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Spoon
Em estado de graça


Há mais de dez anos no activo, os Spoon têm trilhado de forma progressiva o caminho da consagração, com álbuns sólidos a sucederem-se. O último, Ga Ga Ga Ga Ga, foi objecto de elogios consensuais, tendo figurado em diversas listas de melhores discos de 2007. Antes porém de atingirem este patamar de segurança, os Spoon, banda oriunda do Texas e liderada por Britt Daniel, tiveram de ultrapassar alguns obstáculos que poderiam ter comprometido inclusive o futuro da banda. O mais amplamente falado foi a querela com a editora Elektra que, quatro meses após ter assinado contrato com o grupo, resolveu cortar o vínculo. Sem baixarem os braços, os Spoon responderam à contrariedade com o lançamento do single “The Agony of Laffitte”, uma sarcástica referência a Ron Laffitte da Elektra. A partir daí, a banda acumularia tiros certeiros ao nível da crítica, como o foram os álbuns Girls Can Tell (2001), Kill the Moonlight (2002) ou Gimme Fiction (2005), os antecessores deste Ga Ga Ga Ga Ga.

Em pleno gozo de uma maré de sorte, os Spoon (nome resgatado ao single homónimo dos alemães Can) contam actualmente com Jim Eno, Rob Pop, Eric Harvey, além do frontman Britt Daniel, nas suas fileiras. De momento, encontram-se ainda a promover o seu último lançamento, razão pela qual já passaram por Portugal e se preparam para repetir o feito. Após terem estado presentes na edição de 2007 do Festival Heineken Paredes de Coura, a banda regressa agora ao nosso país, em nome próprio, para um concerto de aproximação ao seu público, a realizar-se na Aula Magna de Lisboa, já no próximo dia 23. Com esta actuação em perspectiva, questionamos Britt Daniel (certamente o músico detentor do mais alargado espólio de camisas engomadas do sector indie) acerca desta vinda a Lisboa e de outros aspectos relacionados com a banda.
Após um começo relativamente modesto, os Spoon lançaram de uma assentada quatro álbuns, todos eles bem recebidos pela crítica. Sente-se pressionado quanto a futuros lançamentos?

Ná… agora sinto-o bem menos. Chegado a este ponto, o que me interessa é sobretudo conceber discos que estimulem os meus neurónios. É evidente que aprecio quando os álbuns vendem bem, mas já obtivemos também bastante sucesso a esse nível.

Mike McCarthy é o produtor desses quatro discos. Que trouxe ele à banda?

Na verdade, ele tem a mesma sensibilidade do que nós em relação àquilo que é susceptível de produzir boa música. Vemos as coisas pelo mesmo prisma. A diferença é que ele é um excelente engenheiro de som e nós nisso somos medíocres…

De que é que sente saudades quando se lembra dos inícios de actividade da banda?

De muito pouco…

Qual foi o vosso feito mais celebrado?

Humm… parece que o último disco tem sido o que mais burburinho tem causado.

Na altura de compor, preferem ser leais a um género de sonoridade própria dos Spoon ou sentem-se totalmente livres para inovar e conceber material diferente?

Na medida do possível tentamos sempre optar por algo diferente, que não tenhamos explorado antes. Contudo, isso nem sempre se afigura viável, nem sempre acontece.

Que experiências introduziriam na vossa música?

Queria ter algo como poderes de percepção extra-sensorial. Isso ou ter o Kool Keith [produtor e rapper, conhecido pelas suas inovações estilísticas] a produzir-nos.

A banda parece estar constantemente em busca de estruturas diversificadas para as canções. Essa é a vossa prioridade?

Não é a questão mais importante, porque o que acaba por ser mais relevante é o que a música desperta, as sensações que a canção transmite. E depois sim, também levamos em consideração esse aspecto das estruturas.

As canções que mais celebrizaram os Spoon foram, no entanto, “I Turn My Camera On” ou “The Way We Get By”, que obedecem a construções relativamente simples. Preferiam ser mais facilmente reconhecidos por outras composições?

Eu entendo a razão pela qual a escolha desses temas para singles acabou por resultar bem e, por mim, não há qualquer problema. Mas, em termos gerais, penso que somos conotados mais como uma banda de discos, do que como uma banda de singles, o que a mim me satisfaz.

As letras contêm mensagens que pretendem expor ou escrevem para vocês mesmos?

Metade para cada lado.

De que fala “Rhythm and Soul”, deste último trabalho?

É um thriller com espiões durante a guerra fria.

Lamento trazer-lhe este assunto (imagino que esteja habituado a ter de falar acerca dele), mas sente que o episódio com Ron Laffitte vos deu força extra para fazer bons discos?

Sem dúvida que sim.

A título de curiosidade, até onde sentiram o apoio de outras bandas, inclusive dos Wilco que passaram por algo semelhante?

Nunca discuti essa questão com os Wilco. Ocasionalmente, sim, deparámo-nos com uma banda que teve esse género de percalço, mas que podem dizer para além do recorrente “isso é lixado” ou “lamento”?

Está satisfeito com o trabalho da editora Merge?

Sim, aprecio-os e confio neles.

Há anos que vive estas andanças de gravar e partir em digressão. As tournés ainda são algo fantástico?

É o mais divertido de tudo. Não é, no entanto, o mais importante da caminhada.

Tendem a optar pela canção curta. Vêem-no como uma opção fundamental para a transposição para o formato live?

Na realidade, não tinha pensado nisso. É apenas o que naturalmente acaba por acontecer.

O que leva em consideração quando prepara um concerto dos Spoon?

Nesse aspecto, fazemos questão de estar, na maioria das vezes, envolvidos na escolha das bandas de suporte, o que não acontecerá desta vez em Portugal.

Recuando ao concerto de Agosto, em Paredes de Coura, o que acha por bem mudar em Lisboa?

Oh… nada mesmo. Foi um óptimo concerto.

Tem expectativas em relação a este regresso?

Tenho grandes esperanças de comer churros acabadinhos de fazer, desta vez.


Eugénia Azevedo
eugeniaazevedo@bodyspace.net
18/02/2008