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Manuel Gi√£o
O nome do meio


Manuel Gião é Cláudio Fernandes. Dois nomes de uma mesma pessoa, relativos a um projecto que se criou a solo para lá da experiência com os DEBUT! Manuel Gião, naquilo que mostram os temas no myspace do projecto, é um veículo onde convivem paisagens ruidosas criadas por guitarras e telas electrónicas abstractas. Em entrevista ao Bodyspace Cláudio Fernandes fala da génese do projecto tanto no diz respeito ao nome como em relação às suas origens musicais. Manuel Gião actua hoje (dia 22) no Outfest, no Barreiro, ao lado de Samara Lubelski, Curia e Aki Onda.
A informação sobre este projecto é escassíssima na Internet e o teu myspace pouco revela. O que é que nos podes contar acerca desta experiência e dos seus antecedentes?

Nunca me preocupei muito com a quest√£o de divulgar a hist√≥ria por tr√°s deste meu projecto. Nunca foi esse o objectivo. Sempre fiz m√ļsica para mim pr√≥prio, para me agradar (n√£o o fazemos todos?), mas pensei que seria uma parvo√≠ce pensar nessa massa de rej√ļbilo egoc√™ntrico como algo que poderia constituir um "produto" preparado para apresentar e partilhar com um p√ļblico. At√© porque tinha o tempo ocupado com a composi√ß√£o musical em formato partilhado, em DEBUT!, e para mim n√£o fazia muito sentido ter um projecto "a solo". Ent√£o, agora, aproveitando uma pausa sab√°tica do mesmo e tamb√©m todo um novo panorama musical √† volta de sonoridades que me agradam bastante, decidi tornar reais e p√ļblicas estas minhas incurs√Ķes por caminhos que outrora fariam apenas sentido no seio da minha privacidade; nasce ent√£o Manuel Gi√£o.

Manuel Gião não é, pelo que sei, o teu nome verdadeiro. Há algum sentido especial na adopção deste nome?

Por acaso, √©. S√£o os meus nomes do meio. Nunca gostei deles, mesmo. S√≥ h√° relativamente pouco tempo √© que me habituei a us√°-los e desde logo pensei que seriam √≥ptimos neste contexto. Para al√©m disso, √© o nome do meu av√ī materno, e gosto de pensar na coisa como sendo uma pequena homenagem √† pessoa em quest√£o. A minha m√£e adora a ideia.

Dos temas que se podem escutar no mesmo myspace nota-se a presen√ßa constante de uma guitarra, mas tamb√©m de electr√≥nica. √Č nestes dois campos que te sentes mais √† vontade?

Actualmente, sim. A guitarra sempre fez parte do meu quotidiano musical, em diferentes abordagens e formatos, e continua a fazer, agora acompanhada de uma recente e pecaminosa paix√£o por componentes electr√≥nicos. S√£o duas linguagens facilmente associ√°veis e f√°ceis de manobrar. Mas n√£o nego que gostaria de vir a poder fazer coisas mais "fora" com percuss√Ķes, metais, etc. Depende um pouco do mood com que se trabalha (e do budget para tal, claro).

O que é que mais faz parte do processo de criação?

Pegando na ideia atr√°s iniciada, √© tudo uma quest√£o de estado de esp√≠rito. A solu√ß√£o mais f√°cil √© pegar na guitarra, lig√°-la ao amplificador, meter uns pedais pelo meio e est√° feito. Easy listening, ou inferno em chamas, dependendo da hora, dia e m√™s. Por vezes passa por lig√°-la ao computador e process√°-la. Se estiver com paci√™ncia, leva com o processamento antes de chegar √†s m√°quinas. Se n√£o estiver muito virado para a guitarra, a m√ļsica surge ent√£o de todo o lado. Pick-ups com metal agarrado, microfones de treta, um bocado de uma guitarra inutilizada (ao qual PCF Moya carinhosamente baptizou de "giarra") jacks que n√£o ligam a lado nenhum, ou que ligam a demasiados s√≠tios, ou mesmo samples externos, que processo no caminho. Utilizei alguns do Bruno Silva, uma √ļnica vez, e eventualmente voltarei a faz√™-lo. Mas basicamente, √© o humor quem decide.

Existe algum caminho musical identific√°vel no que diz respeito √†s tuas audi√ß√Ķes que te tenha levado a estes campos de explora√ß√£o. Algum nome em particular?

São vários campos, e distintos entre eles... Não sei propriamente indicar um ou vários nomes que ache representativos como influência, ou que pelo menos possas reconhecer no meu trabalho, mas posso chutar alguns nomes que tenho andado a ouvir recentemente: Wolf Eyes, Black Dice, Deerhunter, Hototogisu, Ben Frost, Osso, Hair Police, Dead Machines e por aí. Mas não sei se ajuda muito, pois são nomes de uma fase específica que estou para aqui a atirar ao ar. Também posso sempre alegar que oiço de tudo um pouco, e que todo esse pouco me influencia, de certa forma.

