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Talibam!
A irmandade da bomba!


Não esperavam os meios de comunicação ocidentais ver a sua blindagem ameaçada por um infiltrado interno norte-americano que pudesse colocar em causa a firmeza da estrutura que vende a suposta verdade nos serviços noticiosos da CNN e Fox. Comportando as cicatrizes próprias de quem já combateu em múltiplas frentes do underground norte-americano, a célula Talibam! ateia fogo ao ano de 2007 decidida a desmistificar umas quantas noções ideais associadas ao meio da música DIY (faça você mesmo) e impondo metas inéditas a quem possa por esta altura andar entusiasmado com a ideia de formar uma dupla gladiadora de guitarra e bateria que não decalque tudo o que já se ouviu ao catálogo clássico da Load. O paralelo, que sofre dolorosa metamorfose no celebrado Ordination of the Globetrotting Conscripts, prova, em nome de Matt Mottel e do frenético fenómeno Kevin Shea, que o momento actual não é para brincadeiras ou facilidades no ramo dos duos dinâmicos: o disco rasga o canal auditivo como bala de canhão caustica nos princípios básicos que demole e é surpreendentemente versátil nos géneros que reinventa à sua passagem (do rockabilly cafeínado ao big band rezingão).

As tácticas de guerrilha – conspiradas por sintetizadores e bateria sem paramento - prometem provocar casualidades várias na Associação de Músicos de Faro (8 de Novembro), Galeria Zé dos Bois em Lisboa (9 de Novembro) e Mercado Negro em Aveiro (10 de Novembro). O Bodyspace testou a coesão dos álibis em interrogatório conjunto e depois individual, que fez ricochete na infinidade de lançamentos do grupo em tão curto espaço de tempo, no perigoso nome adoptado e nas várias actividades assumidas (no passado e actualmente) por cada um dos cabecilhas desta anomalia de ruído bicéfalo. As opiniões que se seguem são da inteira responsabilidade dos explosivos intervenientes. Nem o Agente Jack Bauer nos safa desta vez.
Que tipo de enquadramentos privilegiaram enquanto gravavam Ordination of the Globetrotting Conscripts? Que parte desse disco resulta directamente de jams bem conseguidas?

Matt Mottel: Serviu como uma tremenda ajuda o orçamento oferecido pela label Azul Discografica para gravar o disco. Adaptámo-nos a esse orçamento e reservámos inicialmente três dias de estúdio, onde gravámos directamente para tape. Então, tocámos uma série de peças previamente elaboradas e depois empenhámo-nos numa dura jam de 90 minutos. Escutámos todo o material, escolhemos as porções apropriadas para overdubs por parte de alguns colaboradores e fomos editando as coisas a partir daí. Existe portanto uma imensidão de jams improvisadas directamente inseridas no disco, sendo que todos os convidados foram adicionados através de overdubs, mas esses são músicos de um tal calibre que parece mesmo que tocaram tudo ao vivo connosco.

Kevin Shea: As faixas escolhidas para o Ordination partiram de um debate entre Talibam! e a label. Nós queríamos que mais cinco faixas com vocalizações fossem incluídas no Ordination, mas a label prefere música instrumental. Não tínhamos problema com isso por confiarmos em que podemos fazer a música que gostamos respondendo a quaisquer que sejam os parâmetros estéticos. Entretanto, usaremos toda a música que restou dessas sessões em futuros discos.

“A Petroglyphic Massacre” é uma faixa que parece mais guiada pela secção de sopro. Quais foram os vossos papéis nessa faixa atendendo aos sons de fundo?

K.S.: Um dia gostava de lançar um disco sob o nome de Talibam! em que nem eu, nem o Matt tocássemos. Na música clássica, é raro encontrar um conjunto de compositores a colaborar na criação de uma peça de música. E, no rock, não existem discos sérios lançados por bandas que funcionem apenas como compositores e não executantes.

M.M.: Bem… Tínhamos à nossa disposição uma secção de sopro que incluía o nosso antigo membro Ed Bear, e o Jon Irabagon, e outros. Por isso, funcionou bem ter essa dose extra de tons na faixa. É tudo uma questão de diversidade!

Sei que Buns and Gutter inclui um par de out-takes de diferentes sessões (de evolvingear.com e Ordination of the Globetrotting Conscripts)? Que pistas são cruciais para que retirem uma faixa de um álbum?

