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Inca Ore
De dentro para fora


Inca Ore é o veículo a solo de Eva Saelens, envolvida a fundo ou cooperante com nomes como Jackie-O Motherfucker, Yellow Swans, Alarmist ou Malibu Falcon. A norte-americana tem vindo a registar as regiões mais obscuras e inexploradas do seu cérebro em disco com resultados óbvios. Defensora de um feminismo saudável e pensadora constante, Eva Wild tem vindo a aumentar o seu raio de acção com colaborações em disco e ao vivo. Pela sua constante actividade dir-se-ia que Eva Wild tem consigo o desejo incontrolável de manifestar objectos da sua criação, sem ceder a facilitismos ou a modas. Mais do que um disco, o recente The Birds in the Bushes, a meias com o multi-instrumentista Lemon Bear, é uma experiência sensorial: há uma certa violência crua e perigosa, experimentação e improvisação à flor da pele e a responder aos instintos primários. Em entrevista, Eva Wild aceitou responder a algumas perguntas e abordou com evidente frontalidade os temas mais prementes que rodeiam o seu trabalho musical. Destaca-se por razões óbvias a sua relação entranhada com a música e a sua relação quase obsessiva com a arte.
Tocaste e colaboraste com bandas como os Yellow Swans, Alarmist, Cex Fucx, Malibu Falcon, Gang Wizard, Jackie-O Motherfucker e Axolotl durante todos estes anos. O que é que retiveste ou reténs dessas experiências?

As amizades são o mais importante. As memórias da digressão são igualmente inesquecíveis. Eu fiz de roadie para os Yellow Swans em duas tours nacionais (e também colaborei com eles) e também fizemos uma tour pela costa ocidental. Alarmist fez uma costa ocidental e uma tour pelos Estados Unidos. Andei em digressão tanto pela costa ocidental como leste com Gang Wizard. Andei em digressão com os Jackie-O Motherfucker pelos Estados Unidos duas vezes e vamos para a Europa muito em breve. Colaborei com Axolotl na maior parte as noites na nossa digressão europeia com os Skaters e Tomutonttu há alguns meses atrás. Andar em tour cultiva um laço, pessoal e musical, que aprofunda os sons das pessoas e cimenta um amor quase de família. Durante cerca de um ano e meio, a maior parte do tempo que estive a tocar foi ou a gravar com estes grupos ou em digressão com eles. Por causa da confiança deles em mim e os desafios das colaborações, eu desenvolvi. Acho que um possível impacto negativo de tocar com tanta gente em formas espontâneas é que por vezes eu tenho dificuldade em focar-me e em refinar-me em ideias específicas porque fico demasiado entusiasmada por animar tantas personagens diferentes nesses diferentes grupos.

Como é para ti trabalhar sozinha comparado com o trabalho com outros músicos? Quando é que decidiste fazer música sozinha?

Decidi fazer música sozinha porque estava frustrada com as dinâmicas da banda onde eu tocava, Alarmist. Eu gostava muito daquela banda mas não podia estar calma ou mais feminina naquele projecto. Queria explorar regiões diferentes de ideias e queria testar os meus conhecimentos e sensibilidades musicais infantes e ainda não testadas.

O que é que nos podes dizer acerca de Brute Nature Vs. Wild Magic, editado na Weird Forest?

Gravei esse disco no chão em cimento da minha casa em Oakland, California. Foi a minha primeira tentativa na música a solo. Era pobre, por isso fui ao Guitar Center e comprei uma série de coisas e dei-me a mim mesma um mês para gravar o disco. Tinha de devolver todas as coisas antes que o aluguer vencesse. Tive de ganhar muita coragem para fazer um disco a solo. Dei-me permissão a mim mesma para fazer quaisquer que fossem os sons a sair de mim, e esse mantra tornou-me possível fazer aquela música. Foi aprendendo o equipamento à medida que trabalhava, e fiz o soma partir da minha experiência. Foi gravado e o Pete Swanson dos Yellow Swans ouviu-o e fez dele um CD-R. Depois o Chad Stockdale da Weird Forest ouviu-o e perguntou-me se queria fazer um álbum. Gravei o “B side”, uma peça de 18 minutos para voz, na casa do meu melhor amigo, em Portland, Oregon, em Julho de 2005. Foi uma gravação em preparação do meu primeiro grande concerto de Inca Ore mais tarde nessa noite.

