ENTREVISTAS
JP Simões
Portugal é um penico
· 22 Mai 2005 · 08:00 ·
Rapaz de muitos talentos, JP Simões é uma figura singular no espectro da música portuguesa. Dos Pop Dell’Arte aos Belle Chase Hotel, da fixação por Chico Buarque até ao sexteto Quinteto Tati, este não é de todo um homem de poucas palavras. Chamem-lhe o que quiserem – boémio, esquizofrénico, visionário, génio – mas JP Simões é ele próprio. Sem nada de sexo e com alguma poesia, foi receber-nos na tarde em que o Sporting Clube de Portugal disputava a taça UEFA, no Rossio. A escassos metros, na Praça da Figueira, um ecrã gigante fazia as delícias dos fãs. Buzinões, gritos, hurrah!, hurrah!, são sempre elementos bonitos para adocicar uma entrevista.
Dia 25 de Maio o Quinteto Tati sobe ao palco do Fórum Lisboa, com convidados especiais. Vitorino e a menina Petra, que participa em Exílio, o disco de estreia da banda lançado no ano passado, são duas vozes que vão certamente adicionar algo à música de JP Simões e Sérgio Costa. Não que ela precise de mais nada, claro, são apenas cerejas no topo do bolo.
Como é que um rapaz de Coimbra se torna guitarrista dos Pop Dell'Arte?

É fácil. Em '90 vim para cá estudar, tinha um colega que era o Luís San Payo e andámos por aí na conversa. Certa noite fomos até um estudiozinho onde ele tinha ensaios com a sua banda, que eu não fazia ideia qual era. Passámos a noite na conversa e estava lá uma guitarra, comecei a tocar, e a cantar assim umas molengas delirantes. Divertimo-nos à brava e no dia seguinte ele propôs-me tocar com a banda dele, que queria voltar a pôr a funcionar e eu aceitei. Quando dei por mim eram os Pop Dell’Arte, a minha banda favorita de sempre, da adolescência, fiquei espantadíssimo, fiquei muito contente. O que não quer dizer que tocasse grande coisa na altura. Era um péssimo guitarrista mas tinha uma bela guitarra. Foi um período curioso, porque o imaginário do João Peste, os seus princípios, os seus conceitos e a forma absolutamente livre com que nós íamos criando as coisas foram uma bela lição de cidadania para mim. Para o mal e para o bem.

Tens formação musical?


Se se pode entender umas aulas de guitarra na escola primária durante algum tempo como formação musical, sim. Mas depois de resto o meu trabalho de composição e de decomposição é absolutamente intuitivo. Ou seja, de tanto insistir já consigo utilizar todos os meus vícios para fazer as minhas construções musicais com alguma autoridade. Mas foi tudo trabalho de investimento, muito pouco teorizado. Nunca tive muita paciência para aulas de música. Fui tendo, de vez em quando. Ainda há dois anos estive no Barreiro a estudar saxofone na escola de jazz, depois estive um ano, depois parei, depois fui tendo umas lições de piano, e finalmente resolvi voltar à carga com o instrumento que de facto me faz pulsar mais, que é a guitarra. Agora é ele que tem sido o meu coadjuvante. “Serena amante, ó guitarra.” Mas não, não tenho formação musical.

A tua banda tem músicos essencialmente de formação jazz, como é que consegues conciliar o facto de não teres formação musical com isso?


Uma coisa é compor uma canção. Outra coisa é saberes que há outras pessoas que têm uma capacidade ou uma desenvoltura teórica e técnica com o seu instrumento que permite que as minhas sugestões ou as sugestões do Sérgio [Costa], que é a pessoa que partilha a composição comigo, sejam levadas ao máximo por pessoas que conseguem de facto transformar as ideias em música, porque têm essa formação. Ou seja, mesmo não tendo formação musical, eu não preciso do código para comunicar a música. Chego, levo a música e vai-se construindo cada um com o que tem. Eu apresento a canção e a partir dali vai-se construindo o som de bandas, depois vão sugerindo arranjos daqui e dali, a comunicação não tem grandes problemas. Agora, de facto, muitas vezes seria muito bom se eu pudesse chegar e levar não-sei-quantas pautas e dizer: “A partir daqui delirem à vontade.” Mas não é necessário, não sei se a música iria ficar melhor ou pior com isso. Seria uma comunicação mais fácil. Não me sinto diminuído por trabalharmos só a partir da matéria da música, independentemente da base teórica com que ela foi criada. O que acontece muitas vezes é alguém me dizer: “Eh pá, fantástica essa harmonia que fizeste com uma nona que vai numa improbabilidade contra todas as regras harmónicas duma escala menor que passa para maior e se dá uma coisa fantástica". Nesse aspecto há um certo lado bom da liberdade, não tenho clichés. Quando tu aprendes música, seja clássica, de conservatório, ou seja nas escolas de jazz, trabalhas sempre a partir de determinados clichés. Podes evoluir a partir deles. Acima do método prevalece a música e a invenção.

