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Victor Gama
A desmistificação do complexo de Babel


Tudo o que se escreva acerca da obra incansavelmente cultivada por Victor Gama arrisca-se a soar incompleto √† medida que o tempo passa, tal √© margem de progresso que o m√ļsico luso-angolano garante aos seus projectos, conceitos e instrumentos, que podem ser tomados como laborat√≥rios de cria√ß√£o e investiga√ß√£o mantidos em aberto. Sobre o abrangente alcance de Victor Gama, refira-se resumidamente que se encontra bem patente no seu papel como vital pedra-de-toque na facilita√ß√£o de rotas de tr√Ęnsito prestadas √†s manifesta√ß√Ķes art√≠sticas e executantes oriundos do continente Africano e restantes territ√≥rios em contacto com o Oceano Atl√Ęntico, nas longas dist√Ęncias percorridas com vista ao registo de manifesta√ß√Ķes musicais territorialmente isoladas, na desmistifica√ß√£o de um complexo de Babel atrav√©s da aproxima√ß√£o entre linguagens e dialectos musicais que possam, por efeito da eros√£o temporal, ter esquecido as ra√≠zes comuns. Victor Gama concebe, toca e exp√Ķe um pouco por toda a parte os seus pr√≥prios Pangeia Instrumentos que viram, em 1999, o seu momento documentado em Pangeia Instrumentos, marco da m√ļsica ac√ļstica que foi depois reeditado na Rephlex de Aphex Twin, onde desafiou as regras da casa por ser o primeiro registo sem qualquer elemento de electr√≥nica.

A aclama√ß√£o n√£o resultou em acomoda√ß√£o e a mesma din√Ęmica sente-se a iniciativas mais recentes que exemplificam bem a aten√ß√£o prestada ao que se passa al√©m da redoma ocidental: Perif√©rico re√ļne m√ļsica a roteiros raramente merecedores de visibilidade que lhes fa√ßa justi√ßa, sendo que a coluna Global Ear da edi√ß√£o de Abril da reputada revista Wire, conta novidades acerca da electr√≥nica desafiante e curas xamanistas verificadas in-loco em Bogot√°, na Col√īmbia. Alguns destes temas e muitos outros pontuaram uma conversa aprofundada com Victor Gama.
Quais foram os primeiros passos dados rumo à concepção de Periférico? Como se sucedeu a iniciativa? Interessava-lhe de antemão trabalhar o formato característico da Sonic Arts Network?

Perif√©rico surge de um convite feito pela Sonic Arts Networks, um email que aterrou inesperadamente na minha caixa de correio sem que eu sequer conhecesse a organiza√ß√£o baseada em Londres. O convite era um desafio a criar o conceito para uma compila√ß√£o da s√©rie de Guest Curated CDs que lan√ßam a cada trimestre e num formato de livreto de 18 x18 cm com v√°rias p√°ginas ilustradas e um CD no interior. Depois de me enviarem a colec√ß√£o completa, que inclui √°lbuns compilados por artistas e compositores como Irwin Chusid, Stewart Lee, Keneth Goldsmith e a core√≥grafa japonesa Junko Wada, apercebi-me do tipo de traject√≥rias e incurs√Ķes que a SAN deliberadamente propunha fazer utilizando a perspectiva √ļnica e inesperada do artista convidado. Consequentemente a total liberdade que este tinha em usar o recurso oferecido, desde o conceito, passando pelo t√≠tulo, textos, ilustra√ß√Ķes e mesmo o design, at√© √† m√ļsica - puseram-me a imagina√ß√£o a fervilhar e inquietaram-me quanto bastasse para aceitar imediatamente o convite e iniciar uma viagem de quase um ano √† procura de m√ļsica. O conceito que me surgiu instantaneamente foi o de fazer algo com as zonas de sil√™ncio que existem um pouco por todo o lado mas concentrando-me em m√ļsicos e compositores de pa√≠ses n√£o ocidentais, uma vez que os anteriores CDs SAN inclu√≠am quase exclusivamente m√ļsicos e compositores americanos, ingleses e alguns europeus do continente. Desta forma respondia aos pr√≥prios des√≠gnios da Sonic Arts Network de ‚Äúpermitir tanto √†s audi√™ncias como aos criadores envolverem-se com a arte do som de forma diversificada, acess√≠vel e inovadora‚ÄĚ e mostra-lhes o que fazem artistas contempor√Ęneos de pa√≠ses a que normalmente apenas se associa a produ√ß√£o de ‚Äúworld music‚ÄĚ. Perif√©rico surge tamb√©m como uma esp√©cie de provoca√ß√£o ao colocar um √™nfase na m√ļsica que se faz para al√©m da bolha que o ocidente cria com os seus sistemas de controle absoluto de mercados globais atrav√©s das ind√ļstrias de entretenimento. Assim surge o subt√≠tulo Sounds from beyond the bubble e uma selec√ß√£o de m√ļsicos do Ir√£o, L√≠bano, Palestina, Col√īmbia, Egipto, Brasil, Angola, Peru e Ucr√Ęnia.

