ENTREVISTAS
João Paulo
Memórias incertas
· 04 Jul 2007 · 08:00 ·
© Rodrigo Amado
Com Memórias de Quem, João Paulo Esteves da Silva reclama um pouco mais de atenção para algo evidente: que ele é um dos melhores pianistas jazz (e não só) de Portugal. Os seus discos anteriores e as imensas colaborações com artistas portugueses e estrangeiros mostravam já a qualidade pianística de João Paulo, mas Memórias de Quem, disco de uma sensibilidade impressionante, tem o poder de subir a fasquia. Ao longo de nove temas, o pianista ilustra toda a sua relação com o instrumento enquanto se debate com as memórias de alguém ou de algo não identificado - talvez as suas, talvez as do piano. Em entrevista ao Bodyspace, João Paulo percorre a sua biografia na tentativa de se explicar o presente e de recordar alguns dos momentos mais importantes da sua carreira. Sempre à espreita do futuro, sem esquecer as memórias.
Começou a tocar piano com tenra idade, desde os 4 anos diz-se na sua biografia. Se não me falham as contas vive musicalmente com o piano há 42 anos. Como gere essa relação de longa data?

A minha relação com o piano é comparável à que a minha avó materna tinha com a dentadura postiça, quer dizer, nos momentos felizes tudo se passava como se os dentes fossem dela e não uma prótese, quase não os sentia e podia falar e mastigar com prazer. Foi ela quem me ensinou a tocar. O piano é uma prótese estranha e imponente que tende a atrair demasiado a atenção devido ao volume exagerado que ocupa, mas o ideal, no fundo, seria esquecer o piano e poder ouvir a música, só; e depois não pensar mais neste instrumento do que se pensa, por exemplo, num pincel, quando se olha para um quadro.

Recebeu uma série de prémios no passado, terminou o Curso Superior de Piano com 20 valores, recebeu até uma bolsa do estado português. Trabalhou para se poder dedicar exclusivamente ao piano?

Sinceramente, não. Nunca foi esse o meu objectivo. Tenho trabalhado muito, sim, para conseguir melhorar a qualidade da música que produzo. Tenho feito por isso, lutado mesmo. E a luta inclui processos e métodos que não passam obrigatoriamente pelo piano. Mas, no que respeita a exclusividade, nem mesmo substituindo mentalmente a palavra “piano” pela palavra “música” poderia responder que sim à pergunta. Dedico-me também a muitas outras coisas, à poesia, por exemplo, ao estudo do hebraico, à família…

© Rodrigo Amado

Que retrato faria da sua experiência em França? Qual foi a real importância da sua estadia nesse país para aquilo que faz hoje musicalmente?

Vivi oito anos em França. E terei ficado marcado para sempre. Foi lá que aprendi a lidar com o facto de ser português. Viver no estrangeiro levou-me a aceitar Portugal como condição. Comecei por fugir daqui, por afastar-me disto, do país, das pessoas e, sobretudo, da língua portuguesa. Até que comecei a perder efectivamente a língua, a tropeçar nas palavras quando queria falar português. A sensação foi a de perigo iminente, apercebi-me de que esta perda da língua, implicava a perda de quase tudo; nunca chegaria a ser francês e já não seria português, ficaria ali a pairar num limbo sem criatividade, no qual a música que eu perseguia se me escapava sem apelo. Sentir isto no corpo foi o começo do regresso, houve um sinal de alarme e comecei a viajem, vivendo ainda em França. Nos últimos anos, voltei a dedicar-me diariamente à prática do português, lendo em voz alta, por exemplo, indo de propósito ao mercado dar dois dedos de conversa com o vendedor de bacalhau e chouriços e por aí fora. Neste movimento, a música começou a aparecer com um pouco da minha cara. Uma cara portuguesa, claro; ficava claro que era assim, não havia nada a fazer senão aceitar. Mas descobrir esta condição, ao contrário do que se poderia esperar, foi motivo de alívio e mesmo de grande alegria. Foi lidar com um paradoxo engraçado: quanto mais perto de Portugal, mais facilmente poderia partir dali, quanto mais firmemente ligado à origem, mais forças teria para afastar-me e eventualmente libertar-me dela.