Viste crescer a cena de Coimbra há 15 anos? M’as Foice, mais posteriormente dos Tédio Boys...

Há um episódio curioso. Eu vivia em Coimbra, adolescente e tinha uns amigos, músicos de garagem que me convidaram uma vez para ir cantar para uma banda ou tocar guitarra numa banda que eram os Proletários da Cidade. Era uma ideia que nascia daquela recuperação pop-rock de um lado tradicional português. O exemplo mais conhecido disso é o “Sei quem ele é” pelos Mler Ife Dada. Houve ali um lado beirão, de fazer música sobre o construtor civil, de fazer um espectáculo com betoneiras no palco e cantar coisas como, passo a citar: “De manhã quando o sol arrebita / vou p’rá obra com a marmita / numa mão o salpicão / e na outra o garrafão”. A ideia era criar um espectáculo adolescente a partir desse conceito. Só que eu era um puto tão empedernido e havia uma senhora lá no sítio onde ensaiávamos a limpar o bar. Não conseguia cantar com ela a olhar para mim com um espanador e um ar meio tonto, meio muito crítico, de braços cruzados. Aí desisti disso das bandas, não tinha nada para dizer. Disse-lhes boa sorte e que não me apetecia a cena da betoneira. E mais tarde eles começaram a fazer outros temas e a trabalhar com outras pessoas, poucas semanas depois, e mudaram o nome da banda. Passaram a chamar-se M’as Foice.
Essa foi a parte a que eu assisti. Houve muitos cruzamentos publicamente inócuos entre muitas pessoas que estavam ali à volta da música, ainda sem referenciar muito bem aquilo que queriam fazer. Aquilo podia ser um movimento artístico jovem, havia o Paulo Furtado que era, acho que ainda é, um excelente pintor que fazia música, que fazia exposições, que estava sempre a tentar inventar umas bandas aqui e ali. Todas as pessoas que vieram mais tarde a ser a cena musical coimbrã andaram a inventar pequeninas bandas, com as etiquetas mais cómicas, mais tontas, mais góticas, demoníacas ou abjeccionistas. Mas quando se começou a cristalizar o movimento rockabilly coimbrão que vinha também dos pólos de música popular internacional que havia, como a discoteca States, onde se ouvia desde Joy Division a PiL, da influência dos Sex Pistols. Caíam bem numa cidade toda ela conservadora e fechada na sua exaltação do passado, tudo isso serviu de contraponto, especialmente essa força revolucionária juvenil do “no future” e “nós não vamos contribuir para esta construção” e essa invenção duma personalidade, nos Estados Unidos, na Inglaterra, noutra língua, noutro som, noutra forma, noutra fuga, noutra construção de espaço e emigração musical. Isso acabou em Coimbra por se ir condensando nesse movimento, que agora a posteriori se pode chamar movimento. Só agora é que se pode perceber-lhe o perfil. Um movimento mais rockabilly, que foi predominante em Coimbra.
Eu já vivia em Lisboa quando comecei a ensaiar com os Belle Chase Hotel. Aquilo também era uma data de gente que tinha andado aí numa certa promiscuidade – no bom sentido – de bandas e que por acaso estava com umas ideias. Continuávamos com uma necessidade de internacionalismo, mas era bastante mais hedonista. Havia um lado aparentemente menos combativo. Aparentemente, porque podemos ter uma letra combativa com uma mistura extremamente dócil. Fiz parte da cena coimbrã duma maneira não muito activa, porque não vivia lá, mas ia lá fazer música com os meus companheiros, e portanto fizemos uma coisa que não tinha muito a ver com essa estética mais central e disseminada, que era o rockabilly, ou o punk rock pseudo-conceptual, que sempre houve muito por lá, e portanto o meu movimento também foi sendo de certo modo um bocado marginal. O movimento não me passou ao lado, ouvi as coisas, mas só fiz aquilo que me apeteceu. Não me senti muito contagiado por essa estética mais dominante. Mas apreciei sempre o trabalho das pessoas, especialmente a entrega e a força em palco, o exorcismo canibal muito bom que os Tédio Boys tinham.

