ENTREVISTAS
João Lencastre
Um músico "over all"
· 30 Nov 2013 · 22:00 ·
É raro ver-se um baterista líder e compositor das suas próprias formações, pelo menos em Portugal. Com uma formação musical sólida e um perfeito conhecimento do seu instrumento, João Lencastre demonstra como poucos uma versatilidade na combinação de várias estéticas e linguagens musicais. Lencastre tem-se afirmado nos últimos tempos como um dos melhores bateristas da cena jazz nacional. Quisemos saber mais e estivemos à conversa com o baterista, líder e compositor: um músico "over all".
Começaste a tocar bateria com 13 anos. Como foi esse começo, que te atraiu tanto neste instrumento?

Não sei bem o que me atraiu, mas lembro-me de um dia estar a ver o teledisco dos Metallica "One" e ficar fascinado ao ver o baterista Lars Ulrich a tocar. Já sentia vontade de experimentar mas acho que foi desde esse dia que decidi que queria tocar bateria... Nessa altura ouvia bastante rock, só quando entrei para a escola do Hot Clube com 16 anos tive o meu primeiro contacto com o jazz. Tive como professor o Bruno Pedroso, que foi muito importante ao nível técnico e na aprendizagem de novas linguagens, entre elas o jazz. Passado mais ou menos um ano, dada a dificuldade em conciliar os horários do liceu com os do Hot, passei a ter aulas particulares em casa do Bruno, o que até foi melhor porque para além de tocarmos, também ouvíamos discos e víamos alguns vídeos. Isso abriu-me o apetite para conhecer mais e desde aí não parei de procurar, desde os clássicos aos mais contemporâneos, fusão, free, cena europeia, etc. Basicamente, de tudo um pouco.

Mas houve uma altura em que ainda pensaste no trompete...

O trompete também sempre foi um instrumento que me fascinou, os meus avós muito queridos ofereceram-me um e voltei para a escola do Hot Clube para ter umas aulas com o Tomás Pimentel. Hoje em dia pouco toco, é um instrumento que requer muita regularidade, bastam dois ou três dias sem tocar e volta tudo atrás. Mas de vez em quando sabe-me muito bem tocar umas notas. Só em 2000/2001 quando deixei de tocar com o grupo Blasted Mechanism é que comecei a dedicar-me de corpo e alma ao Jazz. Sempre que podia, ia às jams do Hot Clube e do Speakeasy. Em 2002 passei uma temporada em Nova Iorque onde ia a jam sessions quase diariamente. Todos os dias via concertos incríveis, e tive aulas particulares com o Ralph Peterson e o Billy Kilson. Toda essa experiência foi determinante e importante para absorver a linguagem do Jazz. Em 2004 em Portugal tive a oportunidade de passar uma tarde em minha casa com o Dan Weiss numa sala com duas baterias. Foi incrível, esse momento mudou a minha forma de tocar e ver a música. Em 2007, estive novamente em Nova Iorque e tive umas aulas muito importantes com o Ari Hoenig.

Nota-se que és um músico com uma formação sólida, conheces bem o teu instrumento, és atento, versátil, capaz de te adaptar a várias estéticas e linguagens musicais. Neste sentido, e tendo em conta o teu processo de formação musical, a tua aprendizagem, é interessante ver como um músico que vem da cena “mainstream”, onde se vive mais do bebop, da influência americana, combina muito bem com músicos como o Rodrigo Amado e o Miguel Mira num conceito mais free bop, de raiz europeia. Como consegues conciliar estas duas vertentes, a música escrita e a improvisada?

Acho que o facto de gostar das duas vertentes é o mais importante. Sempre pratiquei e continuo a praticar a tradição, e isso ajuda-me a tocar tudo o resto. Mas isso é o que funciona para mim, não quero com isto dizer que para tocar música improvisada se tenha que ter uma boa formação da tradição do jazz.



Há quem afirme que um músico para improvisar tem de se libertar. O que pensas disto?

