ENTREVISTAS
JP Simões
Música Popular
· 24 Jan 2011 · 00:12 ·
© Estelle Valente
Foi o rosto dos grupos Belle Chase Hotel e Quinteto Tati, agora assina apenas JP Simões. Depois de um marcante 1970 (obra-prima de 2007) e de Boato (prova de vida de 2009), Simões junta-se ao guitarrista jazz Afonso Pais para um projecto em parceria. O disco, fresquinho, está aí a chegar, com o título Onde mora o mundo, e lá vamos encontrar as palavras de Simões entrelaçadas com as melodias de Pais. No próximo domingo JP Simões apresenta-se ao vivo para a primeira edição do “Bodyspace Au Lait”, série de concertos que terão lugar no Café Au Lait no Porto, pela “matiné”. Num fim de tarde n´A Brasileira do Chiado - as fotos exclusivas provam isso mesmo - Simões falou ao Bodyspace sobre aquilo que aqui temos e sobre aquilo que aí vem. Se por acaso o virem por aí, não deixem de ouvir as suas tristes canções de paz e amor.
Tens um novo disco em parceria com Afonso Pais, previsto para sair, mas até agora ainda não foi editado. O que aconteceu?

Aconteceram uma série de coisas alheias aos autores do disco, coisas que tiveram que ver com a estratégia da editora, com a situação económica e outras circunstâncias editoriais... O disco estava previsto para sair em Setembro, mas espera-se que saia agora em Fevereiro.

Qual é a editora do disco?

É a Movieplay, através de uma marca dentro da Movieplay que é a Orfeu. A Orfeu é uma editora antiquíssima que está agora a ser recuperada e o nosso disco vai ser o primeiro da nova Orfeu. É algo simbolicamente apetecível, que nos motivou a fazer o trabalho com a Movieplay, e espero que seja uma coisa interessante no panorama editorial português. Eles têm um conjunto de projectos em gaveta bem curiosos. A Orfeu estava para ser lançada com um disco de homenagem ao Zeca Afonso, mas houve alguns problemas com as pessoas que detém os direitos da sua obra e esse disco tem sido adiado, mas a ideia seria esse disco fazer a ligação entre a “antiga Orfeu” e a “nova Orfeu”. Não tendo isso acontecido, será o nosso disco a inaugurar a Orfeu.

© Estelle Valente

Como surgiu esta parceria com o Afonso Pais, um músico vindo do jazz?

Esta é uma parceria em que o Afonso é o compositor e eu sou o letrista. Apesar de termos métodos diferentes, e de sermos pessoas muito diferentes, temos uma paixão comum pela canção e pela música brasileira e essencialmente acho que foi isso que resultou. Além de eu ser um grande admirador do trabalho do Afonso e de ele nutrir alguma simpatia e admiração pelo meu trabalho, às duas por três surgiu a ideia de fazermos uma parceria, juntando a minha forma de fazer canções com a forma de fazer música dele. A ideia foi-se desenvolvendo ao longo de cerca de dois anos, tivemos um primeiro encontro, ele deixou umas músicas, eu fui fazendo umas letras e no fim do ano passado juntámo-nos e resolvemos: “vamos fazer isto!”. Fizemos um retiro de uma semana no Sul, em Março, e depois outro retiro no Norte, em Junho, e nesses dois retiros fizemos as canções todas do disco. Entretanto entrámos em estúdio em Julho e em Setembro acabámos o disco. A escolha do Afonso foi uma coisa mútua, escolhemo-nos um ao outro e o trabalho reflecte tanto a nossa proximidade quanto a nossa distância.

Este novo disco poderá ser uma continuidade do 1970?