Só apanhei os Parkinsons ao vivo.

Nunca vi.

Eram os Sex Pistols chapadinhos.

Pois, isso também fazia parte desse imaginário internacional e anticlerical que deu umas janelas de fuga para uma imensa juventude coimbrã que estava ali perdida numa cidade feita mais para agradar aos mortos do que aos vivos. E que, de certo modo, continua assim.

Como é que tu vês essa cena hoje?

Vejo o sucesso deles como uma coisa boa, quanto mais eu vir que, independentemente do meu gosto musical, do meu relacionamento mais ou menos amigável com as pessoas, eu vejo que tudo aquilo que as pessoas fizerem com a sua música, com a sua capacidade de trabalho e organização para conseguirem disseminar o seu trabalho, para o espalharem, para conseguirem viver com dignidade dele e conquistarem corações, afectos e imaginações, acho isso muito bom. Abre caminho a todos os outros ao meu trabalho, inclusivamente.
Nós vivemos aqui fechados, isolados, e muitas vezes as estruturas de produção são um bocado medrosas porque não conhecem outra coisa senão uma filosofia de mercearia. Têm medo de ser postos em causa no estrangeiro. Os músicos portugueses têm sido muito enganados cá, pelos produtores, pelos managers, que dizem que para ir lá para fora é preciso ter-se um grande trabalho. Não, as pessoas têm é de ser ajuizadas, especialmente os produtores, que são pessoas que têm medo que os outros lhes fujam da mão. Isto por motivos que agora não vêm ao caso, que são motivos histórico-culturais, e é bom saber que com simples meios, dependendo só da sua capacidade de criação, lançam para aí os discos e têm feedback de outros lugares. Isto do mesmo modo como nós estivemos abertos a muita outra música que veio cá parar, uma sede de outra música, de outras revoluções, de outras liberdades, e é bom saber que pode acontecer ao contrário. A nossa música pode andar por aí. Fico muito contente pelos Wray Gunn, e gosto do trabalho deles. Musicalmente diz-me mais que, por exemplo, os Tédio Boys. Mas isso não interessa para esta questão.

Pois, também têm uma companheira de banda tua, dos Belle Chase Hotel...

Sim, a Raquel [Ralha], e o Luís Pedro dos Belle Chase também esteve lá a tocar...é isso, a música existe para se libertar, para sair daqui, para ir onde seja bem recebida. Finalmente vivermos essa ideiazinha muito falada da Europa, da abertura, da troca e não-sei-quê. Fala-se muito mas acontece muito pouco. Continuamos a viver muito isolados, especialmente no que toca à nossa mentalidade. De certo modo é curioso: a pessoa acredita muito em si, tenta salvaguardar a coerência do seu trabalho, não aceita muitas críticas e teme brutalmente o ridículo, mas quando se pensa em pegar em qualquer coisa e mandar para ser avaliada por um espanhol, um francês, um neo-zelandês, um chinês, fica logo com medo. Diz “se calhar é uma merda, se calhar não vale nada.” Nós estamos nesses dois extremos.

Consideras-te de Coimbra ou de Lisboa? E o Quinteto Tati, é de Coimbra ou de Lisboa?


Sou um cidadão do mundo, que vive por cá. O afecto é uma coisa muito livre, pousa onde calha. O Quinteto Tati é de Lisboa, foi construído aqui, está a ser trabalhado com pessoas de Coimbra, outras de Lisboa, mas é aqui o seu centro afectivo e funcional. Nós ensaiamos no Ritz Club, temos músicos com formações diversíssimas, uns que encaram a música como hobbie, outros mais profissionalmente.

Como é fazer uma Ópera do Falhado que acaba por falhar?


Um amigo meu, muito simpático, no outro dia, parafraseando uma pessoa qualquer que eu não sei quem é, dizia que a derrota tem uma dignidade que a vitória desconhece. Isso é curioso porque, às vezes a atenção que subjaz às coisas é muito megalómana. Podes estar a pensar que estás a fazer uma coisa e na realidade estares a fazer algo que não vai servir para a grande revolução em que tinhas pensado. A intenção inicial, o fulgor com que podes construir alguma coisa, por si só, já é às vezes uma recompensa curiosa, mesmo que não singre pelo mundo por um lado meio romântico, serve sempre de compensação quando tu achas que tentaste. Fizeste uma exaltação demasiadamente grande para as tuas próprias capacidades. Ultrapassaste os teus limites. Mas voltaste para casa são e salvo, com o prazer de teres superado, independentemente do que as pessoas acharam ou não. E trata-se de facto de música e de teatro, ou seja, poderá influenciar quem se quiser deixar influenciar. Mas não é propriamente construir um prédio horrível no meio da cidade e obrigar as pessoas a passar por ele ou, pior, a viver lá. Nesse aspecto é uma coisa extremamente dócil. É um falhanço dócil. A coisa ainda está em processo, se não se transformou naquele empreendimento megalómano inicial, de mudar a visão de nós próprios, também não desapareceu. Está por aí e ainda vai dar que falar, de alguma forma, mal ou bem.

