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BARR
Sumarizar por aí


Assim que cessa a catadupa de palavras metralhadas por Brendan Fowler, num tom fronteiriço entre o cantar e o falar, tornam-se evidentes três constatações: a palavra ainda serve como instrumento à catarse, todo o preconceito acerca do spoken word é para ser esquecido, Los Angeles (residência do próprio) parece verbalmente sobrepovoada à luz de um disco de BARR (sigla que certifica Brendan always right). Eis, pois, alguém que justifica totalmente a existência da 5RC, enquanto ramificação da Kill Rock Stars que abriga criativos movidos por uma mais presente rebeldia perante um molde rock tradicional (esse que a KRS, desde sempre, desfaz em fanicos). Ou seja, o segundoSummary lida com uma sobrecarregada transição emocional – vivida por Brendan - recorrendo a métodos distintos dos que se reconhecem imediatamente às riot grrrls ou às bandas póstumas a essa vaga de Olympia. Além disso, Brendan Fowler conta com duas alíneas de currículo que o tornam apetecivelmente suspeito: integrou temporariamente os Animal Collective, na fase embrionária de Baltimore, e ainda o ano passado acompanhou os Xiu Xiu na digressão de um The Air Force que ainda não deixou de ecoar. Como que na “ressaca” da entrega confessional que se verifica transversalmente a Summary, Brendan Fowler abraça as questões do Bodyspace sem alguma vez tropeçar na hesitação que procuram impor os traiçoeiros trava-línguas.
Sei que estás sempre ocupadíssimo, com a revista ANP Quaterly (da qual é editor) e tudo isso, mas fala-me um pouco do que tens feito.

Este último ano foi de loucos!... Vivi uma grande mudança na minha vida em Abril e não tenho permanecido num lugar mais do que duas semanas, desde aí. Devo dizer que me sinto incrivelmente abençoado pelas oportunidades de viajar e pelos motivos que me levam a mudar de lugar a toda a hora, mas, na verdade e em resposta à tua questão, acrescentaria que este último ano foi de mudança e de amadurecimento, de esforço por tentar compreender as coisas por mim mesmo e como me devo relacionar com os outros. Summary lida directamente com isso. Se escutares o disco, tornam-se nítidas as coisas a que me referi. De facto, desde que gravei o disco, as situações a que me refiro, conheceram desenvolvimento, ou terminaram, ou sofreram uma mutação. Num próximo disco, que irei gravar com banda durante a digressão de Março, existirá uma música que aborda isso. Falei tão especificamente sobre as coisas em Summary e tanto aconteceu desde aí, que sinto ser-lhe devido uma adenda. A música chamar-se-á exactamente “Addendum” (adenda).

Faz sentido teres mencionado a tua intenção em explorar a tua própria visão da pop em Summary. Como reagiu a isso o primeiro grupo de pessoas a que deste a conhecer o disco?

Bem... São amigos próximos aqueles a que mostrei o disco antecipadamente. Pessoas muito familiarizadas com o que faço e interpretaram-no como uma total mudança ou extensão, ou uma evolução. Dependendo de cada pessoa. Alguns foram peremptórios quanto ao facto de não ser, por inteiro, um disco pop, mas esses concordaram que eu me encontrava mais próximo de “cantar” neste disco – consenso esse que representava essencialmente a minha única preocupação face a este álbum. Aprender a cantar é muito importante para mim, porque sou surdo a tons e, mesmo assim, farto de me limitar à fala nos discos.

Suponho que a palavra Summary (sumário) se aplique a uma série de contextos referentes ao disco, mas, mesmo assim, interrogo-me se não respeitará ao facto da sua duração ser mais curta que o normal. Summary enquanto a representação editada do que poderia ser...

Sinto-o como um sumário intimo dos cinco meses que antecederam à sua finalização. Fiquei com a ideia de ter conseguido compactar nele uma série de ocasiões marcantes e a referência a uma imensidão de incidentes. O álbum tinha outro título, mas, quando estava praticamente completo, entendi que esse já não se apropriava, e que o disco era realmente um sumário preciso desses meses.

E qual era esse primeiro título? Servia para designar um processo em decurso?

Hmmm... Não quero parecer caprichoso, mas prefiro não revelá-lo. Acabará por surgir numa circunstância futura – provavelmente no disco “ao vivo” que iremos gravar em digressão.

Enquanto gravavas as vozes para Summary nunca te aconteceu sentires a disposição ideal para determinada música e não existir um estúdio por perto? E quais das músicas sentes estarem perfeitamente sincronizadas com um sentimento temporalmente específico?

Sim, sucederam-se uma série de momentos em que desejava ter um estúdio à mão, mas não me recordo exactamente quais. Tudo decorreu com normalidade. No que respeita aos sentimentos, creio que a maioria das músicas resultaram tal como desejava. A quarta faixa, “Complete Consumption of Us Both”, é completamente devastadora do modo que lhe pertence – talvez até demasiado para algo que se expõe. Tenho quatro amigos que vivem actualmente grandes rupturas sentimentais, e cada um deles me disse que essa música inclui a emoção que lhe pertence, que é terrível, mas funcional. E a última, “Context Ender”, é a minha favorita pelo modo como atinge o sentimento que procura traduzir. Irrita-me um pouco a cada vez que a oiço.

Pareces frequentemente dirigir-te a alguém nas letras de Summary. Apontas a um alvo vago ou a indivíduos que conheces?