The Birds in the Bushes, gravado com o multi-instrumentista Lemon Bear, tem uma atmosfera muito íntima e estranha. Quer-me parecer que tem muito de ambos dentro deste disco…

Eu liquidifiquei-me a mim própria e derramei. Há tudo de mim nele, até as imperfeições, e eu insisti que até as imperfeições não fossem corrigidas com reverb ou outros doutores. É um disco maioritariamente acústico, e pode-se ouvir carícias e pessoas a perder a cabeça e a chorar por vezes. Queria fazer música que fosse o cunho das pessoas a fazê-lo, sem referências ou influências ou adornos de expectação. Fiz o disco com pessoas a viverem em mundos pequenos, pessoas que não vão a concertos nem sabem quem está em digressão. Na companhia deles senti-me livre para explorar e desenhei latitudes e longitudes na minha frequência mais alta. É muito pessoal, e não presta tributo ao loop de nostalgia ao qual o gosto das pessoas obedece. Acho que é por vezes um disco muito desinquietante e feminino. Queria expressar violência feminina, se se consegue imaginar violência fora do paradigma masculino. Eu não queria ser etiquetada como uma dos tipos de figuras Deusa-fada. Eu adoro esse tipo de música feminina, mas eu sinto que há um espectro negligenciado com o qual eu me relaciono e que necessito de exprimir. Eu sei que há algum sítio entre a barragem masculina do noise e a baladaria feminina do folk terno e eu fiquei ali e fiz um disco sobre mim.

Como é que foi gravar The Birds in the Bushes? Li algures que tinham improvisado durante horas para chegarem aos resultados finais…

Eu e o Lemon Bear alugamos uma cabana na costa de Oregon durante um mês. A estrutura inteira era o nosso instrumento mais grandioso. Posicionamos um microfone condensador óptimo no centro de uma das salas e criamos uma vibração, “psicadelizamo-nos” a nós próprios e trabalhamos. Estamos rodeados de instrumentos e abusamos de todos eles. Sentamo-nos maioritariamente perto do lume enquanto gravávamos, e pode-se ouvir o calor do forno em todas as faixas, e o oceano rugia à distância. Isso também está lá. Gravamos durante horas todos os dias e tínhamos umas 25 cassetes. É uma série de música realmente bizarra. Alguma dela é embaraçosa e alguma é muito terna. No final da nossa viagem ouvimos todas as cassestes – demoramos dois dias – e seleccionamos os esqueletos dos movimentos do disco. Algumas canções no álbum são inteiramente improvisadas e não tocamos nelas; algumas foram ‘engrossadas’ no nosso armazém em Oakland com a ajuda de amigos, a "orquestra".

Como é que o disco acabou por ser editado na 5 Rue Christine?

O Slim, que gere a editora, contactou-me e pediu-me para eu fazer o disco.

Li algumas críticas entusiastas a The Birds in the Bushes e algumas críticas realmente negativas. Leste algumas dessas críticas. Como é que reagiste?

Li realmente as críticas. Senti-me resistente o suficiente para as ler, mas tornou-se uma crise quando eu li algumas críticas desagradáveis e depreciativas. Eu pensava que o álbum era de certa forma isento de descrições cruéis porque é tão vulnerável, mas na verdade é pela sua vulnerabilidade que os escritores são grandiosos na sua repugnância. Meditei sobre isso e agora estou mais protegida desse tipo de imundícies. Houve umas poucas de críticas construtivas que eu aprecio, mas na maioria sinto-me incompreendida por pessoas que não conseguem suspender os seus preconceitos.

Quais são as tuas outras influências além da música?

Eu tenho praticado yoga desde que era adolescente. Gosto de fazer medicina herbal. Dançar é muito importante para mim, gosto de dançar à hora do jantar e correr. Gosto da companhia do meu namorado Michael e tocamos sempre musica juntos. Gosto de tomar o pequeno-almoço ao sol. Sou influenciada mais por uma vida saudável do que por estados alterados ultimamente.

Tens e participas com bastante regularidade no teu próprio blogue/journal [http://www.urbanhonking.com/incaore/] desde Abril de 2005, se não estou em erro. Imagino que seja um blogue público. Por vezes os teus posts tendem a ser bastante pessoais…

Eu gosto de escrever num fórum público. Gosto de explorar as possibilidades entre a confissão e a ambiguidade. Acho os journals muito cândidos por vezes espalhafatosos, mas eu gosto de dizer algo sobre mim e gosto do desafio de ser honesta sem ser vulgar ou sem dizer tudo.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
27/11/2006