Nas tuas duas bandas, tal como na Ópera do Falhado, nota-se muito a tua fixação por Chico Buarque...

Eu acho principalmente que o que mais me custou a assumir nos últimos tempos foi que eu não sou Chico Buarque de Hollanda. Mas houve uma altura em que, de uma forma muito adolescente, se havia alguma pessoa que eu gostaria de ser neste mundo, gostaria de muito humildemente imitar a sua forma de abordar os assuntos, de falar sobre o amor, a sua distância crítica, capacidade narrativa, a sua simplicidade proclamativa, esse alguém é o Chico Buarque de Hollanda. A forma como também ele pegou na música e fez dela o que queria - ele não é propriamente um bossanovista, ele utilizou sempre a música latina para dar expressão às suas histórias e aos seus sentimentos. Isso para mim sempre foi notável. Agora tive que assumir claramente, antes que desse em maluco, que não sou o Chico Buarque, mas que sou outro tipo, sou um tipo que adora o Chico Buarque e tudo o que faz, quando se parece com ele, é fantástico. É uma vitória extrema. O próprio Chico dizia uma coisa muito gira [começa num sotaque brasileiro, antes de se aperceber que não seria uma ideia muito boa], que na altura não sabia se tinha ou não descoberto a própria voz dele, mas também não queria saber, porque quando ele conseguia ser um bocadinho parecido com Tom Jobim ficava muito contente. Nunca gostei tanto de ninguém nem imitei ninguém como Chico Buarque, no que isso tenha de limitativo. Mas há um lado muito bom. Quando tu te rendes a alguém podes começar a construir-te de início. Aquilo é uma referência. Não és aquela pessoa, mas aquela forma de fazer as coisas é-te exemplar. Estás muito menos perdido no mundo, muito menos só, e a tua construção, melhor ou pior, parte dali. Podes ou não descobrir a tua própria voz, mas parte dali. Acho isto importante. Tardio, porque tenho 30 e poucos anos, mas importante. Mais vale tarde que nunca.

E outras referências?

Tenho muitas, no Brasil tenho a incontornável máquina de fazer música, a primavera imparável do Tom Jobim. Acho que a pessoa que mais me tocou quando a ouvi, que mais me fez achar que a música era a matéria mais potente que existia para conseguir tocar o lado intangível e exaltante da existência foi a primeira vez que ouvi com atenção o Charlie Parker. É destesticulante ouvir Charlie Parker com o coração aberto. Tenho as minhas afinidades, com [David] Bowie, com o jazz a partir dos anos 40. Não tenho um gosto muito ecléctico, posso gostar duma canção do Zeca Afonso e gostar duma canção do Cole Porter, também. E duma determinada orquestração de Cole Porter. De preferir ouvir a Billie Holiday a cantar o “Summertime” do que ouvir a versão original na peça Porgy & Bess. O cancioneiro americano tem coisas muito boas, sempre gostei muito de ouvir Tom Waits. Acho que é o construtor de canções mais parecido com a escrita de Boris Vian que conheço. Consegue falar em coisas muito concretas e ao mesmo tempo estar a dar uma lógica totalmente diferente, o que é muito difícil. As pessoas não podem escolher aquilo que são, mas encontrarem a sua forma de expressão é que é grande trabalheira. Estive muito tempo apaixonado por Astor Piazzolla, ouvia-o passeando por Lisboa num fim de tarde eterno, trágico mas exaltante. Tem muito a ver comigo, há um lado da exaltação, da vitalidade do trágico que aquilo consegue sintetizar muito bem. Por um lado é trágico, poderá provocar a desistência, mas por outro essa provocação exalta-te.

