ENTREVISTAS
Vítor Rua
Heavy Mental
∑ 29 Nov 2011 ∑ 00:16 ∑
N√£o √© de facto particularmente original dar a esta entrevista o mesmo t√≠tulo que coube ao novo disco de V√≠tor Rua, mas √© t√£o bom, t√£o bom, t√£o bom, que se torna imposs√≠vel resistir aos seus encantos. Ainda por cima √© especialmente adequado ao seu conte√ļdo. Com selo da Orfeu, Heavy Mental √© o mais recente lan√ßamento do ex-GNR, ex-Telectu, o intensamente activo V√≠tor Rua; um disco que apesar de ter sido gravado num long√≠nquo ano de 1999, numa guitarra constru√≠da propositadamente para esse feito, ao primeiro take e sob efeito de subst√Ęncias capazes de mudar estados de consci√™ncia, s√≥ agora viu a luz do dia. Porque assim tinha de ser, porque n√£o havia pressa em faz√™-lo. Mas V√≠tor Rua j√° tem a cabe√ßa noutro s√≠tio: ao Bodyspace, o m√ļsico abriu o jogo todo e contou-nos quais s√£o os seus projectos para o futuro. Numa entrevista directa ao assunto, V√≠tor Rua n√£o mostrou arrependimentos: s√≥ planos para o futuro.
Gravaste este disco com uma nova guitarra electro-ac√ļstica de dezoito cordas que, segundo li algures, foi constru√≠da por ti‚Ķ Fala-me dessa guitarra‚Ķ

A guitarra não foi construída por mim. Foi construída pelo luthier Gil Oliveira. Eu desenhei com a ajuda inicial do Jorge Lima Barreto e posteriormente com o próprio Gil o design da guitarra. Antes já tinha encomendado ao mesmo luthier uma guitarra de 8 cordas (4 cordas de guitarra baixo e 4 e 4 cordas de guitarra eléctrica). Esta tem 18 cordas (6 de nylon e 12 de metal, sendo um híbrido de duas guitarras (guitarra clássica e guitarra de 12 cordas) numa só de um só braço.

Tinha lido que tinhas sido tu a construir o instrumento. De qualquer das formas, a construção de instrumentos é algo que te entusiasma? Achas que a regeneração da criatividade pode também passar por aí?

Como disse eu n√£o constru√≠ estas guitarras mas sim o luthier Gil Oliveira. Mas eu constru√≠ alguns instrumentos e uso instrumentos inventados por criadores de instrumentos. Para uma determinada camada de m√ļsicos, a cria√ß√£o dos seus instrumentos √© um factor essencial. Veja-se ‚Äď por exemplo ‚Äď o caso do Hans Reichel e o seu ‚Äúdaxophone‚ÄĚ.


Sei que gravaste este disco em apenas um dia… De facto parece tudo ao primeiro take, cru no bom sentido… Ficou alguma coisa de fora ou está ali tudo o que produziste nesse dia?

Eu cheguei a casa com a guitarra pela primeira vez e sentei-me com ela, afinei-a, liguei-a á mesa de mistura, liguei o gravador e meti a gravar... é tudo em tempo real e o meu primeiro contacto com aquela guitarra. Nada ficou de fora e nenhuma alteração foi realizada.

Lembras de alguma coisa desse dia para além do facto de teres gravado um disco?

Lembro-me de estar todo dia num suspense enorme à espera da hora de ir buscar a guitarra.

Este disco foi gravado em 1999 e s√≥ agora v√™ a luz do dia. Porqu√™? √Č estranho ver isto c√° fora passado tanto tempo?

N√£o. Os meus discos n√£o s√£o para uma qualquer esta√ß√£o de Natal ou Hits de Ver√£o. Vai sair em Fevereiro de 2012 uma caixa com 50 CDs meus originais (nunca antes editados... E em meu nome... Ou seja n√£o se trata de trabalhos que eu realizava com os Telectu). Tenho muita m√ļsica que nunca foi editada e que o pode ser em qualquer altura. Hoje toda a gente pode editar um CD. Eu esperei o tempo que achei necess√°rio para que este trabalho sa√≠sse com dignidade. E foi isso que aconteceu quando conheci o Pedro Passos e foi com essa dignidade e respeito que esta obra viu agora a luz do dia pela prestigiada editora ORFEU.

√Č para ti motivo de orgulho editar este disco na regressada Orfeu? Que mem√≥rias guardas desta editora?

Acabei de usar na minha resposta anterior o termo ‚Äúprestigiada‚ÄĚ para classificar a editora ORFEU. A ORFEU √© um marco na Reprodu√ß√£o Mec√Ęnica em Portugal.

Heavy Mental tem a ver com algum estado de espírito específico? Espécie de catarse para os tempos que correm?

A ter a ver com algum estado de esp√≠rito, ter√° sido o da √Ęnsia de experimentar este novo instrumento que demorou perto de um ano a ser constru√≠do, aliado a um estado psicotr√≥pico de cannabis.

Tens andado muito activo na escrita de can√ß√Ķes de protesto, que tens publicado no Youtube e difundido no Facebook. Para quando uma compila√ß√£o?

Eu sempre fiz isso toda a vida. Antes dos GNR, com os Telectu e continuei at√© aos dias de hoje. Mas s√£o trabalhos que fa√ßo aos quais dou uma import√Ęncia mais social que musical. Eu n√£o sinto qualquer necessidade de ver esses trabalhos editados e que s√£o centenas de obras ao longo de 30 anos. Talvez um dia algu√©m se interesse por isso e resolva editar. Eu tenho a minha obra como improvisador e compositor para ‚Äď essa sim ‚Äď querer ver editada.

Qual foi o √ļltimo disco que te tirou o f√īlego? Pelas boas e m√°s raz√Ķes?

Em que √°rea?... No Rock por exemplo fiquei agradavelmente surpreso com o Le Noise do Neil Young...


Assim de repente, e olhando para tr√°s na tua carreira, h√° alguma coisa de que te arrependas e alguma coisa que deixaste por fazer?

Não…

A prop√≥sito da morte do Jorge Lima Barreto, vi-te comentar acerca das reedi√ß√Ķes dos Telectu. H√° alguma hip√≥tese de isso acontecer nos pr√≥ximos tempos?

Está previsto a reedição de todos os trabalhos dos Telectu em 2013, uma edição da Galeria Perve, um desejo do meu amigo Carlos Cabral, que nos chegou a editar vários trabalhos.

O que tens pensado para o futuro em termos de novos projectos, discos, produção musical e não musical?

A minha segunda √≥pera est√° pronta e quero ver se a meto em cena. Estou a escrever v√°rias composi√ß√Ķes ao mesmo tempo para v√°rios int√©rpretes e ensembles. Colaboro neste momento com as core√≥grafas Clara Andermatt e Am√©lia Bentes. Fiz m√ļsica para os filmes de Paulo Abreu e Albano Jer√≥nimo. Acabei de chegar de um workshop e 3 concertos em Budapeste com a Clara Andermatt e m√ļsicos locais e tenho e estou a dar v√°rias confer√™ncias sobre m√ļsica e som pelo pa√≠s e estrangeiro.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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