Acho que sim. É importante dominar-mos o nosso instrumento para nos podermos libertar. Se tiveres muitas limitações, não te consegues expressar. Mas há várias maneiras de dizer a mesma coisa. Cada um deve encontrar o seu caminho e perceber as suas limitações e trabalhá-lhas, ou não. Também há sempre essa opção.

O facto de actuares nos “dois lados” do jazz é uma mais valia?

Não sei se é uma mais valia mas é algo que gosto muito de fazer!

Qual é o teu conceito de improvisação?

Não tenho "um conceito". Depende muito dos músicos com quem estou a tocar, da música que estamos a fazer, do dia, do som da sala, do estado de espírito. Mas para mim improvisar é tocar o momento, compôr em tempo real, perceber o que a música pede a cada momento e reagir. Seja lá o que isso for, mas se tiver que tocar apenas mínimas no ride, assim será.

E quais são as tuas referências na música?

Miles Davis, Wayne Shorter, Paul Motian, Charlie Haden, Keith Jarrett, Tony Williams, Jimi Hendrix, The Beatles, Jack DeJohnette, John Scofield, Joey Baron, Roy Haynes, Ed Blackwell, Elvin Jones, Brian Blade, Brahms, Bach, Vladimir Horowitz, Chopin, Keith Moon, Dave Grohl, Nirvana, Primus, Mitch Mitchell, Joni Mitchell, John Coltrane, Monk, Ornette Coleman, Phil Grenadier, Morphine, Radiohead, Dave Lombardo, Deen Castronovo, Bob Marley, Tony Allen, The Doors, Herbie Nichols, Charlie Parker, Charles Mingus, Dan Weiss, Craig Taborn, Branford Marsalis, Jeff Watts, Buddy Rich Thomas Morgan, Ahmad Jamal, David Binney, Chris Potter, Gerald Cleaver, Kenny Wollesen, Death, Tom Rainey, Bill Carrothers, Bill Frisell, Chick Webb, Baby Dodds, Bill Evans, Sting Chick Corea, Cream, Tower of Power, James Brown, Dewey Redman, Eric Dolphy, Billy Higgins, Alan Holdsworth, Jeff Buckley, John Zorn, Led Zeppelin, Jacob Sacks, Suicidal Tendencies, Messiaen, Metronomy, Michael Jackson, Queen, Muse Bill Stewart, Duke Ellington, Elliot Smith, Dave Holland, Billy Kilson, Feist, Jim Black, Louis Cole, Shelly Mane, Gene Krupa, Max Roach, Miguel Zenon, Miles Okazaki, Lee Perry, Charles Ives, Slayer, Tyshawn Sorey, Sonny Rollins, Joe Henderson, Ari Hoenig, Art Blakey, Dennis Chambers, The Bad Plus, Benjamin Britten, Billie Holiday, Paul Bley, Ravi Shankar, Richie Beirach, Keith Carlock, Sam Rivers, Sonic Youth, Vinnie Colaiuta, Peter Erskine, Eric Harland, Jaco Pastorious, Steve Coleman, Sean Rickman, Steve Lacy, Don Cherry, Steve Swallow, Stevie Wonder, entre muitos outros...

Em que projectos e formações estás a trabalhar no presente?

Para além dos meu grupo Communion do qual já fizeram parte os pianistas Bill Carrothers e Leo Genovese, o contrabaixista Demian Cabaud e os saxofonistas Ben Van Gelder e Jeremy Udden, tenho também o meu grupo nacional que varia um pouco a formação, mas costumam fazer parte o André Fernandes, o Nuno Costa ou o André Santos na guitarra, o Ricardo Toscano ou o Zé Maria no sax, o João Moreira no trompete, o Óscar Graça ou João Paulo Esteves da Silva no piano e o Nélson Cascais, Mário Franco ou João Hasselberg no contrabaixo. Co-lidero o No Project Trio com o João Paulo esteves da Silva e Nelson Cascais. Este grupo é basicamente de improvisação livre embora por vezes possa parecer que estamos a tocar algo escrito. Mas nunca falamos ou combinamos nada do que vai ser tocado. Tenho um duo com o André Fernandes, que também tem bastante improvisação livre mas costumamos combinar alguns moods ou tipo de ambientes. Fora do jazz, toco com o Tiago Bettencourt, que escreve muito boas canções e permite-me explorar ritmos e cores diferentes. Toco ainda no quinteto do Ricardo Freitas, GRIP 5, no trio do Francisco Andrade, no Open Mind Ensemble e numa ou outra coisa por aqui e ou por ali.