[Quando lhe foi perguntado sobre como seria partilhar o palco com Vitorino, dia 25 de Maio no Fórum Lisboa, JP Simões julgava que isso fosse segredo, desconhecia que a informação já tinha saído em vários órgãos de comunicação online, e disse que “Portugal é um penico”]

Há muito de acaso naquilo que me tocou mais e me tocou menos. Espero que isto não seja entendido como desprezo. Viagens, circunstâncias, o que os amigos nos dão. Encontros, desencontros, eu por exemplo só comecei recentemente a perceber o universo do Vitorino. A música dele é muito mais que a imagem que as pessoas têm dele – a de um tipo de boina que canta o Alentejo. Tem uma mitologia muito própria, e à luz disso fui descobrindo pela primeira vez o Vitorino. Acho-o um tipo fantástico, um tipo livre, o que é muito difícil aqui. Conquistou a sua liberdade mantendo-se um bocado fiel a si próprio e tendo umas certas promiscuidades com outros tipos de música, e especialmente a música latina, com a literatura, com o Lobo Antunes, com outras afinidades que sempre estiveram de acordo com a sua ética. Aquilo que descubro com mais prazer à medida que vou ouvindo Vitorino e a obra dele, que vou conhecendo, é uma ética, uma expressão duma opção existencial, que é muito bonita. É muito densa, e vai muito para além daquilo que no nosso mundo rápido de hoje, em que todas as semanas tem que sair o disco do século, é a hiperbolização, do embrulho. As coisas existem em vários tempos, e de facto nós agora exaltamos na metáfora, na grande parábola do progresso, que as coisas têm de se suceder umas às outras com uma velocidade assustadora, onde um pássaro canta e logo outro abutre o esmaga para cantar altivamente em cima dele, ad infinitum. De facto, uma pessoa com o Vitorino demonstra claramente que, independentemente de modas ou das circunstâncias, daquilo que as pessoas têm que ter para passarem o seu trabalho para o domínio público, da forma como as estruturas gerem o tempo, o tempo de aparecer, o tempo de demonstrar, o tempo de ver o que é actual e o que não é, a necessidade rápida de adjectivar, de saber o que é que significa, a que é que se refere, quais é que são as referências, há um outro tempo, há um tempo mais tranquilo ou intranquilo, um tempo de descoberta pessoal, onde se vai transpirando num percurso na música e que nos conduz, mal ou bem, a nós próprios, num encontro mais esclarecido com os outros e com o mundo, com a arte e com a forma de expressão individual e a tentativa de comunicar aos outros a nossa condição pessoal.


Há uma diferença entre escrever em inglês e escrever em português?

Se eu percebo uma língua, eu percebo o que ela me diz, as histórias que conta. Houve uma altura em que as histórias que eu ouvia me eram veiculadas pela música, pela língua e pela cultura anglo-saxónica. Portanto, como gostava mais dela, como me contavam mais histórias, como eram mais excitantes, começou a ser a minha matéria de trabalho. Quando pensava em música, pensava em inglês. Como trabalhei numa circunstância mais internacionalista, o início dos anos 90, com uma data de músicos que também se reviam mais nessa identidade aberta daquilo que nos toca mais no mundo. Muito mais do que numa necessidade de estar a criar a música a partir daquilo que é a nossa língua, do quotidiano. As pessoas, durante muito tempo, tinham a sua língua tribal com que falavam e depois correspondiam-se a nível institucional e artístico em latim. Isso aconteceu, o mundo funcionou assim, com uma língua trans-fronteiriça. O inglês para mim sempre foi a língua que veiculava as coisas mais interessantes, e portanto, quando comecei a tentar fazer música, comecei a fazer música replicando aquilo que eu gostava mais. A música anglo-saxónica serve as palavras, serve a língua. Há muitos equívocos, por exemplo, a tentar fazer rock’n’roll em português. Nós não temos uma língua essencialmente bissilábica. [por estas alturas JP Simões começa a cantar bissílabos anglo-saxónicos numa melodia rock’n’roll, passando de repente para “anti-incon-stitu-cional-mima-mente”, “por-‘caso-defa-ctohá-‘quium-pro-blema”]. A matéria que eu tinha de comparação entre a imensa liberdade da música toda que ouvia, essencialmente não-portuguesa, foi mais inspiradora para numa primeira fase imitar aquilo de que gostava. O inglês surgiu com essa naturalidade, de alguém que replica aquilo de que gosta. É isso que as pessoas fazem no início, na sua adolescência e pós-adolescência, imitam aquilo que admiram, tentam encontrar-se dentro daquele modelo.
Depois, com a mesma naturalidade, também por intermédio do Chico Buarque de Hollanda, do Brasil, comecei a ouvir na minha língua uma forma de veicular coisas bastante excitantes duma forma muito bela. Acabei por criar algum prazer replicável, algum amor à minha língua, muito mais através da arte de Buarque, por acaso. Isso permitiu-me também fazê-lo calmamente, fora dos meus preconceitos adolescentes, de não gostar de confundir muito tudo o que se fizesse aqui com folclore. O português transformou-se na minha língua musical de trabalhar no momento em que comecei a encontrar nele exemplos ou pontos de partida onde senti que podia expandir a minha liberdade ou a minha forma. Mas sinto que isso nasceu mais do Chico do que de qualquer autor português. A língua já está mais que bem representada lá fora pelos nossos poetas. Apetecia-me cantar da forma que me apetecesse, internacionalista, em inglês, em francês, achava que me dizia mais assim. Por outro lado, agora, especialmente através da Ópera do Falhado, houve uma construção de sentido que foi necessária fazer. Com o português e com a expressão em português duma ideia, duma proposta parabólico-mitológica portuguesa. A partir daí, quando criei um pouco mais de à vontade comecei também a tentar usar a língua para trabalhar o meu quotidiano, para exaltar o que tivesse a exaltar.

