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Tiago Sousa
A claridade da transição


Patr√£o da netlabel Merzbau, membro dos Goodbye Toulouse e dos Jesus, the Misunderstood, Tiago Sousa estreou-se em 2006 com um disco que aconteceu quase por acaso: foi obra e resultado da oferta da sua av√≥: um piano, que lhe chegou a casa numa manh√£ como qualquer outra e que lhe trouxe igualmente a obriga√ß√£o e legitimidade de honrar a d√°diva. Crep√ļsculo √© um disco que surge tamb√©m fruto do descomprometimento e da liberdade. √Č um disco onde o piano tem o espa√ßo quase todo, mas tamb√©m o t√™m os efeitos, os pedais, ru√≠do, vozes gravadas e outros teclados. Crep√ļsculo marca tamb√©m a estreia da Merzbau no formato f√≠sico (em CD-R, claro est√°). Em entrevista, Tiago Sousa actua e mostra-se como se estivesse a gravar o seu segundo disco: descomprometido e na expectativa.
Antes de mais come√ßava por perguntar-te como acontece este disco, Crep√ļsculo‚Ķ

Acidentalmente, a minha avó ofereceu-me um piano este verão. E ter um piano no quarto acabou por se revelar um estímulo imenso. Tinha tido aulas de piano quando era novo e foi só rebuscar alguns ensinamentos. As coisas começaram a sair naturalmente através de improvisos em que eu próprio estava a descobrir o que conseguía fazer com este instrumento. Comecei a ordenar as ideias e passado uns dias comecei a grava-las.

Existe mais alguma história curiosa acerca deste disco além da oferta da tua avó?

Gostava que sim‚Ķ mas n√£o. [risos] Posso contar-te a surpreendente forma como me foi oferecido o piano se quiseres‚Ķ √Č a √ļnica hist√≥ria curiosa que existe.

Se calhar era curioso...

Foi numa quarta feira de manh√£. Eu estava a dormir como √© meu costume faz√™-lo por horas a fio, √© das coisas que mais gosto de fazer na vida. E tocam-me √† porta. A minha m√£e tinha-me avisado para estar atento √† campainha que iam l√° entregar uma coisa. E quando abro a porta ainda a praguejar contra quem me tirou do sono, dizem-me: "√© o s√©timo esquerdo? V√≠nhamos entregar um piano". Caiu-me tudo nesse instante e o homem deve ter percebido a minha estranheza e perguntou se a minha av√≥ n√£o dava aulas de piano, que ela me queria oferecer um piano. Na altura foi um peso enorme nos ombros. Porque percebi a import√Ęncia da oferta mas com o tempo essa press√£o dissipou-se e tornou-se em algo natural. Mais uma ferramenta para poder expressar as minhas ideias.

Mas parece haver algo mais na concepção deste disco além do piano, ou estou errado?

Est√°s certo. N√£o tinha muita confian√ßa na minha capacidade para fazer um disco unicamente de piano. N√£o acho que as m√ļsicas valham tanto por si s√≥. S√£o constru√ß√Ķes harm√≥nicas simples que devem muito pouco √† capacidade t√©cnica a que um piano obriga. Ent√£o decidi fazer uso de alguns truques como grava√ß√Ķes de campo e manipula√ß√£o de som. Existe quase no fim uma parte de ru√≠do essencialmente que foi criada com a minha pedaleira. E umas coisas gravadas com um teclado manhoso manipulado por essa mesma pedaleira. Foi um pouco a forma que encontrei de dar algum sentido √†s composi√ß√Ķes ao piano e acho que acabaram por funcionar bastante bem.

Como foi trabalhar a solo quando comparado com o trabalho que fazes nos Goodbye Toulouse e nos Jesus, the Misunderstood?

