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Ellen Allien
Berlim como base


Todos precisam de um impulso para criar algo, do empurrão extra para trazer algo de novo ao mundo. Para Ellen Allien foram os Kraftwerk, que cedo lhe mostraram o caminho a seguir. Orchestra of Bubbles marcou um momento especial na biografia de Ellen Allien, ao trabalhar lado a lado com Apparat (Sascha Ring). Mas a actividade de Ellen Allien é mais do que o seu lado de produtora: é DJ, é a responsável de uma editora própria e uma linha de moda. Em entrevista, ficamos a saber que apesar de viajar pelo mundo, Ellen Allien também precisa de uma certa estabilidade. Essa estabilidade é Berlim, a sua terra natal. Ellen Allien actua no próximo dia 9 de Agosto em Viana do Castelo, no Anti-Pop Festival, ao lado de nomes como Matthew Dear, Richie Hawtin ou Gui Boratto.
Li algures que o dia em que ouviste Kraftwerk mudou tudo para ti. O que é que descobriste e aprendeste com eles?

Eles mostraram-me a beleza da música electrónica minimal. A primeira vez que ouvi “The model” fiquei fascinada com os sons. Era algo que eu nunca tinha ouvido na minha vida – muito moderno, novo…

Disseste algures que cresceste junto com o techno. Qual é a melhor coisa que o techno te deu para além da oportunidade de viajar pelo mundo?

A música faz-me feliz – independentemente de ser música clássica, rock, pop, indie, techno… No outro dia estava no dentista e tinha dores mesmo horríveis. Fui para casa e pus-me a trabalhar num set para um evento de moda em Nova Iorque. Misturei electrónica, indie… Senti-me melhor instantaneamente. O techno é a música para fazer com que as pessoas se movam, para encher salas com som, para hipnotizar os que dançam. Quando as salas estão unidas com as pessoas, é o melhor sentimento de todos – muito viciante. Sou viciada na música, sim.

Quais são as maiores diferenças entre a Ellen Allien a produtora e Ellen Allien a DJ, para além das diferenças óbvias?

DJ é rock ‘n’ roll, produtora são as raízes de Allien e o futuro.

Quais são os teus principais aliados quando compões música electrónica para um novo disco? Técnicas ou inspirações…

Eu utilizo técnicas para preencher as minhas ideias e para mostrar as minhas emoções na música – às vezes são canções, às vezes faixas minimais de dança.

No ano passado colaboraste com Apparat em Orchestra of Bubbles. Foi um desafio para ti? Sentes-te com vontade de repetir a experiência?

Tocamos muito ao vivo e foi uma experiência muito boa para mim. Apparat e Allien é óptimo. A mistura de IDM, canções e dança é fantástica e eu uso isto em todos os meus álbuns. Tocar ao vivo no verão passado foi muito divertido – especialmente viajarmos juntos.

Alguma vez sentes a necessidade de explorar outras áreas musicais fora da música electrónica? Alguma vez isso te passou pela cabeça?

Não, na verdade não. Tem de ser electrónica para mim. Gosto do som da electrónica. Aquela certa frieza é fascinante, a claridade dos sons…

Como é que descreverias a tua relação com a tua própria editora, a BPitch Control?

A BPitch Control é uma ilha para os artistas. Estamos sempre a tentar sermos actuais. É a minha própria editora, por isso gosto muito dela. Ouço todas as demos e decido acerca da principal direcção da editora. A BPC é uma editora, management de artistas e uma agência de concertos. A Braincandy já não existe – costumava ser um show de rádio na Kiss fm.

Como é que te sentes antes de começar uma digressão?

Adoro! Adoro viajar e explorar o mundo.

Tanto quanto sei, quando estás num clube sentes-te em casa. Porquê? Que imagens mentais manténs na tua cabeça depois de um show?

Não me sinto em casa num clube – clube é rock ‘n’ roll! A música faz-me sentir feliz e a outras pessoas também, creio eu. Djing é divertido, deixa-te esquecer da vida do dia-a-dia. Num clube podes dançar a noite toda e esquecer-te dos teus problemas.

Lembras-te de alguma noite especial em algum país especial?

Existem muitos momentos especiais. Toquei há algum tempo numa ilha no Brasil, mais uma casa de house com um restaurante e um terraço. Foi interessante ver como as pessoas reagiam à minha música. Toquei também em Tel Aviv há pouco tempo – um deserto de pedra. Mas dá muita liberdade ao seu povo, mais do que no resto deste país. Logo, muita gente jovem vive lá – e muitos freaks, gays… Fiz um after hour lá. Nunca tinha visto nada assim – totalmente doido e sexy. Senti-me como se estivesse num circo – uma cidade inacreditável!

Depois de todas as digressões ainda sentes a falta de Berlim? Sei que tens uma relação muito próxima com a cidade por causa do muro e por causa da liberdade e descoberta. Como uma ideia “romântica” mas real, suponho…

Já vi tantos sítios belos que às vezes pergunto-me porque é que eu deveria estar em Berlim. Eu adoro o mar e sinto sempre a falta disso quando estou em Berlim. Mas Berlim é a minha cidade natal, a minha casa. Aqui posso fazer aquilo que quero, ter uma grande rede. Depois de cada tour quando estou no meu apartamento outra vez, é um sentimento de estar em casa que eu não quero perder. Preciso de Berlim como base. Os meus melhores amigos vivem aqui, a minha família, toda a gente que eu preciso e amo. E esta cidade definitivamente formou-me.

Como é que sentes Berlim nestes dias, musicalmente falando?

Adoro. Tantos artistas óptimos mudaram para Berlim. A cena de clubes está a explodir. Muitos turistas vêm cá para dançar pelas noites fora. Berlim dá-te imensa liberdade e oferece muitos inputs não só musicais. Esta cidade está cheia de arte!

Tens tido tempo para compor música recentemente? Quando é que podemos esperar um novo disco da tua parte?

Fiz remixes para o Beck, Kate Wax, Troy Pierce, Thom Yorke, Safety Scissors. Também fiz um DVD e CD para a Time Out sobre Berlim, depois vou lançar um novo 12” no verão. Também está aí a minha própria linha de moda.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
06/08/2007