Em temas teus, como “Rumba dos Inadaptados (ou a Morte do Jovem Contribuinte)”, é reflectido o estado do país...

Eu não sei como é que se resolve o imbróglio do país, o que eu sei é que aquele tema tem um lado curioso. Temos uma publicidade institucional que nos diz como é que se fazem as coisas bem feitas. [nesta altura o Sporting marca um golo e os adeptos que estavam ali ao lado, na Praça da Figueira, fizeram-se ouvir ruidosamente, o que interrompeu o ritmo da entrevista] Nós temos esta enorme clivagem entre sermos uns legisladores sofisticadíssimos que sabem exactamente o que está certo e errado e como se fazem as coisas bem, e depois a praxis é absolutamente ao contrário. O cómico daquela música é conseguir exprimir esse fenómeno. É a história do jovem que fez exactamente tudo o que lhe disseram para fazer, e, no entanto, é uma pessoa inadaptada. É algo que vale por si enquanto parábola, mais do que dizer directamente que isto é uma merda. Tem as suas coisas boas e más, é um país como outro qualquer.

Como é que vês o novo governo?

Ainda não vejo, o que é menos mau. Se calhar são as fases boas, aquilo a que eles chamam “o estado de graça”, como foi com o governo de Guterres, depois do progressismo neo-paternalista de Cavaco Silva, do “finalmente uns gajos porreiros que falam com a malta e dizem que vão arranjar dinheiro para todos”. É o que temos. São portugueses, nossos portugueses, nasceram cá, foram estudar para o estrangeiro, voltaram para cá e estão a tentar pôr o país nos eixos. Não têm conseguido. Algumas coisas têm mudado, nomeadamente, mal ou bem, as pessoas têm sido muito mais confrontadas com o facto de não estarem isoladas no mundo. Têm termos de comparação para aquilo que podem ser as suas exigências sociais. Aí sim, isto inevitavelmente terá que quebrar, um dia destes. Vai quebrando, aos poucos, o grau de exigência e de civismo das pessoas. Porque, caso contrário, vamos ser colonizados, não haja dúvida nenhuma. Vamos ser todos galos de Barcelos à venda. O Sporting está a jogar agora. Os Belle Chase Hotel, há dois anos, participaram no CD Não Oficial do Mundial 2002.

Qual é a tua relação com o futebol?


Vejo-o como um dos poucos fenómenos que conseguem juntar transversalmente classes altas e baixas à volta de uma velha característica humana que é o jogo, o tribalismo de vencer a outra tribo. Serve de exorcismo. É um lado muito tribal, caçador, depósito simbólico do ser humano em forma pura. Ter uma bandeira, um animal, geralmente, um símbolo totémico, é a coisa mais parecida que nós temos com uma espécie de espaço público. É a única que atravessa classes sociais, económicas e culturas e formações. À volta do futebol as pessoas exaltam tudo aquilo que não conseguem exaltar no seu dia-a-dia, exaltam as suas derrotas mais profundas e mais vagas e simbólicas. Acho um fenómeno incontornável. Não aprecio nele o lado de horda irracional que faz com que as pessoas abusem dos outros com a justificação do futebol. Acho que muitas vezes aquilo que o futebol solta, motiva e alimenta é muito mau, muito irracional. É muito parecido com o que a Igreja fazia, pegar nos medos das pessoas e controlá-las por aí. Estar-se bastante nas tintas para aquilo que elas fazem entre si, se isso é melhor ou pior para elas. Que a grande maquineta continue a funcionar e que toda a gente, em dia de bola, pare e pague aqueles salários fantásticos daquela gente toda, e do dinheiro que está envolvido nesse negócio. Há pessoas que só no futebol é que conseguem ter um bocadinho de descanso. Como dizia um treinador qualquer inglês, “futebol é mais que uma questão de vida ou morte”. É fantástico, cria uma dimensão metafísica anterior à própria criação da metafísica, profundamente animal. É uma libertação.

