bodyspace.net


Stars of the Lid
E o seu refinamento dos quintais desérticos


A unicidade e sublime próprio da música dos Stars of the Lid faz do nome estelar um sinónimo da desintegração que vitima todas as metáforas dedicadas à tentativa de descrever, por aproximação, o teor autêntico e áureo do activo mantido pelo duo norte-americano desde Music for Nitrous Oxide. Sobre os mesmos, poder-se-ia, enfim, dizer que são “novos clássicos”, “herdeiros lógicos de Brian Eno ou Gavin Bryars”, “progenitores do mais benigno drone que conheceu a transição de milénio”, ou apenas inspiradíssimos investigadores científicos de toda a graça que se escuta aos instantes que sucedem à desactivação de uma bomba de ruído imundo.

O último And Their Refinement of the Decline confirma e consolida noções que se vão segredando cada vez mais alto acerca dos Stars of the Lid: cada novo álbum arrisca-se invariavelmente a ser instantaneamente vintage (como grande parte dos seus homólogos), poucos serão os intérpretes actuais tão capazes de continuar a dignificar a tão nobre arte de compor uma suite dividida em partes. Além disso, os títulos das músicas – “December Hunting for Vegetarian Fuckface” - dissipam as restantes dúvidas: há por aqui um apetite referencial e humorístico que iliba Brian McBride e Adam Wiltzie de alguma seriedade ou pretensiosismo indesejáveis. O último falou ao Bodyspace acerca do inevitável tópico And Their Refinement of the Decline, da paisagem que se descobre às traseiras da casa habitada pelo patrão da abençoada 4AD, de David Lynch e Angelo Badalamenti e teve ainda tempo para um precioso palpite referente ao topo do futebol europeu.
Quais achas terem sido os factores que aumentaram o intervalo entre o lançamento de Tired Sounds of Stars of the Lid e And Their Refinement of the Decline? Parece-te que este último disco tenha sido o mais ponderado?

Devo dizer que me encontrava muito fatigado mentalmente após ter terminado o Tired Sounds of Stars of the Lid. Questionei-me acerca da necessidade de fazer um álbum por ano, ou de mergulhar num ciclo infinito de gravações sucedidas por digressão, e depois recomeçar tudo novamente. Reconheço que, na generalidade, os músicos podem enganar-se a si próprios ao julgarem que todo o mundo saliva por música nova da sua autoria, e o resultado é deixarem que esse falso sentido da realidade os force a lançarem música que não se encontra realmente acabada, ou apenas para que se adeqúe à data de lançamento solicitada pela label, interessada em evitar a febre natalícia, etc.... Leva isso a que algumas pessoas pressuponham que seis anos é um longo período de tempo para aguardar por um novo disco. Eu não “papo” essa assunção...

De onde extraíram o comentário de futebol que se escuta no início de “Dopamine Clouds Over Craven Cottage”?

Foi retirado do programa Match of the Day da BBC. Basicamente, refere-se a um futebolista famoso chamado Brian McBride. Ele joga pelo Fulham na Inglaterra. Craven Cottage é o nome do estádio onde jogam em casa.

Podes-me esclarecer um pouco em relação à quantidade de material gravado em Bruxelas e Los Angeles aquando deste último disco?

Foi, em grande parte, gravado em Bruxelas. O Brian fez alguns overdubs em Los Angeles, mas a totalidade do disco foi elaborada e misturada no meu apartamento em Bruxelas.

Esta última questão leva-me a outra: existe algum lugar que seria excepcionalmente ideal à gravação de um disco?

Nem por isso. Onde vivo acaba por ser o melhor lugar. A composição e desenvolvimento das músicas ocupa-me uma enorme quantidade de tempo, por isso, só podia mesmo gravar em minha casa, onde me encontro mais descontraído.

Em que fase do processo de And Their Refinement of the Decline souberam que o disco seria merecedor de um número de catálogo tão especial e celebratório quanto o 100?

Sempre soubemos que seríamos donos do número 100 da Kranky. Em parte, isso deve-se também ao facto do Joel Leoschke – Mr. Kranky – saber do nosso fascínio por numerologia.

Durante a selecção das faixas para a compilação Carte-de-Visite (vendida exclusivamente em digressão), perderam, alguma vez, tempo a pensar em como um out-take poderia ter sido privilegiado por um melhoramento? Alguma das faixas incluídas esteve a um curto passo de ser integrada num álbum? Que sentimentos emergiram enquanto revisitavas este material?

Todas as músicas incluídas no Carte-de-Visite parecem-me dignas de figurar num álbum, mas foram excluídas principalmente por se aproximarem de um tom diferente ou porque encontrei outra porção em que as transições soavam mais adequadas à música que compõe uma das faces de um álbum. Repara: eu faço música orientando-me pela dimensão de cada uma das faces de um disco (vinil) – 20 minutos de cada vez. Por isso, é natural existirem imensas continuações diferentes de fraseados anteriores que trabalhamos durante o processo de gravação de um disco. A primeira composição do Carte-de-Visite, “The Moutchew Part B”, corresponde obviamente a uma segunda parte da “The Mouthchew”, integrada no Refinement, mas achámos que “Different Hunting for Vegetarian Fuckface” faria mais sentido como continuação para os pequenos pedaços de piano. Tenho vindo a acumular uma gigantesca pilha de fraseados diferentes. Penso neles de um modo literário, como se fossem “conclusões de parágrafo”.

