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Cristina Branco
O caminho da Paz


Com Abril, Cristina Branco volta a surpreender. N√£o propriamente pela admira√ß√£o por Zeca Afonso (que essa j√° conhec√≠amos h√° bastante tempo), mas sim porque a cantora nascida em Almeirim saiu deliberadamente, informadamente e democraticamente do seu "espa√ßo de conforto", o fado e os seus m√ļsicos habituais. Para o retrato da obra de Jos√© Afonso, Cristina Branco recrutou m√ļsicos como Alexandre Fraz√£o e M√°rio Delgado e deu-se bem com isso (com o jazz, com a companhia, com os arranjos).

Come√ßou l√° fora a dar cartas e aqui em p√©zinhos de l√£ mas agora Cristina Branco conquistou finalmente lugar merecido no panorama musical. Epis√≥dios essenciais de uma biografia que passou a correr, cheia de sucessos e conquistas. Em entrevista ao Bodyspace, Cristina Branco apresenta-se em tom confessional, livro aberto em rela√ß√£o √†s quest√Ķes fundamentais da sua exist√™ncia musical (ou mais do que isso). Fora dos palcos, √© assim que soa Cristina Branco, honesta, transparente e perto de conseguir a paz.
Há quanto tempo trazia dentro de si esta homenagem a José Afonso?

Penso que desde sempre, sendo que n√£o olho para este disco como uma homenagem, a m√ļsica quando √© t√£o valiosa como neste caso, n√£o precisa de ‚Äúpanfleto‚ÄĚ, basta-se a si pr√≥pria, bem como o seu autor. Cresci a ouvir Jos√© Afonso e nunca recusei a ideia de interpretar o seu repert√≥rio (o meu primeiro disco Murm√ļrios j√° cont√©m um dos seus temas).

Como é que nasce este Abril propriamente dito? Foi fácil para si escolher os temas que acabaram por integrar este disco?

√Č antiga a minha vontade de cantar Jos√© Afonso, mas n√£o imaginava como poderia mistur√°-lo mais profusamente com tudo o que tenho feito. Mas quando surge o convite do Teatro S√£o Luiz (em Lisboa) para realizar 8 concertos no Jardim de Inverno com o conceito de ‚Äúhomenagear‚ÄĚ a carreira do Zeca, n√£o olhei para tr√°s. Aceitei de imediato. O repert√≥rio n√£o foi f√°cil de seleccionar. A obra √© vast√≠ssima, como sabe, para al√©m disso propus-me escolher temas menos √≥bvios e tamb√©m pouco reinterpretados, o que por si j√° fecha o c√≠rculo sobre a escolha.

Sentiu na pela a responsabilidade de fazer um disco destes? Encontrou dificuldades em alguma fase do processo?

Senti sim, desde o in√≠cio. N√£o h√° ningu√©m mais realista e consciente da dificuldade mas tamb√©m da barreira a transpor, do que eu! E ao aceitar o desafio foi por a√≠ que procurei o caminho, ou seja, o que vou eu aprender com tudo isto, com a experi√™ncia? Sabia de antem√£o que tal como no Fado, os guardi√£es do templo do Zeca estariam l√°, na primeira esquina mais insinuada, para apontar e reeducar, possivelmente. Al√©m disso, o que haver√° a acrescentar ao tanto que j√° se fez (e desfez) com este patrim√≥nio? Foram algumas das d√ļvidas, claro! Mas n√£o hesitei, digamos que foram d√ļvidas ‚Äúna passada‚Ä̂Ķ Houve dificuldades sim, como n√£o? Em todo o repert√≥rio escolhido (comecei com uma amostra de 26 temas), houve 4 ou 5 temas dif√≠ceis de entrar no esp√≠rito, no ritmo, na interpreta√ß√£o. N√£o queria desvirtuar, adulterar uma nota, uma part√≠cula da harmonia e para isto contei com a preciosa e persistente ajuda do Ricardo Dias.

Com este disco saiu do espa√ßo confort√°vel que conquistou por for√ßa pr√≥pria e recriou-se; optou por trabalhar com m√ļsicos diferentes do habitual, alguns associados ao jazz. Como √© que tudo isto acontece?

Sabia que o trabalho exigia outro g√©nero de sonoridade e foi em conversa com o Ricardo que percebi que estes seriam os m√ļsicos certos. No fundo, n√≥s os cinco convergimos no universo do Zeca, oriundos de 3 g√©neros musicais diferentes, sendo que todos eles est√£o vagamente presentes em toda a sua obra: o Fado (eu‚Ķtalvez), o Ricardo Dias (m√ļsica Tradicional) e o Bernardo Moreira, o Alexandre Fraz√£o e o M√°rio Delgado (Jazz).

Tive a oportunidade de ver o concerto no Theatro Circo e não pude deixar de notar como é curioso ouvir a sua voz junto com uma bateria. Foi muito natural para si o trabalho com o Alexandre Frazão?

N√£o acho um instrumento estranho (remotamente, a bateria est√° para este g√©nero como a viola est√° para o Fado) e depois n√£o √© a primeira vez que participo em projectos com bateria ou percuss√£o (por c√°, √© que essas coisas n√£o se sabem!). Para al√©m disso, o Alex √© um m√ļsico brilhante, virtuoso, (ali√°s como todos eles) n√£o ‚Äúamea√ßa‚ÄĚ a voz, n√£o machuca, pelo contr√°rio.