O nome dos Belle Chase Hotel vem dum filme do Jim Jarmusch, o do Quinteto Tati remete para Jacques Tati. Qual é a tua relação com o cinema?

Não sei se isso será alguma coincidência. A referência ao Jacques Tati e àquela ideia dum tipo humano e dócil que se passeia no meio das estruturas burguesas e burocráticas sem encaixar muito bem no meio delas, sem que as estruturas o consigam estandartizar, é um lado curioso. É um lado que me fascina por existirem pessoas que conseguem criar uma dimensão individual que ultrapassa a social. É como se a social fosse uma espécie de metáfora grotesca da liberdade e responsabilidade pessoal. Quando começámos a fazer música para teatro, na ópera, tentámos fazer uma música mais fílmica. Acabou por não acontecer, acabámos por fazer canções e fazer canções com uma inscrição muito mais pessoal, mais dramáticas e com uma ironia menos brilhante e positiva que o Jacques Tati. A referência ao cinema traduz-se sempre por o cinema ser um depósito de imagens e de construções humanas. Portanto, quando falas em música, um gajo não se vai chamar dó maior porque gosta mais do dó maior, ou escala menor porque o seu trabalho tem muito mais a ver com acordes menores do que o resto. O universo tem sempre a ver com a imagem. Um título é uma sugestão. É fácil ligar isto ao cinema e o cinema ser um ponto de partida filosófico, histórico ou afectivo para o que se irá fazer.
Nos Belle Chase Hotel andavámos à procura de nomes, nenhum tinha a ver com cinema. Mas quando toda a gente se apercebeu da história que estava à volta desse hotel, houve um lado curioso, um lado mais ou menos consensual na capacidade sugestiva que esse nome tinha. Veio das imagens, da música à volta do filme, os actores eram músicos, temos ali uma data de ligações.

Como é que vão os Belle Chase Hotel hoje em dia?

Vão já na reforma, coitados. Na verdade, era muito simpático, numa altura como estas, como os Belle Chase têm um nome na praça, pegar, fazer um disquinho, todo cordato, juntar a malta amiga e aproveitar o lado corporativo da coisa e tentar safar a nossa vida profissional. Só que as bandas funcionam como os casamentos. Há uma altura em que podes tentar manter a cara, mas aquilo já não está a funcionar bem, já se esgotaram os entusiasmos iniciais, houve circunstâncias que pesaram na relação, houve muitas atribulações não muito bem resolvidas, houve incompatibilidades, houve outras paixões pelo meio. A coisa desprendeu-se. E agora retomá-la artificialmente não era muito digno para as pessoas. Não queremos estar aí armados em dinossauros, em fantasmas de nós próprios. A banda está a dar uns concertos para comemorar a nossa invenção, temos um património musical do qual não nos envergonhamos e vamos tocá-lo, mas não há essa motivação, pelo menos da minha parte, para trabalhar de novo para que aquele grupo volte a juntar-se. Andamos desencontrados.

O disco novo do Quinteto Tati, como vai?

Vai lentamente em busca de si próprio, porque ainda estamos com a lentidão que tem sido própria do nosso processo. O disco saiu há um ano e um mês e só nos últimos dois, três meses é que começámos de facto a promovê-lo. Neste preciso momento o novo disco é uma coisa desejada, mas isso tem a ver com os timings do comércio, da produção. Nós de facto estamos com vontade de o fazer mas num sentido mais pessoal, de aumentar os concertos, começar a falar sobre outras visões que têm menos a ver com a fase com que foi feito o Exílio. Temos algumas canções já de princípio, duas ou três que já estão mais ou menos a funcionar. Está bem, está de saúde. Está ainda em gestação, é ainda um feijãozinho. Estamos a construir outro disco, não sei exactamente para onde se dirige, mas há uma ideia consensual de que é um disco um pouco mais assertivo, não um poço de melancolia auto-irónica. Será talvez um disco um pouco mais narrativo, de pequenas histórias do quotidiano. O curioso é que, quando tu ouves um trabalho que fizeste à distância de um ano, consegues ver mais ou menos que as canções se remetem a determinado período. Elas são circunstanciais e neste preciso momento é curioso, mas sinto sempre que a maior parte dos discos, mais do que serem trabalhos onde se desenvolvem conceitos actuais ou precisos, são quase futurologia. Ou seja, estamos a tentar construir canções que nos motivem a avançar com a nossa vida por algum lado. Vontade não falta, há um grupo que está com vontade de funcionar e de continuar.