És claramente um músico que aposta na sua música, que acredita no seu trabalho. O melhor exemplo disso é seres o líder da tua própria banda, os Communion, uma formação da qual fazem parte grandes nomes da cena local, como David Biney, Jacob Sacks ou Thomas Morgan e com quem já editaste três álbuns: “One!”, “B-Sides” e “Sound it Out”. O dado mais curioso em tudo isto, é seres um baterista. Que comentário te merece esta esta afirmação?

A ideia de formar os Communion surgiu em 2005, quando organizei uma tourné cá em Portugal e convidei o Phil Grenadier para tocar, juntamente com o Leo Genovese, Demian Cabaud e o Andre Matos. Essa é a formação original. Depois para a gravação do primeiro disco, “One!”, o Leo não podia fazer a tour/gravação e o Phil sugeriu o Bill Carrothers, uma ideia que me agradou bastante, pois já era grande fã dele. Ser baterista e líder já vem de há muito tempo. Se olharmos para a história do jazz, Buddy Rich, Gene Krupa, Art Blakey, Tony Williams, Jack de Johnnette, Max Roach, Paul Motian, entre muitos outros, sempre foram líderes dos seus próprios grupos. E hoje em dia também há grandes bateristas e compositores, Dan Weiss, Ari Hoenig, Bill Stewart, Tyshawn Sorey, só para mencionar alguns.



Em “Sound it Out”, contaste com a participação de David Biney.

Já faz 10 anos que tenho o prazer e o previlégio de poder trabalhar com um músico como o David Binney. Ele já tinha participado no álbum "B-sides", e já tínhamos gravado juntos no disco do Mário Franco "This Life", entre dezenas de outros concertos. É um grande músico e sempre que toca eleva a música para um outro patamar.

Sei que está para sair um novo álbum dos Communion. Fala-me sobre esse trabalho.

Foi gravado em Novembro de 2012 no Systems Two em Nova Iorque. Conta com a participação dos já habituais, David Binney, Phil Grenandier, Jacob Sacks, André Matos e Thomas Morgan, e tem ainda como convidados a Sara Serpa e o Tiago Bettencourt nas vozes em dois ou três temas, o Ary (Blasted Mechanism) no modular synth efx em dois temas, e o Benny Lackner no wurlitzer num tema. Há também uma composição onde toco Prophet Keyboard. É tudo música que fui escrevendo ao longo dos últimos dois ou três anos, uma composição do Brahms e um tema do André Matos. Se tudo correr bem, há-de ser editado em Março ou Abril do próximo ano.

A tua bateria, uma “Catdrums”, é especialmente bonita. Queres falar-me um pouco sobre ela, porque a escolheste?

Sim, é bonita e tem muito bom som! O André Matos foi quem me falou da Catdrums pela primeira vez. Enviou-me um artigo da net, gostei bastante do que li e resolvi entrar em contacto com com o Nico Guedes e o André Antunes, donos da Catdrums e responsáveis pela construção das baterias. A vantagem da Catdrums é que constroem a bateria à tua medida. Na altura ia gravar um DVD acústico com o Tiago Bettenourt e precisava de algo diferente. Falei-lhes do que precisava e construíram-me um kit muito versátil que se adapta a todo o tipo de situações, desde o jazz, ao rock, acústico, etc.

E projectos para o futuro...

Para muito em breve está a edição do quarto álbum dos Communion. Se tudo correr bem será gravado e editado também em 2014 um novo disco dos No Project Trio. Sairá também o novo trabalho do Tiago Bettencourt & Mantha, que vai ser gravado agora em Dezembro. De resto, vou continuar a tocar, praticar, escrever música e a tentar "tocar" com o maior número de pessoas possível.
Pedro Tavares

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