Das perspectivas e critérios de selecção que conhecia aos anteriores participantes na série da SAN, houve algum que lhe tivesse suscitado maior atenção?

A que mais me cativou foi a do escritor, realizador e comediante Stewart Lee que tem por t√≠tulo The Topography of Chance, inspirado no livro de Emmett Williams An Anecdoted Topography of Chance. Emmet Williams foi um dos fundadores do movimento dada√≠sta Fluxus. O disco tem participa√ß√Ķes de Mark E. Smith, Evan Parker, Derek Bailey mas o que mais me surpreendeu foi um tema de Jon Rose intitulado "The Shouting Fence". Jon Rose √© um compositor muito peculiar que viaja pelo mundo inteiro a tocar e gravar cercas, normalmente de arame farpado, e que dividem aldeias, cidades ou povos. Neste tema ele grava a "shouting fence", uma cerca de arame armadilhada que divide uma aldeia druza nos montes Gol√£, entre a S√≠ria e Israel. Os seus habitante usam megafones para se comunicar de um lado para o outro da cerca, gritando Como est√° a tia?... Ouvi dizer que tal e tal se iam casar... Que mau tempo est√° hoje ....

De que modo, se algum, o resultado final de ‚ÄúPerif√©rico‚ÄĚ coloca em pr√°tica os conceitos por si explorados?

Em Perif√©rico procurei compositores que tivessem desenvolvido a sua pr√≥pria voz e linguagem baseando-se de uma forma ou outra nas culturas dos seus pr√≥prios pa√≠ses e civiliza√ß√Ķes, mas com uma perspectiva explorat√≥ria. Atrav√©s dos textos apresentados, que s√£o escritos por estes, foi poss√≠vel dar a conhecer os conceitos e abordagens que utilizam. O √™nfase estava nas concep√ß√Ķes de cada um, os seus pontos de partida e chegada, motiva√ß√Ķes e recursos empregados e assim adivinhar o seu sentir, as suas vibra√ß√Ķes e pulsa√ß√Ķes.

Estou certo de que s√£o muito curiosas algumas das hist√≥rias em torno das m√ļsicas que formam Perif√©rico. Existe alguma que lhe pare√ßa merecedora de destaque? Um epis√≥dio interessante parece-lhe indicativo de que √© igualmente cativante a m√ļsica que proporciona?

Cativou-me particularmente o exemplo de Boikutt, um dos integrantes dos Ramallah Underground da Palestina, provavelmente o √ļnico que contraria o conceito do disco por ter um tema assumidamente Hip-Hop. As conversas por chat com Boikutt deram-me a conhecer mais de perto a real dimens√£o da situa√ß√£o de apartheid que Israel imp√Ķe ao Palestinianos com a total coniv√™ncia dos governos europeus e americanos. N√£o se podem enviar discos para Ramallah pois s√£o abertos, destru√≠dos e rabiscados de insultos a vermelho por funcion√°rios da alf√Ęndega israelita, que no entanto os fazem chegar ao seu destinat√°rio, talvez acompanhados de um certo prazer masoquista. As cartas s√£o abertas e censuradas com marcadores usando exactamente os mesmos procedimentos de uma pris√£o de alta seguran√ßa. Boikutt deu-me a conhecer outras bandas e projectos de m√ļsica electr√≥nica de dan√ßa em Ramallah, Betlehem e outras cidades palestinianas, quando na realidade jamais ouviria falar delas se n√£o fosse atrav√©s dele, embora este panorama esteja a mudar com o MySpace. √Č nestas situa√ß√Ķes de comunica√ß√£o directa com algu√©m do outro lado do muro que me apercebo qu√£o errada e manipulada √© a imagem do outro que os m√©dia ocidentais fazem passar. Neste sentido, a m√ļsica que Boikutt faz √© absolutamente imprescind√≠vel e transcende g√©neros e estilos porque √© uma linguagem do fundo do cora√ß√£o que, na sua despojada honestidade, denuncia a barb√°rie, hipocrisia, falta de valores e desrespeito pelos direitos humanos praticados por Israel.