Completamente diferente. Para os Jesus contribuo muito pouco a n√≠vel de composi√ß√Ķes, esse trabalho cabe ao Lu√≠s. Nos Toulouse actuais o nosso modo operandis tem sido, eu componho os temas em casa pequenas linhas de guitarra, algumas coisas mais concretas e mostro-lhes. A partir da√≠ estou aberto a todas as ideias, muitas vezes as ideias que levo de casa acabam por se revelar menos interessantes que as que eles me d√£o. Neste trabalho a solo n√£o tive de prestar contas a ningu√©m. Ali√°s isto √© tudo feito com uma dose enorme de irresponsabilidade e descomprometimento. N√£o penso muito no que fa√ßo e no porqu√™ de o fazer. As coisas surgem naturalmente, eu vou assentando ideias, gravando, e mostro √†s pessoas sem esperar nada. A grande surpresa tem sido reparar que regra geral as pessoas parecem apreciar aquilo que tenho feito.

Entretanto j√° apresentaste o disco ao vivo se n√£o estou em erro. Como tem corrido? Como abordas a m√ļsica de Crep√ļsculo ao vivo?

Fiz duas actua√ß√Ķes. A primeira para lan√ßar o disco aqui no Barreiro, essa foi horr√≠vel. N√£o d√° para levar um piano √†s costas e tive de tocar com um teclado com o qual nunca tinha tocado na vida. Conclus√£o‚Ķ isso a acrescentar a inseguran√ßa de tocar pela primeira vez aquelas m√ļsicas deram num certo desastre. Felizmente guardei as duas musicas que sabia melhor para o fim e a coisa safou-se. Mas foi um concerto muito curto e ainda muito a patinar. O segundo foi muito mais concreto e com muito mais certeza de como abordar aqueles temas num instrumento que embora igual no seu principio difere bastante de um piano dito ac√ļstico. Tentei aproveitar essa caracter√≠stica a meu favor e aproveitar para por alguns delays e fazer loops que √© coisa que fa√ßo no disco com p√≥s produ√ß√£o mas que ao vivo seria imposs√≠vel com um piano dito normal. Quero ver se no futuro consigo fazer mais alguns concertos. Mas ainda n√£o h√° nada de muito concreto. Gostava de fazer um concerto com um piano mesmo.

Mudando de assunto, este disco foi o primeiro com selo exclusivo Merzbau a ser editado em formado f√≠sico. Porqu√™? √Č uma op√ß√£o a repetir no futuro?

Primeira edi√ß√£o f√≠sica. O porqu√™ de ser a primeira foi porque ficou pronta antes do disco de Jesus, the Misunderstood. O porqu√™ do formato f√≠sico, eu nunca vi a quest√£o da netlabel como uma defini√ß√£o absoluta daquilo que quero fazer com a Merzbau. Acredito no formato f√≠sico. Apenas acho que deve ser repensado e direccionado para o p√ļblico apropriado. Vejo ambos os formatos a coexistir o formato netlabel que permite um maior descomprometimento e uma maior rapidez quer de acesso quer de produ√ß√£o. E o formato f√≠sico para fazer coisas mais pensadas, cuidadas e acarinhadas. N√£o lancei o meu disco em formato netlabel porque quis tamb√©m come√ßar a perceber como se poderia processar a coisa. Como era o meu trabalho n√£o tinha que prestar contas a terceiros e deu para come√ßar a olear a m√°quina e a perceber o que √© que tem de estar envolvido. Pois come√ßamos a falar de dinheiro que embora seja pouco conv√©m ser bastante bem controlado e com as regras bem definidas...

Voltando ainda ao teu trabalho com os Goodbye Toulouse e com os Jesus, the Misunderstood. Em que pé estão os dois projectos neste momento?

Bem, Jesus est√° na rua. Agora estamos a trabalhar em conseguir mais datas para mostrar a m√ļsica ao vivo. Toulouse estamos em modo trabalho intenso para o concerto de s√°bado no out.fest, algo assustados ainda com a ideia, falando mais por mim √© claro. J√° temos alguns temas gravados para o disco, outros ainda em processo de serem acabados. Espero que consigamos ter isto na rua ai por Fevereiro/Mar√ßo. Depende do tempo que tivermos dispon√≠vel para acabar. Mas estamos os tr√™s muito motivados com o que estamos a fazer e com grande vontade de o mostrar √†s pessoas.