Não é uma continuidade do 1970 porque este novo disco é um trabalho em parceria, com um músico com uma personalidade forte, feito noutro tempo, por isso essa ideia de continuidade não faz sentido. Aquilo que vou fazer com o Afonso é uma soma de competências e afinidades que resulta numa terceira coisa. É um disco onde as canções vacilam entre serem momentos activos de improviso jazz ou de serem canções. Há um lado estrutural e narrativo que vem mais do meu lado, pela imposição da estrutura das letras, de ciclos e arrebatamentos ou tensões e distensões. Por outro lado, o Afonso tem outra forma de ver a música que tem mais a ver com a história do jazz, com a forma de estruturar um tema: o solista apresenta o tema, depois entra toda a banda e faz uma reintegração daquilo que foi exposto inicialmente, depois há momentos em que há solos, depois a banda volta a reintegrar o tema, depois há solo dentro da reintegração final... São dois mundos, com semelhanças mas também com muitas diferenças, que aparecem nos temas, há um lado de equilíbrio.

Como avalias este disco?

Não consigo avaliar o alcance daquilo que fizemos, seja curto ou longo. Gosto muito do disco, foi um disco extremamente desafiante, as melodias e as harmonias que o Afonso propõe são coisas que implicam do cantor uma capacidade expressiva imensa – até porque passei o tempo todo de estúdio com bronquite e o mais difícil é não dar bronca. Agora estou à espera de uma coisa muito importante para formar a minha opinião: a opinião dos outros. E depois é uma questão de sorte. Há um tipo que simpatiza com aquilo sabe-se lá porquê não sei onde e de repente o disco é um marco do século XXII. Depois há um tipo qualquer que não gostou porque aquilo lhe lembrou daquela vez que a tia-avó lhe bateu com uma havaiana da praia porque ele meteu o dedo num bolo de chocolate em 1973, pimba. Tudo isso é enriquecedor. As coisas nascem do caos, ficam concentradas num certo registo e depois voltam para ele. Neste momento, em que o disco ainda não saiu, pode ser tudo o que quisermos. Mas é um disco muito sólido musicalmente e poeticamente, muito severo às vezes, não tem grandes contemplações com aquilo que poderia ser mais plausível comercialmente...

O título Onde mora o mundo é uma afirmação ou uma interrogação?

Começou por ser uma interrogação, mas achei que assim era mais complicado. A frase do título não tem pontuação precisa. Agora que penso nisso até pode ser uma sugestão saramaguiana, em que a pontuação é uma coisa que tem de ser feita na cabeça do leitor e não tem de estar inscrita. Deixar isso em aberto acaba por ser simultaneamente uma interrogação e uma afirmação. A pergunta simboliza a relação de desejo da pessoa com o mundo: “onde está o amor?”, “onde está a felicidade?”, “onde mora o mundo?”. O lado afirmativo, “onde mora o mundo”, mora no significado, mora no disco, onde se criam uma série de sentidos e onde propõem uma série de lugares reais e poéticos, que simbolizam o que fazemos, o que somos, o que desejamos. É esse o mistério do título do disco - e já não é pouco!

© Estelle Valente

Nos últimos concertos tens tocado ao vivo uma música nova que se chama "No Havai e no Taiti, no Haiti". Vai fazer parte deste disco?

Não, essa não vai fazer parte deste disco com o Afonso. Ultimamente tenho feito concertos a solo, voz e guitarra, e nesses concertos vou tentando não ser muito repetitivo, tocando temas novos, experimentando se os temas envelhecem bem ou apodrecem mal. Essa canção poderá ter lugar num eventual novo registo, esse sim, na continuidade do 1970. Já não faço um disco desde então, o Boato não foi propriamente um disco completo e inter-relacionado, uma vez que aproveitei um espectáculo para tocar uma série de canções antigas e algumas canções novas; acabou por ser metade disco ao vivo, outra metade disco de inéditos, num registo simplificado. Acabou por não ser um disco em que se vai trabalhar de uma ponta à outra, com toda a felicidade e desespero que isso implica. Creio que nos próximos meses vou trabalhar nesse novo disco.

As tragédias e desgraças (pessoais, sentimentais) são uma boa fonte de inspiração?

