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Aldina Duarte
A Verdade, Nua e Crua


Desde o momento em que tomou contacto com o Fado, Aldina Duarte nunca mais quis ou conseguiu distanciar-se dele. √Č a pr√≥pria que diz, apontando grande parte da responsabilidade a Beatriz da Concei√ß√£o. A partir da√≠ a sua hist√≥ria come√ßou a fazer-se com a o romantismo que √© t√£o pr√≥prio do fado, mas foi com Apenas o Amor, o seu disco de estreia, que conseguiu merecidamente o seu espa√ßo pr√≥prio. Em Crua, o seu segundo disco, com a escrita dos temas da responsabilidade do letrista Jo√£o Monge, Aldina Duarte volta a lembrar que futuro do fado tamb√©m passa pela sua voz. Fiel √† tradi√ß√£o do fado e dos seus s√≠mbolos e costumes, Aldina Duarte continua a procurar incessantemente a defini√ß√£o da sua Alma Fadista. Em Crua, deu mais um passo importante para cumprir esse desejo. Aqui, em entrevista ao Bodyspace, a fadista fala abertamente de algumas das quest√Ķes paralelas ao seu objectivo principal: o fado, e sempre o fado.

Como entrou o fado na sua vida? Quando olha para o passado, qual foi o momento determinante para a sua escolha pelo fado, aquele que a fez ser aquilo que é hoje?

O fado entrou na minha vida atrav√©s do pedido do Encenador/Realizador Jorge Silva Melo para que eu fizesse uma pr√©-entrevista a Beatriz da Concei√ß√£o para um document√°rio que o Jorge pretendia realizar sobre o Fado de Beatriz da Concei√ß√£o, Fernando Maur√≠cio e Celeste Rodrigues. Ouvi a um metro de dist√Ęncia Beatriz da Concei√ß√£o e nunca mais deixei de ouvir e de querer saber mais sobre esta arte, mais tarde tive a tenta√ß√£o de o cantar. Criei um projecto com o Encenador Jo√£o Mota e Paulo Anes no Teatro da Comuna onde fui convidada para cantar diariamente no Clube de Fado a convite de M√°rio Pacheco e, posteriormente, mudei-me para o Sr. Vinho de Maria da F√© onde canto at√© hoje, h√° 10 anos!

Quais foram as pessoas fundamentais ao longo da sua vida que lhe ensinaram aquilo que sabe hoje, em relação ao fado e à própria vida. Que conselhos guarda até ao dia de hoje?

As pessoas fundamentais na minha vida s√£o a minha m√£e, padrasto e irm√£os, um grupo de amigos restrito que me ensinam a honestidade, a humildade e a capacidade de sonhar como fontes de coragem para fazer o meu caminho, enquanto pessoa e profissional‚Ķ no fado, concretamente, Beatriz da Concei√ß√£o e Caman√©, no come√ßo, Maria da F√© e Carlos do Carmo, numa fase posterior e, acima de tudo, Jos√© Manuel Neto, Carlos Manuel Proen√ßa e Jo√£o Monge que s√£o meus c√ļmplices na cria√ß√£o dos meus discos. E, por fim, Jorge Silva Melo que foi quem me ajudou com o seu talento indiz√≠vel a encontrar a confian√ßa para estar num palco e poder assim chegar com o meu fado a um n√ļmero maior de pessoas atrav√©s dos meus concertos!

Como √© que aconteceu a grava√ß√£o do seu primeiro disco, Apenas o Amor? Como surgiram os m√ļsicos que a acompanharam nesse disco?


O meu primeiro disco foi um acontecimento que nasce da minha determina√ß√£o e da generosidade do Francisco Leal, que para al√©m de ser co-produtor √© quem grava o Apenas o Amor, e que teve a ideia de o gravar no Sr. Vinho e na Sala est√ļdio do Teatro Nacional D. Maria, dos m√ļsicos com quem trabalhei nas casas de fado onde cantei e canto, Carlos Manuel Proen√ßa e Jos√© Manuel Neto, e com a colabora√ß√£o de Carlos do Carmo na selec√ß√£o do repert√≥rio, que escreveu um dos textos do livrete e inventou o t√≠tulo do disco!

Como surge Jorge Palma a escrever o texto que acompanhava o seu disco de estreia?

Sendo que sou uma admiradora incondicional da obra de Jorge Palma, David Ferreira, administrador da EMI-Portugal, a quem vendi o Apenas o Amor depois de gravado e com quem assinei contracto para futuros discos, ao saber da admiração recíproca que existia entre mim e Jorge Palma enviou-lhe um CD e pediu-lhe para escrever um texto.

Talvez j√° tenha respondido a esta pergunta vezes demais do que aquilo que deseja, mas‚Ķ porqu√™ ‚ÄúCrua‚ÄĚ?

Tamb√©m foi uma ideia de David Ferreira, a ideia do CD √© Verdade Nua e Crua, mas como t√≠tulo era inadequado, portanto o David achou que a imagem gr√°fica e fotogr√°fica do CD devia passar pelo preto e branco e eu deveria ser fotografada sem quaisquer acess√≥rios para sugerir a nudez‚Ķ ‚ÄúCrua‚ÄĚ porque √© sem artif√≠cios e h√° uma linguagem muito directa na abordagem de temas como o prazer e a solid√£o, por exemplo.

Como foi o processo de escrita de Crua? O que é que quis manter ou modificar em relação aos seus trabalhos anteriores?