Memórias de Quem, o seu novo álbum, foi gravado em 2006 e editado no passado mês de Fevereiro. Que lhe oferece dizer sobre o processo de composição e criação do mesmo?

É um disco improvisado. Quer isto dizer que as peças surgiram no momento em que foram tocadas. Tocar e compor são, neste caso, processos sobrepostos e a versão definitiva coincide com o primeiro rascunho. Esmiuçando um pouco, é possível distinguir neste disco diferentes tipos de improvisação; digamos três tipos: Na maior parte, trata-se de improvisações livres que não utilizaram nenhum material consciente prévio; depois há as três peças (“Mi Alma”, “Ramagem”, “Durme”) que vão ao encontro de melodias tradicionais e, por fim, o caso especial de “Soneto de Renato” em que o texto do poema (que vai publicado com o CD) de Renato Suttana foi posto à frente dos olhos, na estante do piano, e a música surgiu a partir da leitura.

Este Memórias de Quem é um disco a solo. O João Paulo a solo e o João Paulo a colaborar com outras pessoas são dois músicos diferentes?

Não me ocorreu ainda essa possibilidade de utilizar heterónimos para os vários tipos de trabalho; mas é capaz de não ser má ideia. Fora de brincadeiras, a diferença estará simplesmente entre o co-laborar e o laborar sozinho, não tanto na pessoa do músico. O trabalho fornecido tenderá normalmente a ser diferente nos dois casos; mas isto não é uma necessidade absoluta. Imagine, por exemplo, que uma improvisação de piano solo é gravada, orquestrada por outra pessoa e, finalmente, tocada por uma orquestra. Aqui, solista e colaborador coincidem quase plenamente. Digo quase, porque há ainda a história, há o tempo. E o tempo é o que impede o mesmo de coincidir totalmente consigo.

Este novo disco foi gravado no Teatro Virgínia. Por algum motivo especial? Acústico, sentimental?

Eu já lá tinha tocado, em concerto, conhecia a sala e o piano e sabia que, tecnicamente, era possível gravar ali. O Pedro Santos, meu agente e também produtor do disco, fez então a proposta à direcção do teatro que, gentilmente, aceitou.

Como se preparar para os concertos ao vivo e como é que vê a apresentação do seu trabalho? Dá-lhe mais prazer tocar ao vivo do que editar um disco?

A preparação para os concertos é a mesma do que para os discos. No caso do solo ou de grupos de música improvisada (As Sete Ilhas de Lisboa, por ex.) a preparação consiste em apurar o ouvido e velar pela qualidade da escuta. Todos os exercícios diários, perto ou longe do piano, sonoros ou silenciosos, se podem resumir neste esforço para melhorar (ou, no mínimo, manter) a capacidade de escuta. A diferença entre gravar e tocar ao vivo é a de poder, ou não, deixar uma marca, um rasto. Agrada-me a ideia de os meus discos poderem ser ouvidos no futuro; mas, estranhamente, também me agrada a ideia de tocar música que seja perdida para sempre… Se a música for boa, também há-de ser boa para ser esquecida. E depois, tenho esta suspeita de que a memória e o esquecimento mantêm, às escondidas, uma relação amorosa, ilícita e imemorial.

Até aos dias de hoje envolveu-se na música do jazz à música popular portuguesa, da clássica ao fado. Como é multiplicar-se assim em tantos campos distintos? Volta sempre ao jazz?

O praticar diferentes tipos de música tem a ver com gostar de diferentes tipos de música. Aliás, pensando melhor, eu não gosto do tipo de música, gosto ou não gosto da música, antes de me ocorrer reparar se é jazz ou canto mongol. O primeiro encontro é um encontro com o desconhecido, só depois vêm as perguntas: donde vens, onde é que moras, etc… Perguntas que se prendem com o lado polícia ou político de cada um de nós. E este aspecto polícia-político, sendo um aspecto fundamental da existência, já não é directamente musical, ou artístico… Agora, voltar sempre ao jazz? Sim, se no final do dia me dispusesse a classificar os tipos de música com que me cruzei, seria raro a palavra jazz ficar fora da lista.