Não diria que são uma inspiração, diria mais que são um forte condicionamento discursivo que eu trago. O meu discurso tem como núcleo uma espécie de fundo negro, um buraco negro que suga a luz, sendo a luz uma analogia de alegria afirmativa, uma boa dialética de relação entre os sujeitos que levam ao amor ou à resolução de conflitos ou formas de fazer justiça social ou não sei quê. Tendencialmente, tenho uma identificação primária com a tragédia. O que tento fazer é pegar nessa circunstância discursiva e a partir daí ir até aos limites da tragédia, através de um ponto de fuga, que pode ser a ironia, ou pode ser uma solução mais mágica, ou utilizando como mera metáfora de um certo lado incurável das sociedades humanas. Eu também questiono esse porquê de sucumbir ao buraco negro e não foi à toa que fui procurar o lado mais solar da música brasileira, para depois esta se encontrar com a minha tendência obscura, nihilista e desagregante, para criar uma música que fosse mais ou menos equilibrada, aquilo que poderia chamar de “desespero solar”. A minha música tem funcionado como uma forma terapêutica de organização em sons e palavras, em sentidos e sugestões, uma forma de ir reflectindo, a ver se resolvo os meus problemas, a ver se posso ser um elemento mais interessante nesta comunidade de doidos. O que já será trabalho de cidadania suficiente, julgo eu.

O Sérgio Costa tem sido um parceiro constante ao longo da tua carreira, mas não participa agora neste disco novo. Qual tem sido o papel dele na tua música?

O Sérgio começou a relação musical comigo há muitos anos atrás. Ele era professor do Pedro Renato e na altura foi convidado para ingressar nos Belle Chase Hotel. Ele era um óptimo músico, com uma série de referências musicais que não eram as nossas, e creio que ele gostou de partilhar os seus conhecimentos connosco e acho que acabámos todos por crescer um bocado com essa partilha. Depois o Sérgio quis sair de Coimbra - estava farto do pequeno-burguesismo atrofiante daquela cidade narcísica-bimba, com valiosas excepções, claro, mas uma cidade castradora e condicionante com o seu próprio discurso e história perpetuado por aquela malta toda, adiante - e aqui em Lisboa começámos a trabalhar juntos. Eu tinha a ideia de fazer uma ópera, uma versão portuguesa da Ópera do Malandro e com o Sérgio, que tem um imenso conhecimento musical técnico, começamos a partilhar esse trabalho. Em simultâneo a nossa amizade foi crescendo e durante muitos anos trabalhámos quase exclusivamente um com o outro. Fizemos a Ópera do Falhado, tivemos o Quinteto Tati (que sofreu com a falta de fluidez e o projecto foi morrendo naturalmente) e por essa altura senti a necessidade de criar um objecto reflexivo onde eu me pudesse responsabilizar de uma ponta à outra. O Sérgio acabou por contribuir para o 1970, durante algum tempo tocou comigo, mas por essa altura começou também a ter vontade de fazer o trabalho dele. O Sérgio está agora num projecto dele, que é uma coisa que teria dificuldade em fazer se tivesse continuado a trabalhar comigo. Aí teria também a pressão castradora de certa comunicação social, que não valoriza as pessoas que integram um projecto musical.

Os Belle Chase Hotel regressaram para dar concertos. Como aconteceu este regresso?

Veio uma voz do além que disse “veeeenham tocar” e nós viemos. Porque não? A banda fez 15 anos o ano passado, já não tocámos há muitos anos, o repertório continua a ter piada, as pessoas estavam com vontade de tocar, houve interesse por parte de produtoras e salas de espectáculos... Se o peixe ainda está fresco, deitá-lo fora para quê? A ideia é simplesmente ganhar algum dinheiro e trabalhar um repertório que é nosso, que é uma coisa boa, tem resistido ao passar do tempo, não é uma coisa patética, creio eu. Muito embora, pela minha parte, arrepiam-me às vezes certas passagens de algumas letras, já não diria aquilo da mesma forma, mas isso são coisas normais. O primeiro (e único até agora) concerto que fizemos foi muito bom, foi uma outra forma de cantar e de estar em palco e depois destes anos todos soube bem a toda a gente.