M.M.: Sempre gostámos da música produzida nessas sessões e essas porções ainda não tinham sido lançadas. O Frank da Gaffer Records foi gentil ao convidar-nos para fazer um disco e achámos que podia bem ser útil a quantidade de material em reserva. Porque não usá-la para formar um disco? Gosto realmente dessa faixa com 34 minutos. Tem um drone pesado e uma progressão bem mais lenta do que a maioria das nossas faixas. E “I Wanna Be Nawtie Tonite” é simplesmente a nossa homenagem à “TV Party” dos Black Flag, mas não é para levar muito a sério. (risos)

K.S.: Gostamos de toda a nossa música e é tudo uma questão de colaborar com uma label na selecção de que faixas se enquadram em determinado álbum. Somos flexíveis e surgimos preparados com múltiplas soluções – há sempre qualquer coisa para cada um. As possibilidades aumentam quando recebemos ajuda financeira. Não somos capazes de executar em pleno as nossas novas ideias se não tivermos dinheiro para tempo em estúdio. As pequenas labels normalmente não querem investir dinheiro na gravação de um álbum – o que oferecemos à label depende em grande parte do apoio que nos oferecerem em estúdio ou não. Com o Buns and Gutter, não havia qualquer quantia para financiar gravações de estúdio, por isso, usámos parte dos 80 minutos que gravámos gratuitamente no passado. Essa parte era de uma sessão captada num gravador de quatro pistas numa cave. Se tens por aí alguns microfones, façamos um disco...

Isso que me dizes vem ao encontro de outra questão que tinha reservada: estavam a tentar bater o recorde dos Psychic TV ao lançar tantos discos este ano? Achas que continuarão a ser igualmente prolíficos daqui em diante?

K.S.: Tudo o que lançamos sai em edição limitada, pelo que cada label merece o seu próprio lançamento especial. É um pouco como um artista e a sua instalação ou um arquitecto. Se uma organização comissiona o teu trabalho, encontramos desafios únicos. É isso que adoramos fazer. E se ninguém solicitar o nosso trabalho, continuaremos a lançar álbuns em nome próprio. Este tipo de música é importante para nós – existirá independentemente de ser apreciada ou não.

M.M.: Temos um monte de música acumulada, e quando tocamos ou improvisamos, por vezes ficamos satisfeitos com os resultados, da mesma forma que nos agrada ficarmos presos num estúdio. Se a mesma quantidade de pessoas desejar continuar a lançar música nas suas labels, então o mais certo é mantermos este ritmo! Mas queremos também concentrarmo-nos em aprofundar as nossas capacidades e elaborar discos de estúdio mais densos que envolvam um processo mais pensado.

Não consigo deixar de perguntar se o facto de terem como nome Talibam! já vos valeu alguns sarilhos em digressão? Já suscitou algum tipo de desconfiança?

M.M.: Temos tido a sorte de, na maioria dos lugares onde tocamos, as pessoas serem inteligentes e cultivarem tendências humanistas, além de entenderem que estamos a brincar com a “linguagem” e “contexto”, e que é essa a finalidade do nome Talibam!. Não tem qualquer relação com o terrorismo ou a merda que tem vindo a acontecer no Médio Oriente. O nome surgiu a partir de uma manchete do NY Post no dia em que os Estados Unidos começaram a bombardear o Afeganistão. Foi importante pegar nessa manchete e reciclá-la de modo a que se adequasse às nossas intenções. Mas, felizmente, ninguém ainda tratou com inquebrável seriedade ou morbidez esse nome. Até agora, pelo menos.

K.S.: Todos os nomes de banda são altamente estúpidos, mas Talibam! salienta-se de todos esses por causa do seu contexto. Prefiro ter uma banda com um nome multiplamente contraditório nos seus significados e comentários, do que um nome inventado com o simples intuito de ser “fixe” e comercializável. O nome Talibam! corre o seu risco – tem tomates como a nossa própria música.

Qual foi a mais surpreendente reacção que receberam de um público ao actuarem ao vivo enquanto Talibam!?

K.S.: A seguir a um dos nossos concertos, alguém me disse que estavam profundamente ofendidos connosco por acharem que estávamos a fazer troça de pessoas com atrasos mentais.

M.M.: O meu amigo Aaron Halley, que nos tem visto a tocar desde o início, gosta de saltar para o palco e oferecer a sua ajuda extra ao tocar teclados. Mas acho que a minha reacção favorita terá sido de um tipo mais velho em Itália, que parecia ter uns 50 anos, e que começou a dizer:Adoro Wolf Eyes e noise!. A certa altura, durante o concerto, agarrou o microfone e passou-se da cabeça! Completamente louco e imprevisível. Mas a banda alimenta-se um pouco dessas situações…

Serão apenas vocês dois a tocar em Portugal ou vêm acompanhados por mais alguém?

M.M.: Serei apenas eu e o Kevin a tocar em Portugal, a menos que, enquanto lá estivermos, encontremos algum pessoal que esteja na sintonia de alinhar numas jams fodidas. Quem sabe? Temos planeados alguns malabarismos especiais para os concertos.

K.S.: Um dia haveremos de viajar em formato de Talibam! big band, mas precisamos de um maior orçamento. Por agora, correspondemos a dois elementos de tórrido amor masculino.

Qual foi o ultimo sintetizador que compraste?