Sérgio Godinho, Vitorino, José Mário Branco, Fausto, Filipa Pais, Tomás Pimentel, Mário Laginha, Maria João, Pedro Caldeira Cabral, Ana Paula Oliveira, Carlos Martins, André Fernandes e Carlos Barretto. Trabalhou com estes nomes a nível nacional. Como é para si ser solicitado para “prestar serviço” a outros, entrar no trabalho de outros?

Essa lista de nomes diz respeito a colaborações muito diferentes, quer no tipo de trabalho (arranjador, acompanhador, director ou sideman, etc.), quer na duração das colaborações, que vão do encontro pontual até às dezenas de anos de convívio musical. Seria fastidioso entrar em pormenores para destrinçar tudo isso. Não posso deixar, no entanto, de simplesmente prolongar um pouco a lista para incluir mais alguns nomes de músicos que considero importantes como, Jorge Reis, Mário Franco, José Salgueiro, Carlos Bica, Ricardo Rocha, Ricardo Dias, Rui Luís Pereira, Paulo Curado, Bruno Pedroso… A sua expressão “prestar serviço” é bastante apropriada àquilo que se passa na colaboração musical. Mas a prestação de serviços é mútua, tem que ser, sempre, senão a coisa não funciona.

© Rodrigo Amado

Não vou mencionar os nomes estrangeiros com quem trabalhou no passado. Mas pedia-lhe que me apontasse dois ou três dos músicos com quem mais gostou de trabalhar a nível internacional e porquê…

Peter Epstein, saxofonista americano, que está presente em quatro dos meus discos para a M.A recordings foi talvez o encontro musical mais estimulante, internacionalmente falando. Nos últimos tempos, o Peter mudou-se para a West Coast o que lhe tem dificultado um tanto a possibilidade de vir tocar à Europa; mas espero voltar a tocar e gravar com ele na primeira oportunidade que surja. Cláudio Puntin, clarinetista e Samuel Rohrer, baterista e percussionista, músicos suíços residentes na Alemanha, com quem formei um trio, Cor, gravei um disco ainda inédito e com quem espero ter a possibilidade de tocar cada vez mais. Muito recentemente, gravei, para a Cleanfeed, com o trompetista Dennis Gonzalez. Música totalmente improvisada, a dois, por nós e por ela, música.

Como vê os pianistas jazz em Portugal? Falo obviamente do Bernardo Sassetti e do Mário Laginha. Existe mais algum nome que me esteja a esquecer?

O Mário e o Bernardo são excelentes! Já há muito tempo que atingiram um alto nível e estão a tocar cada vez melhor. Aproveito para lhes dar os parabéns, aqui, publicamente. Claro que há mais pianistas. Estou a hesitar se deva ou não fornecer uma lista de nomes que incluísse quer jovens promissores quer pianistas mais velhos, mas vou abster-me porque estaria condenado a ser injusto e omisso; convido-o, então, a procurar. Estou certo que vai encontrar músicos de grande qualidade mesmo se dificilmente ao (alto) nível do Mário Laginha ou do Bernardo Sassetti.

Que músicos lhe fazem gostar do jazz actualmente? E do passado?

Para evitar uma lista interminável, proponho um limite e um jogo: entre mortos e vivos, dez nomes, os primeiros que me ocorrerem. Cá vai, Keith Jarrett, Ornette Colemann, Julian Arguelles, Craig Taborn, Dave Douglas, Charlie Parker, Miles Davis, Bud Powell, Wes Montgomery, Warne Marsh…

Depois do disco a solo o que é que se segue? Tem planos para um futuro próximo?

Há o duo com o Dennis Gonzalez, o trio Cor, com discos gravados ainda inéditos. Para já, para já, continuam os concertos a solo e algumas colaborações. Esta semana, por exemplo toco com o Mário Franco, no grupo dele, com o David Binney e o João Lencastre.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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