Donde é que vem a tua personagem em palco?

Talvez dos copos. Não sei, sinceramente já me etiquetaram muita coisa. Tenho que assumir que, de facto, há duas ou três coisas que eu possa não identificar comigo, são ou foram constantes. De certo modo, eu nunca gostei daquela falsa comunicação porreirista do “Oi pessoal, adoro-vos”, sei lá se adoro as pessoas! Eu tento ser real, estou ali e vou expor a minha disposição, contar umas histórias, introduzir umas músicas e isso foi-me pondo um pouco mais à vontade. Durante muito tempo isso teve a ver com beber uns copos e ficar extrovertido, muito contente por vencer a minha timidez, perante um montão de gente, maior ou menor, ou um montinho. Aos poucos transformou-se numa marca registada, mas devo dizer que não foi uma coisa construída, não foi uma manobra de marketing personalista, foi uma flor improvável auto-irónica, surrealista e extremamente sincera que desabrochou. Por isso é que acho curioso falarem em personagem. Não há personagem, a personagem sou eu. Quer dizer, é uma parte de mim. Uma parte que se sente presa, que sente os olhares em cima dele, e não gosta de dizer às pessoas uma treta qualquer, habitual, prefere dizer uma treta sua.

Tens formação em jornalismo, em que é que isso influencia a tua maneira de ver as coisas, de escrever?


Trabalhei numa data de sítios, comecei por trabalhar na Capital, tive empregos patetas em revistas que não interessam ao menino Jesus. Nos últimos tempos escrevi para a Egoísta e para duas revistas de arquitectura, que entretanto foram ao ar. Fui sempre colaborador, nunca tive um contrato de trabalho, e também nunca me esforcei muito. Naturalmente que uma formação suscita determinadas leituras, e há qualquer coisa de bom na formação académica em geral que faz bem. A formação de jornalista deu-me algumas dicas acerca de como as coisas funcionam, como funciona o nosso atribulado mundo da informação e da urgência da informação e do facto tornado acontecimento, ou do falso acontecimento, ou da entropia informativa. Noções para perceber melhor a realidade informativa. Isso naturalmente que alicerça o meu ponto de vista sobre as coisas. Não escrevo como jornalista, isso pode alterar a minha reflexão, mas tento ser preciso. Se eu quiser descrever por exemplo uma ideia ou um sentimento, tento descrevê-la o mais jornalisticamente possível, ou usar uma metáfora mais ou menos clara para comunicar o mais possível idealmente para dentro. Aí, esperar que o resultado para o exterior seja igualmente claro. Nunca será, claro. A única coisa que me influenciou no trabalho musical foi no início. Nessa altura chateava-me brutalmente com as entrevistas, as empresas todas que põem as pessoas a trabalhar de graça e mandam sempre o estagiário desgraçadinho cheio de ideias, um quer ser a Margarida Marante, um quer ser este ou aquele. Um gajo acaba de lançar um disco e dizem: “E então o futuro?” Por favor não me falem do futuro, acabei de chegar! Houve de facto uma exigência que fiz com os meus “colegas de profissão” que acho que até tornou a relação do meu trabalho musical com a comunicação social mais curiosa. Sinto que tento ser claro em termos informativos, mas não acho que escreva como um jornalista.

O que é que aconteceu ao teu bigode?

Sabes que os bigodes, com o tempo, começam a ficar cheios de sopa juliana, de caldo verde e a coisa começa a ficar pior. Quando me apareceu um cogumelo no bigode, tive que o cortar, porque estavam a nascer coisas que eu já não queria no bigode. Equívocos cogumelos nasceram do meu bigode, e deixei de me dar tão bem com ele. Corria o risco de me transformar num bigode, e eu não queria de modo nenhum transformar-me num bigode. Não é que o meu amor-próprio seja enorme, mas há limites. E acho que tenho conseguido, o que é que te parece?

Eu acho que sim.

Obrigado, isso foi motivador.
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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