e depois volto a trabalhar nelas até “bater certo”.

Até que ponto estiveste envolvida no Aquele Querido Mês de Agosto?

No que diz respeito à música do filme, fiz a pesquisa e a escolha dos temas juntamente com o Miguel Gomes. Fiz também os arranjos para os cinco temas que a banda do filme - os Estrelas do Alva - tocam ao vivo. À parte disso co-escrevi o argumento com o Miguel e o Telmo Churro.

Manténs algum tipo de predilecção por um exemplo nacional ou internacional em termos de composição para filmes?

Nem por isso. Para dizer a verdade, não costumo prestar muita atenção às bandas sonoras dos filmes. É estranho mas é o que acontece, não sei porquê.

Ainda sobre os filmes, perguntava-te também se, no geral, acabam por ser os personagens ou as situações em si aquilo que mais te move no elaborar das primeiras “ideias” que referiste?

Acho que é sempre o conjunto de todas as coisas. Não só as personagens e situações, mas também a fotografia, o ritmo da montagem, a maneira como está filmado… Mesmo que não seja de uma forma muito consciente, tudo acaba por ter influência.

Agora que já passou algum tempo sobre esse acontecimento, até que ponto dirias que a distribuição gratuita daquele disquinho (em tamanho e não qualidade) de München com o jornal Blitz foi importante para dar a conhecer a banda ao público?

Sinceramente não sei. Eu não sou uma pessoa muito atenta a essas coisas. A única referência que eu tenho é o número de pessoas que vai aos concertos e, infelizmente, acho que não mudou muito. Mas certamente deve ter dado a conhecer a banda a pessoas que à partida não iriam ter a curiosidade de a ouvir e isso é bom.

Que tipo de contributo tiveste no Fala Mongue de München? Que instrumentos te passaram pelas mãos na sua gravação?

Os do costume: guitarra de plástico, ukuleles, melódica… Mais uma coisinha ou outra. Normalmente sou eu que faço as minhas partes - as linhas que toco - e escolho o instrumento que quero tocar. Outras vezes já há uma linha que alguém fez e que me dá para eu tocar. O contrário também pode acontecer mas é mais raro. No Fala Mongue estão várias fases da banda: há músicas que são só do Bruno Duarte (gravação inclusive); há músicas que são do Bruno mas que foram tocadas pelos outros elementos da banda; e há outras que partiram de um elemento - o Bruno, o João Nicolau ou eu - e que são compostas de uma forma mais colectiva.

Sentes que tocar nos Rock Group Tiger retarda a evaporação daquela “pica” de tocar numa banda rock quando se tem 16 anos?

Não. Isso não se evapora. Pelo menos no meu caso.

Não sentes às vezes que manter essa “pica” dos primeiros ensaios e tudo mais serve como forma saudável de não esquecer as motivações iniciais e preservar a juventude?

Olha, falando muito sinceramente: eu não sei quais foram as minhas motivações iniciais. Não sei porque é que me deu para aqui. Pode ser pouco romântico mas é assim. E também não me concentro muito em preservar a juventude. Não faço as coisas para me sentir jovem, faço as coisas porque faço. Acho que nem sequer tenho opção. Tenho só sorte.

Tanto quanto sei, estudaste na FCSH. Eu também. Desenvolveste por lá algumas amizades que te tenham levado a novas iniciativas musicais? Era difícil conjugar os estudos com o tempo que dedicavas à música? Sentes que o compromisso académico levou a que música tivesse de sofrer um adormecimento necessário?

Eu não fui grande estudante, nunca senti um compromisso académico. Durante esse tempo se eu tivesse música para fazer estudava menos. Era assim que eu conjugava as coisas. Quanto a amizades, acho que nem sequer conheci ninguém que fizesse música. Mas também parava lá pouco.

Sei da tua predilecção por instrumentos de cordas de diferentes países. Em alguma altura viveste aquela sensação de um só instrumento conduzir, em pouco tempo, a uma fornada de canções que te satisfazem ou entusiasmam de imediato?

Eu faço uma canção de vez em quando. Nunca fiz uma fornada de canções em pouco tempo. Gostava mas nunca aconteceu. Para dificultar as coisas, essas canções aparecem sempre em instrumentos diferentes. O que tenho andado a fazer, como te disse há pouco, é passá-las todas para um só instrumento que é o ukulele. É um instrumento muito simples mas que permite fazer muitas coisas. É sem dúvida o meu favorito.

Gostava de saber se alguma vez te sentiste particularmente impressionada por uma grande fornada de óptimas canções de um qualquer "songwriter" e de como a formou em tão curto espaço de tempo?

O Pedro Martins dos Deolinda. Aquilo não pára. E não é impressionada, é invejosa mesmo.

Será provavelmente uma questão recorrente, mas gostava mesmo de saber como observas o facto da devoção aos Pinhead Society ter sobrevivido todos estes anos – em jeito de bola de neve – por acumulação do afecto que ainda lhes é dedicado por todo aquele pessoal que guarda religiosamente as primeiras cassetes e tudo mais? Encontras explicações mais ou menos evidentes para isso?

Humm… Eu quase não observo esse facto. Mas é bom quando alguém me diz que gostava - ou que ainda gosta - de Pinhead. É porreiro.

Nunca houve sinal de planos que pudessem colocar de pé uma compilação de todo o material de Pinhead Society num só lançamento?

Não. Acho mesmo que isso nunca passou pela cabeça de nenhum de nós. Nós nunca fizemos planos quanto mais agora que não tocamos. Nem sei se a nossa editora ainda existe. Também não há assim tanto material...

Eu devo admitir que ainda hoje sou um pouco obcecado pelo Kings of Our Size, que me intriga e me diz muito pelas mais diversas razões, muitas delas difíceis de explicar. Em todo o caso, acho que me podias ajudar a resolver um dos seus enigmas: aquele som de radiação na “Heaven Must Be Boring” resultou de um feliz acidente ou foi mesmo planeado assim?


Se bem me lembro, nós estávamos a ouvir a música nas gravações e esse som aconteceu - por interferência de um telemóvel naturalmente. Nós gostámos e gravámo-lo. Não foi propriamente planeado, mas também não foi só um acidente…

Ainda te ocorre frequentemente aquela vontade de tentar uma canção de “dois acordes que todos pudessem cantar” ou esse é um daqueles ímpetos que foi sendo eclipsado por outras vontades?

Eu só sei fazer músicas de dois acordes. Por muito que tivesse vontade de compor uma sinfonia não ia conseguir. Não sei quantos acordes tem uma sinfonia... Nem sei se tem acordes... Não percebo nada disso. Dois acordes para mim está óptimo. Difícil é pôr o pessoal a cantar. É preciso escrever uma letra e nessa parte é que eu me saio pior.

Que coisas tens escutado ultimamente?

Tenho ouvido muita música brasileira dos anos setenta (Novos Baianos, Caetano Veloso, Tom Zé) e algum samba (Paulinho da Viola, Cartola). Também ouço ‘música do mundo’ – Indonésia, Havai, Madagáscar, África (oriental, principalmente). Não tenho andado a ouvir muitas bandas rock mas é só uma fase.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
09/09/2008