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Kode9
Uma visão do futuro


Kode9 é um dos nomes de que mais insistentemente se fala nos dias de hoje no mundo da música. Em 2006 veio juntar-se (em disco) a Burial como um dos nomes de ponta do dubstep e fê-lo com Memories of the Future, um dos documentos mais importantes do ano. Steve Goodman, cabecilha do projecto que se completa neste disco com Spaceape, é DJ desde o início dos anos 90 e por isso sabe retratar e projectar o dubstep como poucos: ele é o dono da Hyperdub, justa candidata ao título de editora mais interessante do ano. Memories of the Future e Burial, ambos com selo da Hyperdub, são indubitavelmente dois dos melhores discos lançados no ano que ainda corre. Em entrevista, Steve Goodman fala acerca das origens do dubstep e das suas ligações, traçando-lhe o futuro ao pormenor e avançando também com as coordenadas de mudança para o projecto. Kode9 & the Spaceape é um dos nomes principais do primeiro Festival Roots & Routes, que decorre entre 7 e 10 de Dezembro no MusicBox, em Lisboa; actuam no dia 9 com Memories of the Future e algumas novidades na bagagem.
Nos últimos dois anos o dubstep começou a desfrutar de uma mais exposição e influência. Quais são na sua opinião as principais causas para isso ter acontecido?

O Dubstep Wars Breezeblock Show na BBC Radio 1 em Janeiro de 2006; DMZ, a editora dirigida pelos Digital Mystikz e Loefah e amúsica de Skream; os shows de Dubstep na estação lider de rádio pirata Rinse Fm nos últimos dois anos, com arquivos em www.barefiles.com. CDs como o álbum de Burial e as compilações Dubstep Allstars.

O dubstep é de certa forma relacionado constantemente com o sul de Londres. No entanto não é da cidade… como é que vê essa possível ligação?

A ligação principal é que a melhor música que costuma estar associada com essa palavra veio do sul de Londres. Se ignorares essa palavra por um segundo, esta parte do mundo tem uma história forte em música de baixo, do reggae e dub passando pelo jungle.

Como é que vê a ligação do dubstep com o UK Garage e com o grime? Acredita que é uma relação saudável?

Tal como grime, o dubstep emergiu do lado mais negro do uk garage. Como em todos os subgéneros musicais, visão de túnel e purismo podem produzir alguma música fantástica. Também pode levar a um beco sem saída criativo, no qual possibilidades sónicas são postas de parte por causa de alguma definição não proferida de identidade. Pessoalmente não me interessa mais o que é o grime e o que é o dubstep. A melhor coisa de gerires a tua própria editora é que não respondes à visão de outra pessoa qualquer. Se lançar dubstep com vozes não é dubstep, quem é que se importa?

Acredita que dubstep tem já consistência suficiente para não desaparecer daqui a alguns anos? Acha que é um tipo de música com capacidades para se desenvolver e procurar novos caminhos?

Espero e acredito que a cena se vai desenvolver de uma forma similar à da maior parte dos géneros musicais electrónicos. Vai explorar o seu campo de possibilidades e esgotar-se a si própria numa inundação de clones. Essa é a forma de como as coisas crescem. É um processo evolutivo standard. De quando em vez um novo produtor vai emergir para dar um beliscão à fórmula um pouco. Esta é a forma como estas coisas funcionam se olhares para estes processos historicamente no contexto da música underground de Londres. A excitação e vibração iniciais migram sempre para uma linhagem de música. No entanto, acredito que existem alguns artistas muito fortes na cena que vão continuar a inovar, mutar, crescer e surpreender as pessoas com a sua música.

Alguns discos, como o de Skream, parecem estar a querer levar o dubstep para territórios mais melódicos e de certa forma mais luminosos. Acredita que esse é um dos possíveis caminhos a seguir?

Acredito que 100% de escuridão é um beco sem saída. Tenho o máximo de respeito pelo Skream como produtor, especialmente faixas como “Request Line”, “0800 dub” e “Tapped” e a forma como ele trouxe melodias de sintetizador para a cena. Baixo e bateria é bastante aborrecido se sozinhos – a música necessita de mais cor.

Como é que Memories Of The Future foi concebido? Acha que o seu conhecimento como DJ e a sua experiência foram importantes para fazer este disco?

O nome do disco veio mesmo no fim. Parecia cristalizar bem a vibração para nós. O álbum é mesmo apenas uma colecção de faixas que pareciam resultar bem juntas de uma forma bastante estranha. Não tínhamos uma ideia preconcebida daquilo a que o disco iria soar, mas queríamos que ele fosse ao mesmo consistente e diverso. Não houve um plano mestre. Sou mais velho do que a maioria nesta música, e sou DJ desde 1990 por isso tenho uma grande variedade de influências. O nosso álbum e o álbum de Burial é apenas o início de uma série de experimentações na editora Hyperdub.

O que é que pensa do disco de Burial? Acredita que deu ao dubstep muitos seguidores?

Burial tem um som muito único que junta o uk garage com produtores de dub da Alemanha como Pole. “Distant Lights” é a minha música favorita feita por ele. O álbum ajudou definitivamente a abrir a música a uma audiência mais vasta, e também mostra aos produtores o que é possível dentro da etiqueta do dubstep com tecnologia muito básica. Tem sido definitivamente o lançamento a vender mais dentro da cena, sem ser vagamente comercial no seu som.

Algumas pessoas dizem que a Hyperdub é a editora mais interessante do ano. Até agora lançou dois discos com muito sucesso: Burial e Memories Of The Future. Quais são os seus planos para a editora?

Produzir e lançar melhor música em 2007.

Dentro do dubstep, quais são os outros discos de 2006 que acha que vale a pena ouvir? E fora do dudstep?

Dentro do dubstep, tem sido mesmo sobre Burial, Digital Mystikz, Loefah e Skream, mas também Bug e Warrior Queen. Mas a maior parte da música que eu ou ouço, quando não estou no Djing, é fora do dubstep. Gostei mesmo de algumas faixas de Sa-ra como “Hollywood” e “Glorious” e o album de Flying Lotus, 1983 – aquela combinação de hip-hop sintético com aspectos de George Clinton e Prince apanha-me sempre.

Mala dos Digital Mystikz disse no outro dia que se tirássemos uma fotografia às pessoas nos seus concertos não poderíamos dizer que tipo de música estava a ser tocada. Tem esta opinião, esta visão?

DMZ faz uma grande mistura de multidão. É por isso que a vibração tem sido tão boa este ano. É raro obter uma mistura tão positiva de pessoas num clube.

Vem a Portugal em Dezembro actuar no Festival Roots & Routes. Como é Memories Of The Future quando tocado ao vivo? O que é que o público português pode esperar?

Há bastante material novo desde a saída do disco. O nosso disco funciona realmente melhor num contexto ao vivo, creio, quando se pode sentir o baixo convenientemente, especialmente nas faixas mais lentas. O Spaceape vai surpreender muita gente com a sua energia e a sua presença em palco. Neste momento, ainda gosto tanto de Djing que não quero fazer uma performance mais live por enquanto nos nossos concertos. Mas no próximo ano isso também vai mudar. Estamos a preparar um novo formato para o próximo ano.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
04/12/2006