Que outros nomes foram esses que Boikutt lhe deu a conhecer? Sente que as adversidades do meio podem, de alguma forma, estimular esses m√ļsicos palestinianos?

Ele falou-me de uma quantidade de grupos, n√£o me lembro dos nomes, mas n√£o acredito que adversidades como as que os palestinianos atravessam possam servir de est√≠mulo para o que quer que seja de criativo. O √ļnico est√≠mulo que devem ter √© o de combater com tudo aquilo que lhes vem √† m√£o, e muito legitimamente, os agressores israelitas que os espezinham de forma t√£o execr√°vel.

At√© que ponto acha que o Perif√©rico oferece uma amostra do seu espectro sonoro ao incluir tr√™s composi√ß√Ķes que o registam em igual n√ļmero de √Ęmbitos diferentes?

Apenas um tema do √°lbum √© unicamente meu em termos de composi√ß√£o, ‚ÄúHuyra e Coma‚ÄĚ. O tema ‚ÄúMensagem a Luanda‚ÄĚ √© um tema a dois com o compositor Dembo de uma aldeia remota do interior de Angola, e ‚ÄúCon Licensia‚ÄĚ √© um tema colectivo do projecto Odantalan que produzi em Luanda em 2002 com m√ļsicos do Brasil, Angola, Col√īmbia e Cuba. S√£o temas que se enquadram em Perif√©rico pela natureza experimental dos projectos em que foram produzidos e que abordaram aspectos e elementos da cultura angolana, e no caso particular de Odantalan, as continuidades de um sistema de escrita gr√°fica proveniente do norte de Angola no outro lado do Atl√Ęntico, nas Cara√≠bas e Am√©rica do Sul. N√£o penso que Perif√©rico ofere√ßa uma amostragem completa do espectro sonoro do meu trabalho, mas tamb√©m n√£o √© importante, nem era minha inten√ß√£o usar este projecto para tal.

Presumo que fosse enorme a admira√ß√£o da parte de Richard D. James aquando do lan√ßamento de Pangeia Instrumentos na Rephlex. Esse sentimento √©, de alguma forma, rec√≠proco? Existem caracter√≠sticas na m√ļsica de Aphex Twin que o impressionam particularmente?

Confesso que apesar de conhecer o nome, nessa altura pouco conhecia da m√ļsica que fazia. N√£o estava muito virado para esse lado, embora me impressionem o seu ecletismo e poder de experimenta√ß√£o. Aphex Twin marcou toda uma gera√ß√£o de m√ļsicos em Inglaterra e no mundo inteiro e √© um desses m√ļsicos que conseguem estabelecer pontes entre o experimentalismo mais puro e duro e a m√ļsica de dan√ßa electr√≥nica. Sabia que ele tinha feito uma colabora√ß√£o com o Philip Glass e que esta tinha come√ßado por um simples bilhete rabiscado. No bilhete enviado a Glass, Richard convidava-o a tocar piano enquanto ele se divertiria a rodar uns bot√Ķes dos seus sintetizadores. Desta brincadeira nasceu o tema "Icct Hedral". Achei curioso que ele se tivesse interessado pela m√ļsica de Pangeia Instrumentos que eu tinha editado em 99 e que a Rephlex reeditou em 2003. O Richard ainda manifestou a inten√ß√£o de fazer uma remistura e chegamos a encontrar-nos na minha primeira passagem pelo Atlantic Waves em 2002. √Č uma pessoa extremamente t√≠mida e simples, o que n√£o ajudou muito a concretizar a tal remistura, mas ele foi dos primeiros a saltar para o palco no fim do concerto para ver e tocar nos instrumentos que apresentei.