Quão agradados ficaram com as palavras dirigidas por Ivo Watts-Russell (patrão da 4AD) em relação ao vosso último disco?

As palavras do Ivo acerca da nossa música são extremamente lisonjeadoras. É muito simpático da parte dele. Mas, para ser honesto, não acredito realmente nisso. Sem colocar em causa que o Ivo sinta realmente o que escreveu, a verdade é que eu próprio não sinto esse tipo de apego à nossa música. É difícil colocar a minha música em tão alto pedestal porque tudo o que escuto são as minhas próprias insuficiências enquanto músico. Não sou muito bom a aceitar elogios. Tenho tentado melhorar nisso. O Ivo vive no sudoeste dos Estados Unidos que é dominado por terrenos de perder de vista e paisagens desérticas. Consigo perceber a ligação entre a nossa música e o seu quintal.

Sinto enorme curiosidade em relação a como se desenvolvem os vossos ensaios antes de uma digressão. Enquanto preparam as coisas numa perspectiva técnica, é habitual “tropeçarem” em pistas cativantes que possam constituir base para composições futuras?

Completamente. A preparação para uma digressão une-nos num mesmo quarto onde nos concentramos nas mesmas sementes de plantas que mais não são do que ideias que eventualmente ganham forma nos nossos discos. Por exemplo, na digressão do Tired Sounds, eu tinha em mente uma ideia simples de trompete sequenciada com uma melodia básica de baixo, sendo que isso floresceu até ao ponto de se tornar “The Evil That Never Arrived”, que consta do Refinement. É sempre altamente produtivo partilharmos um mesmo quarto, embora não estejamos habituados a isso. Estou confiante de que as peças que temos vindo a tocar na actual digressão possam produzir uma variante de “Even if You’re Never Awake”. Andar em digressão implica que nos escutemos colectivamente e proporciona um debate referente aos melhores resultados recentes, sem que esses hábitos sejam óbvios ou programados. É impossível evitar que as conversas tidas não influenciem o que lhes sucede. O pior acaba por ser a fadiga que nos afecta após uma digressão e que nos impede de manter a disposição certa para, de seguida, gravar estas mutações. Para mim, andar em digressão pode muito facilmente arruinar o interesse nas peças que toco. O que possa ser cativante de início, torna-se, às vezes, refém de si mesmo. Se tocares as mesmas peças todas as noites durante um mês, o amor que sentes por elas vai sendo esbatido. Mas, na verdade, acaba também por não ser muito diferente trabalhar num disco. É evidente que dedicamos um número elevadíssimo de escutas a toda a música que nos encontramos a desenvolver. Acredito que, ao usufruir da repetição do processo, é necessário confiares na tua intuição inicial respeitante a determinada música. É importante acreditar que, se foi intenso o seu primeiro impacto, então valerá certamente a pena perseguir essa ideia, mesmo que o seu desenvolvimento venha a provocar algum repúdio.

Sei que mantêm considerável interesse no cinema de David Lynch. Foram absorvidos pelo Inland Empire? Sentem-se cativados e estimulados pelas mecânicas adoptadas por Kim Cascone e David Lynch nas suas bandas-sonoras?

Bem... Acho que isso parte um pouco de um rumor. Éramos grandes fãs da série Twin Peaks. E houve sempre a ideia de que “Mulholland” era acerca do filme (Mulholland Drive), mas era realmente uma referência a um jogador de basebol dos Chicago Cubs que tinha um intimo sombrio sempre prestes a explodir. O Inland Empire foi porreiro, mas não me moveu muito. Esperava que fosse uma experiência mais do que um filme. Só nunca me senti preparado para dar o mergulho. Acho que o Kim Cascone é, na melhor das hipóteses, muito sobrestimado. Por sua vez, o trabalho de Angelo Badalmenti exerce uma enorme influência sobre o meu sentido de composição e fidelidade. Podia passar o resto dos meus dias a escutar “Mysteries of Love”, quer fosse na versão incluída na banda-sonora de Blue Velvet ou de Weeds. Para mim, Badalamenti compõe a mais essencial música de optimismo circunspecto alguma vez feita.

O trio de cordas que vos acompanhou na digressão colaborou também no último disco?

Os instrumentistas que trouxemos em digressão não correspondem aos que tocaram no disco. As pessoas que participaram nas gravações estão demasiado atarefadas com os seus universos, o que as impossibilita de cumprir tal intervalo nas suas vidas. Na parte Europeia da digressão, viajámos com três mulheres de Londres: Noura Sanatian no violino, Ella Baruch na viola e a Lucinda Chua no violoncelo. São fantásticas em todos os aspectos! A forma de tocarem parece-me linda. São pacientes e dispostas a adaptarem-se ao facto de sermos perplexamente incapazes de falar a mesma linguagem musical que elas. Tivemos imensa sorte em tê-las connosco.

Reparaste no artwork que a Christina Vantzou fez para o disco de Beautiful Schizophonic? Já o escutaste?

Alto aí, chefe! A Christina é minha namorada. Temos um disco conjunto enquanto The Dead Texan. The Beautiful Schizophonic é porreiro, mas basicamente parece-se com Stars of the Lid de há 10 anos atrás.

Tens acompanhado a Liga dos Campeões? Qual te parece a equipa com mais hipóteses de ganhar a competição este ano?

Eu sou fã total do Cristiano Ronaldo, por isso aposto no Manchester United. Aquele puto este ano não dá hipóteses...


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
03/03/2008