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Leafcutter John
Debulhar o sonho outonal


Quando, ainda de voz isolada, John Burton proclama em tom pomposo a frase Let it begin, The Forest and the Sea passa a ser uma Caixa de Pandora virada do avesso e os seus compartimentos casas num tabuleiro de xadrez onírico prestes a encontrar-se preenchido por blocos sonoros que, por aproximação inexplicável, se encaixam e formam a narrativa a que se compromete o conceito do quarto disco assinado por Leafcutter John. Expô-lo desta forma será, provavelmente, demasiado técnico, quando há muito de humano e sensível no tratamento quase subconsciente (ou não fosse um disco feito sonho) da flora que cresce, consonantemente, a partir da folk e electrónica aliadas (consultar texto anexo para informação mais detalhada sobre essas componentes). A capacidade de elaborar storytelling a partir de ressonâncias não se encontra ao alcance de todos e, nisso, John Burton é exímio.
Como tem sido a digressão até aqui? Como se sentiste em relação ao concerto de Atenas?

A digressão tem sido bastante boa – sinto que nós os três começámos realmente a adquirir uma mais definida noção de como havíamos de tocar. O concerto de Atenas foi especial para mim, porque é aí que vive a minha companheira.

Além de ter cultivado em ti o gosto por tocar o Bouzouki (longa guitarra de origem helénica), de que outras formas a cultura Grega veio a influenciar a tua música?

Não me sinto particularmente aglutinado pela Cultura Grega, mas, quando lá estou, surpreende-me o papel integral que representa a música na sociedade. Coleccionei uma série de instrumentos gregos: um Bouzouki, um Baglama (pequeno Bouzouki), uma Lira Cretense com cordas suaves, e um Ud (instrumento de cordas turco). Não posso esperar dominar todos estes instrumentos na perfeição, mas os sons que lhes extraio possuem qualidades peculiares que muito aprecio.

Enquanto lidavas com The Forest and the Sea numa base diária, foste em alguma ocasião surpreendido por compartimentos, à partida ocultos, que o disco pudesse ter revelado ao longo da digressão? Como tens lidado com a amplitude da sua dimensão narrativa?


Tenho, sobretudo, sido surpreendido pelas oportunidades que advêm da colaboração com duas pessoas – a Alice Grant e o Leo Chadburn.

E de que forma exacta a Alice e o Leo acrescentaram o seu próprio desempenho ao concerto que tinhas estruturado? Ou seja, até que ponto te adaptaste à sua presença em palco e que liberdade lhes era concedida ao lidar com o contexto conceptual de The Forest and the Sea?

Durante as gravações do disco, convidei a Alice e o Leo a virem até ao estúdio para contribuírem com algumas vozes, daí que seria lógico convidá-los também para a digressão. Foi fantástico colaborar com eles – ambos são músicos formados, enquanto eu não. Por isso, desenvolvem perspectivas de que sou incapaz. No que diz respeito à transposição do álbum para o palco, decidi, desde muito cedo, que não queria usar partes pré-gravadas tanto quanto possível – levou isso a que reduzíssemos os elementos instrumentais no disco e acumulássemos uma maior quantidade de porções vocais. Quando em palco, existem alturas em que todos estamos a tocar livremente – o concerto encontra-se mapeado de modo a que saibamos que partes nos concedem essa liberdade de movimentos e qual o tom a explorar em cada uma dessas. Leva isso a que dispúnhamos de uma boa margem para operar.

Quando comparado com o intervalo entre os outros discos, que diferença sentiste em relação a The Forest and the Sea, enquanto passo no teu progresso musical?

Alguma diferença, mas todos os discos são diferentes. Tentei arduamente manter a música em disco relevante em relação à história que estava a tentar contar, e nunca abordei a escrita de um disco dessa forma.

Numa escala percentual, que porção dos vários processos do anterior disco (arranjos, letras, electrónica) estava concluída quando escolheste o título? Fala-me um pouco da tua perspectiva acerca da evolução de The Forest and the Sea.

Acho que o título e conceito surgiram simultaneamente logo no início. A cada vez que o tocamos ao vivo, desenvolve-se um pouco mais. Recentemente, o Leo abandonou a banda para trabalhar numa peça que está a fazer no National Theatre (de Londres). Por isso, estamos a colmatar isso com partes desenvolvidas actualmente.

Tens-te aplicado em algum material novo? Continuas a produzir faixas que provavelmente se adequariam mais aos teus discos na Planet Mu?

Escrevo permanentemente pequenos pedaços de música, mas, por agora, nada de muito relevante. Tenho ideia de que gostaria de gravar outro álbum no início do próximo ano (2007, isto é), mas, sem dar início a isso, desconheço que forma irá assumir. Os álbuns editados na Planet Mu são bastante diferentes, mas é viável referir que se concentram numa manipulação de fontes sonoras. O meu novo material não se debruça tanto sobre essa perspectiva. Antes procura novas formas de expressar diferentes ideias narrativas.

Encontrei algumas sessões de rádio fabulosas que tinhas feito no passado. Repetiste a experiência durante a digressão deste disco? Podes-me actualizar quanto a isso?

Não sei a que sessões te referes...

Refiro-me a uma gravada para a Resonance FM em Agosto de 2003. Resultou de um modo eclético e representativo em relação ao teu material. Lembras-te?

Actuei numa série de sessões para a Resonance FM. Talvez fosse uma com o Rob e a Anne da revista Wire. Terá sido por altura do The Housebound Spirit. Esse disco tomou-me três anos e é realmente impossível tocá-lo ao vivo, porque está preenchidíssimo de edits e mudanças. Levou isso a que utilizasse imensos ficheiros sonoros originais do álbum e os remisturasse ao vivo. Actuava a solo nessa altura e isso era muito diferente do que faço agora com a Alice e o Leo.

Qual foi a última peça de equipamento que adquiriste e que tipo de utilidade veio essa a ter na substituição dos sons pré-gravados que mencionavas há pouco?

Comprei um pequeno aparelho de gravação – um Zoom H4 – porque sentia saudades do meu mini-disc entretanto avariado. É muito importante para mim ser capaz de gravar pequenos sons interessantes, que oiço por toda a parte, porque todos esses me inspiram.

Não te surpreendem os resultados obtidos pelas outras pessoas na utilização do teu próprio software? Tens desenvolvido algum novo software?

As pessoas alcançam resultados completamente surpreendentes com o meu software – inspira-me imenso observar os métodos que surgem nesse processo. Por vezes, desenvolvo programas que nunca chego a usar e, um ano ou dois mais tarde, venho a saber acerca do que alguém conseguiu com esses. Leva isso a que me sinta cativado a aprender a usá-los. A minha última criação com Max foi um gerador de letras para canções – absorve informação a todos os spam (detrito sobre a forma de e-mail) e forma canções a partir daí.

Que lembranças manténs dos teus concertos em Portugal? Sei que tentaste um concerto de Questão & Resposta no Passos Manuel, Porto. Esse formato ainda é aplicável à presente digressão?

Adorei tocar no Porto. Esse cinema (Passos Manuel) era um sitio tão encantador. Em grande parte dos concertos, reservamos um momento para questionar o pública acerca de que coisas devíamos cantar e improvisamos uma ou duas músicas com base nisso. Costuma ser bastante divertido e aproxima-nos mais do público, o que me parece bastante importante.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
16/01/2007