Sente a falta da guitarra portuguesa neste projecto? Ou acredita que cada coisa deve estar no seu lugar?

Cada coisa no seu lugar. Confesso que ainda aventei essa hip√≥tese, mas felizmente tenho por perto um ‚Äúgrilo falante‚ÄĚ que me recolocou no caminho do bom senso!

Voltou a gravar ‚ÄúRedondo voc√°bulo‚ÄĚ para este novo disco. Quantas vidas tem essa can√ß√£o? Concorda comigo se disser que "Redondo Voc√°bulo" √© um dos mais belos textos escritos na nossa l√≠ngua?

Costumo dizer que √© uma caixa de Pandora, logo reinventa-se a cada retomada, redescobre-se de cada vez que se canta, h√° sempre elementos novos a aparecer. De facto, √© como algu√©m que caminha de olhos vendados dentro de uma casa e vai trope√ßando em objectos, em pessoas‚Ķ em situa√ß√Ķes. √Č de todos os poemas do Zeca, para mim o mais emblem√°tico do seu surrealismo exacerbado, o mais m√≠stico tamb√©m. Estar√° entre os mais ‚Äúaflitos‚ÄĚ, quero dizer densos, obscuros. Mas n√≥s temos uma l√≠rica de excep√ß√£o, uma prosa maravilhosa para um pa√≠s t√£o pouco esclarecido, t√£o pouco instru√≠do!

Se voltasse a fazer um disco exclusivamente com can√ß√Ķes de um autor, esse autor poderia ser Fausto? Alguma vez lhe passou pela cabe√ßa fazer algo similar com as can√ß√Ķes dele?

Acho que ele não iria gostar… suspeito. Mas sim, claro que gostava. Considero o Fausto um autor genial, de uma sagacidade social! Profundo conhecedor da língua e da rítmica tradicional.
Propus recentemente ao Fausto escrever um tema para o meu disco seguinte e isto é o mais próximo que se pode estar da sua obra. A comunhão e homenagem a um autor vivo e brilhante como ele, faz-se desta forma (opinião muito pessoal)

Voltando ao assunto deste disco, em que condi√ß√Ķes √© que Portugal e os portugueses preservaram a mem√≥ria de Zeca Afonso?

Ai, que esse território é muito pantanoso! As autoridades revelam alguma hipocrisia e preconceito, enfim, é o Portugal que nós temos! E nós dividimo-nos entre reconhecimento e admiração, também preconceito e esquecimento aleatório, exaltação e profundo desconhecimento.

Acompanhou alguns dos projectos que em 2007 prestaram homenagem a Zeca Afonso? Nomeadamente os Couple Coffee ou mesmo o Drumming. Parece-lhe que neste ano que passou a homenagem foi justa ou suficiente?

‚Ķe ainda Jacinta. Penso que foi tudo digno. Justa foi com certeza, agora suficiente? Nem assim se ‚Äúagitou a malta‚ÄĚ!

Este disco poder-se-ia chamar de outra forma?

O nome era tão óbvio, que se escondeu até ao final da produção. O que me deixava tremendamente preocupada, porque eu escolho sempre os títulos antes de partir para a recolha de temas.

Diz que José Afonso não é o cantor da revolução. Que cantor é então Zeca Afonso para si?

Eu disse isso? Ele tamb√©m √© isso, digamos que um l√≠der, um vision√°rio apartid√°rio! E talvez por a√≠, eu olhe para a sua obra ainda com mais admira√ß√£o. Nunca se deixou corromper. Este √© um dos valores que me move, ainda acredito nos ‚Äúbons‚ÄĚ, sabe!? A m√ļsica do Zeca habitava-o, eram uma mesma coisa, vinha-lhe das entranhas depois de observar o que o rodeava, como exemplo podemos olhar para a apropria√ß√£o de sonoridades africanas, do profundo conhecimento daquela luta surda que por l√° se vivia‚Ķ se vive. Sem esfor√ßo, a sua m√ļsica soava a uma miscel√Ęnea natural, digamos que ‚Äúafro-europeia‚ÄĚ!

J√° l√° v√£o mais de 10 anos desde que come√ßou a sua carreira. Que poss√≠vel resumo poderia fazer de todo este tempo? O que espera ainda que a m√ļsica lhe possa trazer?

Foi tudo t√£o r√°pido que uma d√©cada √© um quase-nada! Ainda ser√° cedo para resumos, suponho. √Č assim como um carrossel o meu tempo‚Ķ como algu√©m diz por a√≠: ‚ÄĚprogn√≥sticos, s√≥ no fim do jogo!‚ÄĚ. A m√ļsica, mais propriamente o canto, √© a minha vida, parece que s√≥ sei ser por a√≠. Relaciono-me com os outros por a√≠, cres√ßo por a√≠. S√≥ quando fecho a porta de minha casa, carregada de malas, de dores e alegrias √© que essa aprendizagem, a ‚ÄúLi√ß√£o‚ÄĚ, repousa sobre o tapete at√© ao pr√≥ximo concerto, entrevista, disco. N√£o √© que a cantora n√£o seja tamb√©m a m√£e, a mulher, a filha, irm√£ e amante, mas ainda andam a aprender como coexistir pacificamente. Gostava que a cantora terminasse antes da exaust√£o, da decad√™ncia, isto √© certo!


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
10/03/2008