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Magik Markers
(Des)alinhar os shakras à patrão


Os mais atentos ao percurso dos Magik Markers devem j√° ter percebido que ocasionalmente √© tamb√©m saud√°vel esmurrar a l√≥gica na zona dos rins e, com esse golpe, assumir o cargo de chefe m√°ximo de um rock enterrado at√© √† cintura num lodo de efeitos, pouco preocupado com a sua pr√≥pria higiene, pertencente a uma classe √† parte. Pode ser rent√°vel algu√©m perder-se para s√≥ depois encontrar-se. Essa √© uma f√°bula recorrente e sucedeu-se tamb√©m com uns Magik Markers que foram primeiramente jet-set experimental (por via de magn√≠ficos discos afectados por ciclos ca√≥ticos e temperamentos vol√°teis), manipuladores do seu pr√≥prio trash infeccioso, sendo que s√≥ ultimamente recusaram seguir o rumo que lhes era apontado pela mesma estrela do azar, enveredando pela sorte das can√ß√Ķes com cabe√ßa, tronco e membros que se descobrem ao √ļltimo Boss, que, al√©m de ter saciado as fantasias m√≥rbidas de quem sempre sonhou ver os Sonic Youth reduzidos a uma anatomia mais esquel√©tica e disfuncional, contava com a sempre estimada produ√ß√£o do Senhor Lee Ranaldo. Reduzidos a duo, ap√≥s a sa√≠da amig√°vel da baixista Leah Quimby, a lasciva Elisa Ambrogio e o companheiro de armas Pete Nolan prometem, √† passagem por Portugal, anunciar o fim e o inicio de todas as terapias new wage, alternando entre o alinhamento e desalinhamento dos shakras - distribu√≠dos pelos instrumentos e recursos humanos - √† medida que a ocasi√£o for avan√ßando. Depois de concertos por c√° que formaram lenda atrav√©s de um boca-a-boca sem paramento, √© simplesmente triste n√£o aproveitar o regresso do circo quando, no pr√≥ximo dia 17 de Abril, assentar arraiais no Plano B do Porto e dois dias mais tarde (19 de Abril) no Museu Nacional de Arte Contempor√Ęneo, ao Chiado, em Lisboa. A primeira-parte do sarau lisboeta (a come√ßar pelas 18:30) fica a cargo da lo-fi kiwi de Pumice. Entretanto, o polivalente (geralmente encarregue da bateria) Pete Nolan arrumou a curiosidade do Bodyspace com uns bitaites disparados √† patr√£o.
Como tens passado? Que tens feito ultimamente?

Acabei de adquirir a minha carta de condução internacional e tenho carregado um saco de 20 quilos de cosméticos por toda a parte de Manhattan e Brooklyn.

Vais estar encarregue de conduzir durante a próxima digressão Europeia?

Hmmm... Sim, durante grande parte da digress√£o. Vamos alugar um carro quando chegarmos a Inglaterra. Creio que o Nelson (Gomes) ou o Pedro (Gomes) conduzir√£o quando andarmos por Espanha e Portugal.

At√© que ponto foi a liberdade do Lee Ranaldo quando gravou o Boss? Parece-me que uma faixa como ‚ÄúLast of the Lemach Line‚ÄĚ podia t√™-lo a gritar Hello 20-15! Hello 20-15! durante uma qualquer altura daquela espiral flutuante de guitarras. Alguma vez sentiram que ele podia ter contribu√≠do com algo mais para o disco?

N√£o. Acho mesmo que fez um excelente trabalho. Tem um bom ouvido.

Mant√©ns-te a par dos outros projectos do Lee como os Text of Light? Que duas qualidades lhe apontarias como cruciais ao vosso prov√°vel empolgamento durante as sess√Ķes de grava√ß√£o de Boss?

Sim, j√° vi o Lee a tocar a solo, em Sonic Youth e tamb√©m nos Text of Light. Ele parece estar sempre a canalizar uma energia soberba a partir de um qualquer colectivo invis√≠vel. N√£o consigo pensar em muitas outras pessoas que actualmente consigam unir palavras e som com tanta efici√™ncia quanto ele. Est√°vamos muito entusiasmados com a perspectiva de trabalhar com ele pelas raz√Ķes que referi. Acontece que ele √© muito mais organizado em est√ļdio do que eu imaginava. Era disso que realmente necessit√°vamos.

Quais foram as reac√ß√Ķes mais agrad√°veis que obtiveram em rela√ß√£o ao Boss desde que saiu?

T√™m-se multiplicado as √≥ptimas reac√ß√Ķes. Ningu√©m o arrasou por completo. Foi porreiro conhecer o Mike Wolf da Time Out (New York). Acho que o considero um novo amigo e creio que isso possa ter resultado directamente do facto de ele curtir o disco. Al√©m disso, o meu amigo de liceu Kris Khouri perdeu algum tempo a procurar-me porque tinha escutado o disco e adorado. Essa tamb√©m foi uma reac√ß√£o porreira.