© Estelle Valente

E para além dos concertos, há ideias para novos temas e gravações?

Já ninguém tem ideias ali, foram estilos de vida muito intensos que nesta altura já não lhes permitem ter ideias – por mim falo. Estou a brincar, não faço a mínima ideia. O prazer de estar a fazer aquilo descomprometidamente tem sido tão grande que vou adiando tantricamente a resolução disto.

Quando começaste a aparecer houve a associação automática ao Chico Buarque. Entretanto tens vivido bem com isso e tens tocado ao vivo várias versões - “Joana Francesa”, “Gota d´Água”, “Tatuagem”. Como tem evoluído essa relação com o Chico?

Pela minha parte acho que tem evoluído bem, o Chico está vivo e de saúde (creio eu) e eu também. A minha admiração por ele é imensa, mas o meu trabalho não é esgotar-me numa função mimética. Não quero com isto dizer que alguma vez na vida tenha tido algum pensamento original ou construído qualquer coisa verdadeiramente original, acho que isso é muito raro, ter uma ideia nova é das coisas mais raras do mundo. O que quero dizer é que o Chico é uma referência enormíssima. O Chico é como se tivesse sido o arquitecto de uma cidade, onde eu passeio quando estou a fazer canções. Essa cidade tem uma determinada configuração que pode ser muito condicionante para mim, posso acabar por ir pelas mesmas ruas várias vezes. É uma presença à qual é muito difícil de escapar. O nosso trabalho de emancipação é um trabalho de uma vida inteira, de emancipação dos nossos pais, dos patrões... Quem sou eu para dizer que já ultrapassei ou se vou alguma vez ultrapassar? É importante que as pessoas tenham a delicadeza de passar um pouco ao lado disso, ver o meu trabalho como sendo meu, sem esse epíteto do “não-sei-quê português”. Até parece a história do Carlos Castro, quando alguém disse “é o Versace a que temos direito”. Eu digo que não, o gajo é como é. Ou era como era. Ou foi como foi. Valha-me Deus. Isto são óbvias necessidades referenciais e isto é uma referência que eu nunca neguei. Agora, não é preciso exagerar.

Já editaste dois livros, a “Ópera do Falhado” (libreto) e o “Vírus da Vida” (contos com ilustrações de André Carrilho). Há ideias para outras edições?

Sim, tenho planos, mas não são muito precisos, nem sei quando poderei fazer isso. Para voltar a editar terá de ser qualquer coisa que faça sentido. E depois há uma certa preguiça...

Após a edição deste disco novo, e dos concertos que se seguirão, quais são os teus planos?

Evitar a morte, a doença, a falência e o desamor. São essencialmente estes os meus planos para o futuro.

E em termos estritamente musicais, editar um novo disco?

Tenho planos de fazer um disco novo e que seja que eu possa colocar finalmente a seguir ao 1970. Aquele disco foi demasiado importante para mim, demasiado autobiográfico, conceptualmente pessoalíssimo, onde criei uma espécie de mapa de identidade afectiva, entre o real e o ficcional, foi uma terapia pela representação. Aquilo também esgotou algumas coisas óbvias, da minha vida no Brasil, da minha família, da minha forma de tentar criar uma identidade a meio caminho, de criar uma ilha geo-afectiva situada a meio do Atlântico, entre Portugal e o Brasil, tudo isto são coisas importantes porque são reais. Apesar de ter o ano do meu nascimento, o disco deveria reflectir a música que se poderia fazer em Portugal nos anos 70, já sob a influência de toda aquela música brasileira que já se ouvia aqui. Agora não sei bem o que vai seguir, "I know not what tomorrow will bring" [Pessoa]. A minha garantia é que vou com certeza sofrer muito até conseguir fazê-lo – sofrer como um certificado de garantia que não será um disco desprovido de significado. E espero que seja claro e que consiga condensar de maneira simples tudo aquilo que se sabe sobre o mundo. Afinal, é esta a maior aspiração de toda a gente que tem por objectivo fazer música popular.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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