Como disco que fez óptimo aproveitamento das tecnologias de gravação do seu tempo e atendendo a que essas não param de progredir, parece-lhe que Pangeia Instrumentos podia ser consideravelmente melhorado ou apurado com o equipamento disponível actualmente?

N√£o h√° muitas diferen√ßas em termos de equipamentos pois Pangeia Instrumentos foi editado em ProTools e gravado num G4 com microfones AKG razo√°veis. √Äs vezes ainda vou a essa vers√£o de ProTools, no meu G4 reformado e que descansa estrategicamente debaixo da minha secret√°ria. De momento, uso a √ļltima vers√£o do ProTools num MacBook Pro e estou a trabalhar com um software de modela√ß√£o 3D, o Rhino, e um renderizador super bom, o Vray, na constru√ß√£o de quatro instrumentos totalmente novos para o National Museums of Scotland em Edimburgo. Este software mudou toda a minha forma de trabalhar, transformando a minha oficina de constru√ß√£o numa oficina virtual, o que me permitiu libertar espa√ßo e tempo para o est√ļdio e libertar-me a mim desse trabalho de constru√ß√£o manual. Nunca tive a inten√ß√£o de ser um luti√™ ou um construtor de instrumentos e, por isso, √© um al√≠vio n√£o ter de executar as tarefas √°rduas da constru√ß√£o como furar, serrar, lixar. Actualmente todas os componentes dos instrumentos que construo s√£o mandados fazer em m√°quinas de controle num√©rico, frezadores CNC, corte a laser, impress√£o 3D a laser, etc.. Entretanto os instrumentos que usei em Pangeia Instrumentos t√™m vindo a melhorar e existem mesmo alguns novos instrumentos que tomaram um certo protagonismo, como √© o caso da Toha, uma harpa de 42 cordas. O √°lbum Pangeia Instrumentos aparece numa das v√°rias transi√ß√Ķes que fiz ao longo dos anos e √© um trabalho que penso que atingir√° a sua maturidade com o √°lbum Aisa Tanaf que est√° em prepara√ß√£o. Aisa Tanaf √© a continua√ß√£o de uma narrativa que iniciei com o √°lbum Oceanites Erraticus,que embora tenha sido editado em 2001, √© quase totalmente dedicado ao trabalho para guitarra de doze cordas com temas que vinham desde 95 e alguns temas para os Instrumentos Pangeia. Oceanites Erraticus encerra um ciclo, enquanto que Pangeia Instrumentos abre um novo ciclo e portanto carrega consigo as imaturidades de uma primeira iniciativa.

Em termos de ‚ÄúPangeia Instrumentos‚ÄĚ, que √ļltima cria√ß√£o destacaria como aquela que melhor proveito ofereceu nos √ļltimos 2/3 anos de actua√ß√Ķes ao vivo? Existe algum que se encontre actualmente em desenvolvimento na ‚Äúoficina‚ÄĚ?

O Acrux √© sem d√ļvida o instrumento que mais se destaca, embora a Toha e o Dino, um instrumento de fric√ß√£o de uma corda s√≥, e o uso do computador e de processadores de efeito em palco tenham vindo a alterar por completo a actua√ß√£o ao vivo. O √ļltimo espect√°culo que montei, SOL(t)O, e que comecei a mostrar o ano passado no Porto, Barreiro e em Cape Town √© j√° mais concentrado na harpa de 42 cordas e na pesquisa da palete de sons dos ‚ÄúPangeia Instrumentos‚ÄĚ atrav√©s do Ableton Live. SOL(t)O est√° programado para a Expo Zaragosa em Agosto 2008, onde espero culminar esse trabalho de entrosamento entre instrumentos ac√ļsticos e ferramentas electr√≥nicas. Espero poder apresentar SOL(t)O em Zaragosa com duas vers√Ķes novas da Toha e do Acrux.

Que factores levaram a que Naloga permanecesse um pouco como um disco perdido no tempo (se não estou em engano)? Chegou em alguma altura a ser lançado? Qual é o estatuto actual de Naloga?