M.M.: O último teclado que comprei foi um pequeno pianinho Hohner, que se parece muito com um piano Wurlitzer minúsculo. É mais pequeno que esse, mas pesado como o caralho. Usei um Yamaha Cs1x durante anos, mas dei cabo dele ao tocá-lo bêbado durante muitos concertos. Agora toco um Roland Juno 1 que mantenho bem fechado numa mala de caçadeira de grande porte.

Eras capaz de me actualizar em relação à situação actual de Clouds Crossing e Awesome Color?

M.M.: Os Clouds Crossing mantêm-se em hiato indefinido até o Ed Bear decidir se quer ser músico ou engenheiro de som. Agora quer ser engenheiro de som e é por isso que também não se encontra em Talibam!. Awesome Color racha ainda mais. Acabaram de andar em digressão pela Europa e vão alinhar com Dinosaur Jr. numa digressão durante este Outono. Têm novo disco para sair Ecstatic Peace! em 2008. Contribuí com uns sintetizadores bem marados nesse disco. Tenho também a minha outra banda Shadowmaps (http://www.myspace.com/shadowmaps) de volta ao activo. Baseia-se num gozo total de sintetizadores, baixo, bateria e garra punk.

Qual era exactamente o teu papel nos Seeing Eyes (mistério a desvendar aqui)? Parece-me um agrupamento de peso...

M.M.: Não faço ideia de quem são os Seeing Eyes!... Talvez tenha tocado com eles e esquecido isso por completo.

Vamos ao Kevin. Quais das tuas aptidões achas que foram mais estimuladas ao colaborares com o Tyondai Braxton no Rise, Rise, Rise (disco a meias com Parts & Labor)? Que recordas dessa experiência? Tens-te mantido atento aos Battles?

K.S.: O Ty convidou-me para tocar bateria no Rise, Rise, Rise, mas o seu método era muito conservador. Ele não queria o meu estilo – compôs previamente algumas partes de bateria. Eu gosto do Ty, mas, conforme o meu gosto, diria que aquelas faixas seriam mais interessantes de se escutar se ele tivesse concedido margem de manobra ao meu estilo. O Ty e os Battles compõem música extremamente estéril. Gostava que se expandissem musicalmente em direcção ao improviso e solos – a música que praticam é basicamente fusão sem solos ou crueza. Escuta o Return to Forever de Chick Corea: a música é calibrada, tem pinta, solos virtuosos e a espontaneidade da interacção de grupo. Fico satisfeito com a existência dos Battles, mas não é o tipo de música que escuto.

Sentes alguma proximidade entre a fluência da tua percussão e a que o BARR cultiva verbalmente, mesmo quando não tocas na sua banda?

K.S.: Com toda a honestidade, não sinto qualquer proximidade com as letras e música do BARR. Ultimamente, as letras dele deprimem-me completamente – não aprecio letras deprimentes acerca dos tempos tristes vividos por alguém. Prefiro escutar música desprovida de sentimentos que não seja repetida de uma forma fácil ao ponto de poder ser escrita numa folha de serviço. O carácter da música do BARR é ulta-estático, ultra-rígido. Assim acontece actualmente com a maioria da música rap. Os mais interessantes aspectos da musica rap podem ser a personalidade do rapper, as suas letras e fraseado, mas tudo isso me entedia muito rapidamente. O pior é que o rap é baseado na mesma batida cliché quatro por quatro, e isso repete-se vezes sem conta até à exaustão. E se o rapper não entender o conceito de fraseamento sobre uma linha, a música rap torna-se completamente aborrecida. O rap de amanhã é uma história diferente – devia ter sido o rap de ontem. Estou-me a referir a rap livre, sem uma batida e tudo isso. Mas não me estou a referir a spoken word ou performance artística.

Fiquei surpreendido por não te encontrar no circulo de 77 bateristas organizado pelos Boredoms. Estavas ocupado ou o acontecimento não te cativou?

K.S.: Nesse dia tinha um concerto marcado em Washington DC com a minha banda Puttin’ On the Ritz. Porém, nem sequer sou um grande fã de Boredoms – se o Jack DeJohnette organizar um circulo de 77 bateristas, estarei lá certamente. Mesmo assim, sou um músico que se debate por ter dinheiro para comer e, para levar e trazer a minha bateria desse círculo, teria de pagar uns 45 dólares pelo táxi. Preciso desse dinheiro para comer.

Podes-nos apresentar aos Get the People?

K.S.: Os Get the People sou eu, o Ben Simon e o Kyle Forester. O Ben, guitarrista e vocalista, escreve as músicas que depois são trabalhadas em grupo. O Kyle Forester toca baixo. Ele também toca com os Ladybug Transístor, Essex Green, Great Lakes (onde também toco bateria) e Talibam!. Get the People proporciona-me imensa diversão. Quando tocamos, é frequente rirmos muito por causa da interacção musical vivida de forma muito subtil.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
06/11/2007