Diria que, em metade dos casos, aponto a alguém específico e, noutra metade, a figuras mais abstractas ou genéricas. Ou será mais 60/40? Ou 80/20? Não sei ao certo…

Já actuaste com banda por ocasião deste novo disco? Como foi? Acreditas que as fundações de Summary ganharam um som mais preenchido com isso?

A banda começará a ensaiar daqui a uma semana, e nenhum deles se conhece sequer! Escrevi e gravei o disco com uma banda completa em mente, mas, dadas as circunstâncias e as pessoas que actuarão ao vivo, acho que resultará de um modo distinto, quando comparado com o disco. Estou completamente empolgado pela perspectiva desse resultado.

Qual será exactamente a formação?

O Corey Dieckman tocará baixo – ele toca nos Landlond, e tocava nos Ponies e Jetomi, além de também ter gravado o baixo que surge em Summary. O baterista será o Kevin Shea, meu herói pessoal e a razão pela qual estudei free jazz no liceu. Ele integrava os Storm & Stress. O Ethan Swan ocupar-se-á do piano – actua nos Corpse Kiss e fazia parte dos Emergency e dos Car Clutch comigo.

Sei que tu, o Dave, Josh e Noah (integrantes do muito estimado Animal Collective) costumavam assistir a concertos de Pavement durante a juventude vivida em Baltimore. Eu não consigo deixar de associar aquele brainstorm lírico típico do (Stephen) Malkmus (vocalista e guitarrista dos Pavement) ao que cultivas. Sentes-te próximo desse malabarismo lúdico das palavras que se sucedia nos Pavement? A nível lírico, o que te inspirava nessa altura?

Frequentávamos juntos esses concertos e julgo que os Pavement constituem, em grande parte, um arquétipo dos Animal Collective. Existe uma parte deste disco em que verso sobre as mudanças que se sofrem na transição de velhas para novas bandas – ou seja, tal como o observo pessoalmente. Acho tudo isso muito interessante: a sociologia latente às bandas e aos respectivos públicos, os diversos meios do underground e as gerações. Mas a tua questão não era acerca disso. Para satisfazer a tua curiosidade, diria que a influência se encontra lá. As suas palavras foram das primeiras a cativar em mim uma atenção especial.

Qual é o teu disco favorito de Pavement e a frase predilecta do Malkmus?

[surpreendido] Sei que ainda os adoro porque a resposta a essa pergunta muda constantemente. Talvez o Crooked Rain, Crooked Rain. No que se refere a frase predilecta, talvez o primeiro verso completo da “Stereo” - Pigs they tend to wiggle when they walk - que normalmente enfurece e merece o ódio de muitas pessoas. Parece tão preguiçosamente arrogante e mesmo tão engraçado. Um bocado estúpido até. Fantástico.

Planeias alongar a tua colaboração com Hawnay Troof (Vice Cooler)? Como foi contribuir para Dollar and Deed (álbum injustamente ignorado por cá o ano passado)?

Foi uma experiência incrível. O VC (Vice Cooler) é uma amigo que é muito, muito querido e adoro o que faz, mas não sabia ao certo o que iria resultar de uma colaboração. Costumo trabalhar sozinho nos dias que correm. Mas ele entregou-me a pista pertencente à batida (de “Expectations and Delivery”), escrevi os meus versos, gravei alguns takes para que os manipulasse à vontade, e, após algumas semanas, ouvi a coisa mais pop, produzida e “quitada” que alguma vez fiz! Foi muito entusiasmante, e fez-me ver toda uma diversidade de aspectos em que nunca tinha pensado. Equacionamos fazer outra música – um novo single este Verão. É o nosso grande plano. Ele é o maior!

Mantive-me atento ao blog de Xiu Xiu (a conhecer em www.xiuxiu.org) à medida que andavam juntos em digressão e tudo me parecia muito intenso. Como foi testemunhar o florescer de The Air Force ao vivo? E quão triste foi abandonar a digressão ao chegar a Nova Iorque? Tenho pena de não ter a certeza se serás tu em algumas polaroids que tenho em que o rosto do fotografado aparece coberto (polaroids essas que ficaram a cargo do artista David Horvitz que as disponibilizou a todos os que lhe fizeram chegar cargas durante a digressão)...

Os Xiu Xiu são uma das minhas bandas favoritas e foi uma honra integrar a digressão deles. Tinha-os visto com a formação de dois membros (Jamie e Caralee) umas cinco vezes antes dessa digressão, mas no primeiro dia de digressão, quando os conheci e os vi actuar pela primeira vez com um terceiro membro, (o percussionista) Ches (Smith), chorei durante quase todas as músicas. Uma das mais poderosas e emocionalmente intensas bandas de sempre conseguiu duplicar a força dessas características! Inacreditável. Algo digno de se ver. Encontram-se no topo de forma. Senti-me tão sortudo por ter testemunhado isso. E geralmente sou eu que apareço sem cabeça e o corpo coberto de tatuagens nas polaroids.

Agora que a 5RC (filial menos ortodoxa da Kill Rock Stars) se encontra prestes a deixar de o ser, em que ponto ficarás tu a partir daqui?

Logo após ter sido formalmente anunciada essa novidade, fui convidado a ser representado pela Kill Rock Stars em território americano e sinto-me feliz por continuar a contar com a distribuição da Upset The Rhythm no Reino Unido e Europa. São impecáveis!


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
12/03/2007