A hiberna√ß√£o de Naloga resulta de um acidente de percurso que fez com que nunca tivesse sido lan√ßado embora tenha chegado √† fase final de produ√ß√£o. √Č ali√°s a metamorfose de um material anterior que estava completo, mas teve dificuldades de parto e nunca nasceu. Naloga est√° destinado a nascer quando for a altura certa e reporta sim a um tempo e a um espa√ßo perdido. √Č ao mesmo tempo um trabalho hist√≥rico por se debru√ßar sobre um per√≠odo da hist√≥ria contempor√Ęnea de Angola e uma viagem atrav√©s de percursos de conflito na √Āfrica Austral. Temas como ‚ÄúHuyra‚ÄĚ, ‚ÄúComa‚ÄĚ e ‚ÄúMensagem a Luanda‚ÄĚ, que aparecem em Perif√©rico, fazem parte do alinhamento de Naloga. Outros temas que resultaram de viagens a Cuba e √† √Āfrica do Sul e que t√™m a participa√ß√£o de m√ļsicos destes pa√≠ses tamb√©m estar√£o inclu√≠dos no √°lbum.

Que futuro próximo se encontra reservado ao Colectivo Odantalan?

Odantalan √© um programa de interc√Ęmbio art√≠stico e de cria√ß√£o contempor√Ęnea baseado nas heran√ßas e tradi√ß√Ķes Afro-Atl√Ęnticas nas √°reas da m√ļsica, express√£o corporal, performance de combate, fotografia, hist√≥ria de arte e design gr√°fico. Em Odantalan o desenvolvimento de processos criativos contempor√Ęneos baseados numa heran√ßa cultural africana comum tem uma caracter√≠stica dominante que √© cultural, hist√≥rica e lingu√≠stica. Tem objectivos concretos tais como a reflex√£o e estudo das tradi√ß√Ķes de escrita da √Āfrica Central e as suas continuidades no Caribe e na Am√©rica do Sul, colocando estes sistemas de conhecimento no centro de um novo trabalho criativo. Estas antigas tradi√ß√Ķes de escrita, conhecidas em Angola como Bidimbo e anteriormente estudadas por antrop√≥logos e historiadores como Jos√© Redinha, Carlos Ervedosa, Henrique Abranches, Robert Farris Thompson, Bunseki Fu Kiau, Barbaro Martinez-Ruiz, entre outros, t√™m continuidades no Caribe e na Am√©rica do Sul nas tradi√ß√Ķes do Ponto Riscado (Brasil), Firmas (Cuba), V√™v√™ (Haiti), Foundation Drawing (Trinidad) com mais ou menos fus√Ķes com outros sistemas da √Āfrica Ocidental.

Odantalan foi um projecto planeado com prop√≥sito itinerante e o colectivo criado em 2001, aquando das minhas pesquisas em Cuba, Brasil e Col√īmbia √† procura de m√ļsica, m√ļsicos e demais participantes, teve o seu apogeu em Luanda numa resid√™ncia de cria√ß√£o art√≠stica de duas semanas. De 2002 a 2005, houve fortes iniciativas de forma a realizar o projecto em Salvador e em Bogot√° com mais viagens explorat√≥rias, mas foi praticamente imposs√≠vel voltar a conseguir os apoios financeiros que permitiram em 2002 trazer m√ļsicos, antrop√≥logos, lideres religiosos de Cuba, Col√īmbia, Brasil e Estados Unidos para Angola, organizar uma resid√™ncia art√≠stica, uma confer√™ncia, um concerto e workshops em Luanda e editar um livro e um CD. Como n√£o quis baixar a fasquia da qualidade do projecto, decidi que era prefer√≠vel concentrar energias noutros projectos mais leves do ponto de vista or√ßamental como Tsikaya, por exemplo, e deixar Odantalan por ali.

J√° agora, em que ponto se encontra o projecto Tsikaya actualmente?