E no que diz respeito ao teu trabalho como Tiago Sousa, qual é o futuro. Tens trabalhado em novo material, já pensas numa nova edição?

Tenho uns temas compostos que j√° toquei no concerto em Coimbra. Conto grav√°-los em breve. Est√° pensada uma edi√ß√£o de um EP conjunto de Tiago Sousa com SRX, uma artista francesa que conheci nos meandros do myspace e com quem criei empatia imediata. Mas ser√° algo mais virado para uma est√©tica mais abstracta, mais baseado no improviso, num ambiente mais √©brio. E pretendo continuar a gravar enquanto tenha material. Com o mesmo descomprometimento com que gravei o Crep√ļsculo. √Č muito refrescante sabes? Podermos fazer m√ļsica sem pensar muito. Um dos meus grandes objectivos com este in√≠cio de trabalho em nome pr√≥prio √© o de trabalhar em acontecimentos espor√°dicos com outros artistas. Quer seja em concertos como em grava√ß√Ķes. Acho esse lado muito entusiasmante.

√Č um lado que vais explorar ent√£o. Apenas em disco ou pensas convidar outros m√ļsicos para os teus concertos?

Sim, quero muito tocar ao vivo com outras pessoas. M√ļsicas minhas, m√ļsicas deles, improvisos, temas compostos em conjunto, artistas de outras √°reas, estou aberto a tudo. Espero poder ter novidades sobre isso em breve... Tenho andado a picar algumas pessoas‚Ķ

Em termos est√©ticos, e ainda voltando a Crep√ļsculo, este disco lembra-me de certa forma o dramatismo de uns A Silver Mt. Zion - faz sentido? - ou de alguns compositores minimalistas. Quais s√£o as influencias directas que absorves neste disco?

Faz algum sentido. N√£o sei bem em que me inspirei, quer dizer se parar para pensar sou capaz de descobrir alguns discos seminais na minha vida que poder√£o ter inspirado a linguagem que trabalhei no Crep√ļsculo. Talvez o Maps of Tacits da Shannon Wright, o Sea and Bells dos Rachels, o Run to Ruin da Nina Nastasia, Erik Satie o disco de Yann Tiersen com Shannon Wright e os inevit√°veis Godspeed You Black Emperor e o Born into Trouble as the Sparks Fly Upward de A The Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-La-La Band. Assim de repente lembro-me destes nomes. Ah, tenho ouvido muito a Half Asleep mas isso foi uma descoberta √† posteriori e identifico-me muito com a linguagem dela.

Que tipo de recepção ou reacção tens tido por parte da imprensa em relação ao teu disco?

Bem, falou-se no UM, falou-se no Rascunho, sei que j√° passou na Qu√≠mica FM no programa Boa Noite e um Queijo e na RUC no Santos da Casa, um pouco por ter l√° ido tocar √© claro. No geral t√™m sido sempre opini√Ķes muito elogiosas que me deixam algo incr√©dulo mas muito feliz. Principalmente porque fiz isto sem aspira√ß√Ķes nenhumas.

E agora vês tudo isto de uma forma mais séria?

Não, nem quero. Tenho as minhas bandas e isto é um escape. Como já disse acima, um laboratório para poder experimentar trabalhar com gente nova com quem não iria ter possibilidade de me juntar se não fosse assim. Vejo que hoje em dia os artistas estão muito abertos a cruzarem-se de forma ocasional e acidental e acho isso muito entusiasmante.

S√≥ para terminar, porqu√™ Crep√ļsculo?

Nem sei. Gosto do que me transmite a palavra, gosto da ideia de ocaso, ponto de transi√ß√£o, gosto da luz do Crep√ļsculo, gosto de quando as noites de borga se prolongam at√© de manh√£ e de repente j√° √© dia outra vez e cruzamo-nos com as pessoas que v√£o trabalhar. Gosto dessa ideia de transi√ß√£o. Se calhar oi√ßo isso nesse disco. Essa tranquilidade que o crep√ļsculo nos transmite. Mas n√£o foi algo muito premeditado.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
30/11/2006