Quais foram para ti os factores decisivos para que optassem por continuar enquanto Magik Markers mesmo após a saída da Leah (Quimby)? Estavam já entusiasmados com algum material recente quando essa situação ocorreu? Calculo que tenha sido difícil...

Nem por isso. √Č claro que sentimos imensa falta dela, mas havia e continua a haver um monte de coisas a fazer no que respeita a Magik Markers. Ainda continuamos empenhados em criar uma obra-prima.

Achas que essa obra-prima que procuram podia eventualmente sair sob a forma de cd-r ou edi√ß√£o limitada, ou teria necessariamente de ser um disco completo de est√ļdio?

Acho que, se viermos a alcançar aquilo que procuramos, esse disco virá a encontrar-se disponível para todos. Gosto de acreditar que, até à data, o nosso melhor material esteve abrangentemente disponível.

Sentes-te bem com o facto do The Volodor Dance poder ser dado como Desparecido em Combate em breve?

√Č p√°... Eu curto mesmo esse disco, mas gosto do facto de existir na quantidade limitada em que foi lan√ßado.

Fala-me um pouco daquela actua√ß√£o em Louisville inserida no √Ęmbito Burn to Shine. Era muito diferente o vosso sentimento nessa ocasi√£o? Parece-me que uma faixa como a ‚ÄúCircle‚ÄĚ podia enquadrar-se bem num lugar como aquele...

Isso j√° saiu? Ainda n√£o vi. N√£o me lembro muito bem, mas tenho a impress√£o de que perdemos os ‚Äúcarretos‚ÄĚ durante praticamente vinte minutos. Sei, mesmo assim, que a casa era completamente fixe. Era um pouco como a casa do tipo do Sil√™ncio dos Inocentes, caso ele fizesse bricolage em vez de vestidos com a pele de mulheres.

Existem novidades em relação ao DVD que, supostamente, incluiria alguns videos dos vossos primeiros tempos? Dirias que a quantidade e qualidade desses vídeos é comparável à que reuniram na Fall Brawl Tour em 2005?

Acho que esse DVD afinal nunca virá a sair. A Ecstatic Peace tem centenas de horas de filmagens de Magik Markers recolhidas durante várias temporadas da nossa história. Acontece que transferiram tudo isso para um disco rígido que subsequentemente deu o berro. A certa altura, diria que existiam vídeos fantásticos, mas acho que tudo isso foi à vida e nunca mais voltará. O melhor era ter lá estado para ver.

Ao tocarem ao vivo ultimamente, ap√≥s o lan√ßamento do Boss, sentiram-se mais tentados a rockar com outra for√ßa ou a foder de alto a baixo as estruturas das m√ļsicas, nem que fosse para arruinar aquela no√ß√£o entretanto surgida e que leva alguns a dizer Oh n√£o... Estes tipos agora tocam can√ß√Ķes com tudo no lugar...?

N√£o me parece que estejamos interessados em ‚Äúfoder as estruturas de alto a baixo‚ÄĚ diante de um p√ļblico. Apenas queremos absorver o conte√ļdo das nossas fontes energ√©ticas e tentar fazer fluir isso atrav√©s das colunas e da bateria. √Äs vezes √© atrav√©s das nossas m√ļsicas, outras vezes ser√° atrav√©s de composi√ß√Ķes instant√Ęneas. Acho que viremos a experimentar muito novo material nesta digress√£o.

Podias-me esclarecer um pouco acerca da direcção que tem tomado esse novo material?

Hmmmm‚Ķ N√£o sei bem ‚Äď diria que soa pr√≥ximo de caramelo confeccionado nos mais g√©lidos confins do espa√ßo.

A cada vez que andam em digress√£o pela Europa s√£o obrigados a deixar em casa alguns dos instrumentos habituais?

Bem... Sim, deixamos em casa as baterias, amplificadores e outro tipo de equipamento que diria ser mais suplente. Em termos de instrumentos, a Elisa trar√° consigo a Fender Strat ‚Äúcanhota‚ÄĚ, v√°rios pedais de efeitos, e possivelmente o seu novo violino. Eu vou tocar bateria, tapes, flauta de madeira, guitarra e possivelmente um teclado Casio com v√°rios efeitos.

√Č porreiro a Elisa ter um novo violino. Ela tem tentado novas cenas com o violino?

Creio que sim. Mas ainda n√£o a ouvi a toc√°-lo.

√Č poss√≠vel que venham a dividir m√£os entre os v√°rios instrumentos ou √© mais prov√°vel que venham a trabalhar com loops?

Eu devo alternar um pouco entre os instrumentos e gravar uns loops também.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
14/04/2008