Tsikaya √© um projecto de grava√ß√£o e promo√ß√£o da m√ļsica de compositores angolanos que vivem no meio rural, muitas vezes em regi√Ķes remotas e de dif√≠cil acesso, sem linhas de comunica√ß√£o com o exterior. Foi um projecto que iniciei em Angola em 1997, mas neste momento √© uma parceria com organiza√ß√Ķes locais e conta com um arquivo de m√ļsicas e m√ļsicos que gravei ao longo dos anos. Em breve vai ter uma base de dados e um site. O projecto tem tido v√°rias fases, mas estruturou-se melhor a partir de 2003, depois do fim da guerra, ano em que recomecei as grava√ß√Ķes na prov√≠ncia de Benguela numa parceria entre a minha associa√ß√£o PangeiArt e a associa√ß√£o cultural de Benguela, os Bismas. Durante dois anos criou-se uma rede de contactos que vai da cidade √†s aldeias e que nos permitiu n√£o s√≥ gravar uma s√©rie de m√ļsicos interessant√≠ssimos, mas tamb√©m algumas actividades que permitem divulgar a m√ļsica que fazem e dar a conhecer os instrumentos que tocam. Em 2007, consegui apoios da Prince Claus Fund da Holanda para iniciar o projecto na prov√≠ncia da Hu√≠la para onde deverei viajar em Maio pr√≥ximo e iniciar o trabalho de campo com uma organiza√ß√£o local, a ADRA. No final de 2008 deveremos ter um site e lan√ßar um CD em Angola, que, na realidade, ser√° o segundo a ser editado.

Em que situação ficou a colaboração com o Kronos Quartet? Pode adiantar mais detalhes acerca dessa?

A colabora√ß√£o com o Kronos est√° em p√© e tem vindo a desenvolver-se com alguns encontros com o David Harrington, o √ļltimo deles em Grenoble, em Novembro de 2007. Trata-se de um projecto a longo prazo, pois os Kronos param pouco para poder trabalhar aquela quantidade impressionante de novos projectos. Um exemplo √© o novo √°lbum com uma obra escrita por encomenda por Henryk G√≥recki e que s√≥ ao fim de dez anos foi montada e gravada. A ideia desta colabora√ß√£o √© a de escrever uma pe√ßa em que os Kronos Quartet tocam alguns dos meus instrumentos que ser√£o adaptados especificamente a eles, al√©m de uma introdu√ß√£o com instrumentos feitos por crian√ßas de Angola e que irei trazer em Maio pr√≥ximo (2008). Ali√°s, espero voltar a encontrar-me com o David quando eles c√° vierem a 20 de Maio. Por outro lado, a pe√ßa exige um or√ßamento para poder fabricar os instrumentos, as respectivas caixas, pagar o seu transporte e financiar uma resid√™ncia minha no local de ensaio deles em S√£o Francisco para podermos mont√°-la. Neste momento √© quase certo que o financiamento para a obra tenha sido encontrado a 100% pelo que as coisas parecem estar no bom caminho. A pe√ßa j√° se encontra parcialmente escrita e j√° a mostrei ao David, e penso que poder√° estar terminada e entregue em 2009.

Como observa a recente mediatiza√ß√£o √† larga escala do ‚Äúkuduro‚ÄĚ e do fen√≥meno que esse surtiu em Portugal? Agrada-lhe pensar que isso pode levar algu√©m a aprofundar-se no conhecimento do g√©nero e eventualmente chegar √†s suas ra√≠zes?

O kuduro √© uma express√£o do optimismo, energia e alegria com que uma nova gera√ß√£o de angolanos olha para o futuro. Se pensarmos que a gera√ß√£o do kuduro j√° nasceu depois da independ√™ncia, e para quem o colonialismo √© Hist√≥ria, o mais importante √© que ele inspire um renovado interesse na cultura angolana. Por outro lado vejo o kuduro como a manifesta√ß√£o da est√©tica de uma poderosa cultura que ao longo dos √ļltimos tr√™s a quatro s√©culos tem tido um profundo impacto na cultura ocidental com o aparecimento de g√©neros como o Jazz, Blues, Tango, Samba, Capoeira, Cumbia, Son, Hip Hop, etc. e em performances p√ļblicas como o Carnaval. O kuduro fornece-nos um exemplo de uma no√ß√£o de estilo e valor musical que, por sua vez, nos d√° muitas li√ß√Ķes sobre transmiss√£o e resist√™ncia cultural.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
07/04/2008