Utilizaste de alguma forma o myspace como tubo de ensaio para de certo forma granjear alguma atenção sobre o teu trabalho? Segue-se um disco em breve ou um CD-R?

Sinto-me tentado a dizer que sim. Afinal de contas, √© essa a fun√ß√£o da comunidade MySpace, no que toca √† m√ļsica. Podia falar sobre as mil maravilhas do mundo "myspaciano", mas penso que j√° foi tudo dito sobre esse produtivo local virtual. E sim, existe uma edi√ß√£o em CD-R nobre planeada para breve (um disco, por assim dizer), pela Searching Records, mas que ainda n√£o tem nenhuma data prevista. √Č para breve, muito breve, dizem os astros.

Sentes-te identificado com a urg√™ncia e com a forma de actuar destes novos projectos de m√ļsica livre que cada vez mais marcam presen√ßa neste pa√≠s?

Sem complicar muito, sim, sinto-me perfeitamente identificado com o panorama actual e as suas respectivas necessidades enquanto movimento art√≠stico / social. E o facto de existirem in√ļmeros projectos ditos "livres" a acorrerem aos ouvidos das pessoas s√≥ refor√ßa a ideia de que existe uma urg√™ncia colectiva em trazer toda essa malta para a rua e tratar de reeducar as massas (ou mesmo as minorias j√° existentes). Nesse aspecto, posso-me integrar e sentir confort√°vel com a associa√ß√£o, sem tirar nem p√īr.

Imagino que as categoriza√ß√Ķes que se podem ver no teu myspace, death metal, concrete e italian pop, sejam uma brincadeira. Mas pergunto: √© isso um sinal que n√£o saber ou n√£o queres classificar o que fazes?

Inicialmente, não sabia o que havia de escolher, e também não queria colocar algo "demasiado óbvio e usado" (seja lá o que isso for), então decidi-me ficar pela piada fácil. Também porque não pretendia limitar a coisa a um ou três nomes máximos para correntes musicais. Acabou por ficar engraçado, na minha opinião - não faço a mínima ideia do que seja o concrete e não sabia que se podia diferir a pop italiana da pop em geral... [risos]

Como correram as experiências ao vivo até agora enquanto Manuel Gião?

Bem, posso dizer que correram bem. Na verdade, foram apenas duas at√© ao momento. Uma com o PCF Moya e as nossas guitarras, em modo ensemble, que correu muito bem, a meu ver. Entendemo-nos bem e at√© pode ser que dessa colabora√ß√£o nas√ßa algum rebento colectivo. Outra, sozinho, a aproveitar um "buraco" num espect√°culo do Tiago Sousa com a francesa SRX, que me permitiu distrair os presentes durante cerca de vinte minutos, numa sess√£o mais descontra√≠da e intimista - que apesar de n√£o me ter pessoalmente agradado na altura, chegou-me depois aos ouvidos em formato digital e foi uma agrad√°vel surpresa. Mas, para algu√©m que nunca tinha planeado trazer estas pe√ßas para um palco, posso afirmar que foi bastante positivo, e que a ideia √© continuar a pisar palcos enquanto m√ļsico singular (se bem que gosto das colabora√ß√Ķes, e tenho j√° algumas coisas planeadas para breve).

Actuas em breve no Outfest, no Barreiro. Vais sentir-te como peixe dentro de água? Os territórios das bandas que estão no festival são aqueles com os quais te identificas?

Penso que sim; equipa que joga em casa tem a obrigação de se sentir bem, digo. Isto tanto a nível geográfico como musical. Alguns dos artistas intervenientes são até para mim referências, por isso vou certamente sentir-me em casa.

Que levar√°s musicalmente ao Outfest? Como te est√°s a preparar para a ocasi√£o?

Estaria a mentir se dissesse que n√£o me estaria a preparar para tal, at√© porque me vou estrear com a projec√ß√£o de um v√≠deo concebido para a ocasi√£o, aproveitando o facto de este ano o festival se realizar num audit√≥rio e as condi√ß√Ķes t√©cnicas o permitirem. Penso acompanhar essa pe√ßa visual com material que j√° esbocei em casa e que posso eventualmente vir a utilizar no primeiro CD-R, em nuance com algumas coisas mais "extremas", familiares de excertos que disponibilizei no myspace. Neste momento encontro-me ainda a definir o material que vou levar e tamb√©m que roupa devo vestir... Faz parte, na minha opini√£o. [risos]


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
21/06/2007