O Jo√£o Monge depois de ter aceite o meu convite para escrever um disco inteiro para mim sobre m√ļsicas do fado tradicional decidiu, conversando comigo para nos conhecermos melhor, sendo que ele conhecia e gostava muito do meu primeiro disco, decidiu criar uma hist√≥ria em doze fados‚Ķ a hist√≥ria dele ser√° uma, troc√°mos muitas opini√Ķes ap√≥s ele me entregar cada letra e eu escolher a m√ļsica para cant√°-la, eu c√° para mim, criei a minha pr√≥pria hist√≥ria como se cada grupo de fados fossem cap√≠tulos dum livro‚Ķ eu em rela√ß√£o ao CD anterior s√≥ quis que o Crua fosse o segundo volume da hist√≥ria iniciada no Apenas o Amor, acrescentando-lhe um novo ‚Äúpersonagem‚ÄĚ neste caso a vis√£o do meu letrista de elei√ß√£o da actualidade, Jo√£o Monge, que vive o tempo em que vivo e com quem tive oportunidade de discutir criativamente muitas quest√Ķes que eu penso que me enriqueceram como int√©rprete‚Ķ o que eu mais quero √© que os meus discos sejam a voz de quem n√£o a tem, eu quero cantar as pessoas naquilo que naturalmente sinto no mais fundo de mim!

Mudou alguma coisa desde Apenas o Amor para este Crua além da autoria da escrita dos temas? Perdeu-se alguma inocência no processo?

A inoc√™ncia perdeu-se na medida em que h√° um amadurecimento baseado na consci√™ncia da minha voz amplificada no est√ļdio, na possibilidade de refazer pormenores importantes, √© preciso fazer escolhas e confiar criativa, t√©cnica e humanamente em quem me ouve de fora, que √© o produtor, Jo√£o Monge e, neste caso particular, o Samuel Henriques que gravou e o Fernando Abrantes que misturou o disco‚Ķ eu acho que crescer √© bom! Guardo-me para no envelhecimento recuperar a inoc√™ncia perdida!

Desta vez delegou ent√£o a escrita dos temas no letrista Jo√£o Monge, o qual assume ainda os cr√©ditos da produ√ß√£o. Qual a import√Ęncia do seu trabalho neste disco?

A import√Ęncia √© a de um ‚ÄúPai‚ÄĚ, quer pelo processo criativo pessoal quer pelo colectivo!

Assumindo a dificuldade da quest√£o, quais s√£o para si os melhores letristas portugueses?


João Monge, Sérgio Godinho, Carlos Tê, Jorge Palma e Manuela de Freitas…

Li na sua autobiografia que cantou já em Itália, Espanha, França e Holanda e que Amesterdão a cativou sobremaneira. O que encontrou na cidade assim de tão especial?

Liberdade, prazer, paz e beleza!

Uma das quest√Ķes mais pertinentes do chamado novo fado √©, como o pr√≥prio nome diz, a introdu√ß√£o de elementos novos no g√©nero, embora nunca pondo de parte o seu passado. No entanto, parece privilegiar a tradi√ß√£o no seu fado. Isso est√° directamente relacionado com a sua rela√ß√£o com o fado desde sempre?

√Č o caminho que os fadistas que mais admiro fizeram, criaram no come√ßo das suas carreiras, e alguns escolheram este caminho at√© ao fim delas, um repert√≥rio com letras originais e tem√°ticas pr√≥prias para se definirem e crescerem artisticamente, at√© hoje ainda n√£o encontrei melodias originais que me fascinem mais que as dos fados tradicionais, que me desafiam constantemente do ponto de vista do improviso musical e al√©m do mais √© maravilhoso cantar letras feitas √† medida dos nossos sentimentos e pensamentos sobre o mundo e a condi√ß√£o humana‚Ķ claro que se algum dia me fizerem melodias originais que eu goste a sensa√ß√£o deve ser semelhante, julgo?

Ainda na questão da tradição, quando canta ao vivo, apraz-lhe manter aqueles rituais habituais no fado, tanto a nível de actuação como no aspecto digamos cénico?

Cenicamente recorro ao Xaile que √© a minha condi√ß√£o primordial para cantar, √© a minha protec√ß√£o as minhas asas para cantar‚Ķ depois gosto do sil√™ncio e da penumbra com formas de recolhimento para um maior interioriza√ß√£o minha e de quem ouve‚Ķ gosto particularmente de cantar sentada, o que acontece muitas vezes e j√° faz parte dos meus cen√°rios de concerto, ou seja, a cenografia, o vestido, a ilumina√ß√£o, etc., tudo tem de servir os fados que canto, nada se pode sobrepor √† palavra e √† m√ļsica, nem a minha pr√≥pria voz!

Al√©m de cantar esteve quase sempre envolvida na organiza√ß√£o de ‚Äėnoites de Fado‚Äô quer em teatros, quer em Casas de Fado. Aprecia estar tamb√©m desse lado, do lado de quem convida outrem a cantar?

Tenho tanto prazer a cantar como a ouvir outros de quem gosto muito, m√ļsicos e/ou cantores, n√£o saberia escolher entre uma coisa e a outra!

Li no outro dia uma entrevista onde dizia ouvir artistas ou bandas muito distintas do campo em que se move, o do fado. Quais s√£o os √ļltimos discos que escolheu ouvir nestes √ļltimos tempos?


Ani Difranco; Chico Buarque; Clã; Jan Garbarek; Cat Power; P.J. Harvey; NERD; Zita Swoon; Erykah Badu; Arcade Fire; Jorge Palma; José Mário Branco; Joni Mitchell… e os clássicos em geral desde o Rock, passando pelo Jazz, até ao Fado, sempre!


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
24/07/2006