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ENTREVISTA (EXTRACTO)


Intriga-me, de facto. E olhe que não me considero nada truculento, sorumbático ou arredio. Tampouco me incluo no número daqueles que exibem desdém pelas coisas mundanas. Tenho bons amigos, gostos em comum, saio, bebo uns copos, etc., mas com a música é que não posso. Vou, inclusive, ao cinema, embora raramente, e precisamente por isso. Não compreendo como é que se possa gostar de música. Eu não gosto. E intriga-me, com efeito, que sejam tão raros os que, como eu, a detestem. A música é uma aberração da natureza. E nem sequer falo já da instrumental. O fatras rousseauniano a propósito parece-me absolutamente descabido. Detesto em igual grau o chinfrim do canto e do suporte. E perdoe, se gosta do canto, que chame chinfrineira também a este, mas uma voz a fazer inflexões melífluas é algo que me constrange até ao riso. A música, o canto, a melodia, só os concebo aí, na ordem do cómico. E mesmo aí com as devidas reservas. Enquadrá-los-ia, talvez, na sub-ordem da piada de mau gosto, no humor escatológico, no menos apurado dos efeitos cómicos. E garanto-lhe que nisto do riso nem sou dos mais exigentes. Tenho gargalhar fácil: uma anedota de um velho analfabeto far-me-ia rir até às lágrimas facilmente, enquanto a piada fina ou de salão me deixaria praticamente indiferente. A música é que não vou com ela. Digo: uma qualquer. Para que fique claro: qualquer música me aborrece. Soberanamente. Tentei os clássicos, tentei os modernos, tentei a ligeira – julgo ter até adquirido uma cultura invejável para a maioria dos melómanos –, e nada. Portanto: não foi por falta de boa vontade ou de boa-fé. Mas recuso-me a admitir – o que já me foi sugerido – que tenha alguma disfunção, uma vez que a música é uma linguagem universal e uma manifestação presente em todas as culturas! Que ela serve para ritmar o trabalho nos campos do Bali, que ela acompanha a recolecção do mel no Equador – tretas! Considero-me um indivíduo perfeitamente normal, amo até a arte, e vou ao ponto de a considerar presente em certa Banda Desenhada; mas, sempre que existe música por perto, sofro. Ele é música nas ruas, ele é em centros comerciais, ele é no barbeiro, ele é no quarto do vizinho. Tudo é música em torno de mim, e tudo é elogio à música. A TV não a dispensa, a telefonia menos ainda (não vivesse ela disso...) Só na serra, longe do bulício dos onze meses do ano, descanso. Desde que o rouxinol ou o cuco não resolvam entoar aquelas arengas gravadas por Deus, o supremo músico. Mas, é como lhe digo: o que mais me impressiona é que 99,99 por cento das pessoas goste de música. A música é um distúrbio, não tem nada da harmonia que os gregos lhe atribuíam, é uma arritmia barroca. Para compreender o que quero dizer, concentre-se na sua respiração. É um ritmo primitivo com um pólo positivo e outro negativo, o único tolerável, porque o único natural. Se com uma melodia o espartilha em locais inexactos, está tudo estragado, cria a arritmia cardíaca, gera a ira, o desconcerto dos delicados sentimentos. Por isso lhe digo: a música só destrói, só distrai, só divide e, por isso, é uma invenção nociva. Bem sei, isto é uma teoria, mas suponho que não é in-teiramente absurda: sem música no mundo estou em crer que metade dos conflitos não teriam sequer começado. Esta digo-a pela primeira vez, a si e aos benévolos leitores da sua gazeta. Sei que vai causar escândalo e indignação, mas a democracia trouxe este bem enorme: cada um pode impor a sua tirania, fa-zer proselitismo daquilo em que crê. Eu acredito nisto. E intri-ga-me, de facto, como é que as pessoas ainda não repararam nos malefícios incalculáveis da música. Podia tentar tornar-me indiferente a ela, admito, mas como vê prefiro combatê-la.

Paulo Sarmento, «Limalhas» (Escritor, 2000)